Dicas de Roteiro

20/08/2011

Guia de Comédia Britânico (Parte 1) – Escrevendo Esquetes Para Viver

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:47
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O site The British Comedy Guide tem um ótimo guia sobre como escrever comédia para rádio e televisão, mais focado no gosto britânico, claro. Mas mesmo assim tem muita coisa universal sobre o assunto. Como o guia é composto de várias páginas (algumas muito extensas), esta série será bem longa. Portanto, eu postarei este guia intercalado com artigos de outros assuntos, pra gente não enjoar, né? O artigo de hoje é de autoria de David Cohen, um escritor de programas de comédia que foi, por muitos anos, um dos maiores comediantes de comédia em pé da Inglaterra:

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Escrita de Esquetes em Geral

Como Aristóteles nos ensinou há 3.000 anos em ‘Arte Poética‘, toda história tem um começo, um meio e um fim. A nossa história é apresentada, as complicações se sucedem e são resolvidas, quando a catarse é alcançada. Milhares de livros foram escritos sobre o assunto desde então, mas ‘Arte Poética’ nunca foi superada. É realmente muito curta e definitivamente vale a pena ler.

Esta assim chamada estrutura de três atos se aplica a quase tudo. Aplica-se a piadas, por exemplo: "O meu cão não tem nariz", "Como ele cheira?", "Terrível". [N.T.: Como todo trocadilho, esta piada fica melhor na língua original]. Ato Um – apresentação: Eu tenho um cão. Ato Dois – complicações: Ele não tem nariz. Não tem nariz? Então como é que ele cheira? Ato Três – resolução: Terrível.

Isso aplica-se a esquetes, por exemplo: Ato Um – apresentação: Eu comprei este papagaio na sua loja. Ato Dois – complicações: Ele está morto. Não, não está, diz o lojista; por mais complicações que você crie, eu posso descartá-las explicando-as. Ato Três – resolução: Você pregou os pés dele no poleiro. [N.T.: Famosíssima esquete do Monty Python, assista aqui.]

Desculpe por dividir as coisas e deixá-las sem graça. Mas a regra dos três atos aplica-se a cada cena de uma sitcom ou filme, e na verdade a todo filme, como todos os livros tipo “Como Escrever um Filme” inesgotavelmente explicam.

Esquetes são provavelmente a mais simples destilação da estrutura de três atos. Ato Um – apresente uma situação – especialmente se for para rádio, você precisa estabelecer para o ouvinte imediatamente onde você está – uma campainha toca, uma máquina de hospital faz “bip”, uma juke box toca em um bar barulhento. E você precisa apresentar a premissa – duas pessoas conversando sobre algo, enraizado na realidade – “temos alguém na sala ao lado que quer fazer o teste para o papel de Tarzan.”

Ato Dois – complicação. O homem entra e ele tem só uma perna. Como é que ele possivelmente vai ser capaz de interpretar o Tarzan? O papagaio está morto. Nós só podemos servir-lhe Spam. Você não pode ser gay, eu sou o único gay da aldeia. [N.T.: O autor está citando esquetes clássicas, clique nos links para assistir.]

Aqui é onde temos mais diversão, conforme nós levamos a complicação o mais longe possível, até chegarmos ao ato três – resolução. A frase final e engraçada da piada. Esta é sempre a parte mais difícil, razão pela qual o Monty Python e o The Fast Show fingindo que "o esquete apenas termina sem nenhum motivo" era um truque. Eles já eram escritores e artistas de esquetes de sucesso naquela altura, então eles podiam optar por não terminar as suas esquetes com o final da piada. Nós, meros comediantes mortais, não temos essa opção.

Tipos de Esquetes

Existem basicamente dois tipos: as esquetes mais longas, e as ‘rapidinhas’. A ‘rapidinha’ é geralmente uma piada muito forte, que dura uns 20 segundos. Esquetes mais longas podem, é claro, ser de qualquer duração, mas eu aconselharia a manter a duração ideal de cerca de um minuto e meio – qualquer coisa além de dois minutos, provavelmente será longa demais. Sem querer ficar ditando regras demais, eu diria, como um guia muito, muito básico, que você pode permitir cerca de 15 a 20 segundos para apresentação, ponto no qual você bota a sua primeira virada; o início do ato dois, em que espera-se que você tenha a sua primeira grande gargalhada. Então você tem cerca de um minuto para amontoar tantas gags quanto puder na parte da sua complicação do ato dois, ponto no qual estamos prontos para fechar a esquete.

E você realmente deve tentar duramente pensar em um final de piada engraçado, dedique muito tempo a isso. Se você inventar um realmente bom, isso valerá dez esquetes com finais meio-decente ou razoáveis. Eu sei que estou martelando nisso, mas para qualquer programa da Rádio BBC, onde um pequeno número de produtores e editores de roteiro vão ser soterrados com pilhas e pilhas de esquetes, uma carta de consulta curta que ofereça uma ou duas esquetes com quatro ou cinco risadas cada, vai realmente se destacar.

Personagens de Esquetes

As melhores esquetes, aquelas que nós lembramos, sobrevivem por muito tempo depois das piadas se desgastarem, porque nos dão um novo ângulo cômico sobre uma falha de personalidade. O personagem de Michael Palin na esquete do papagaio é basicamente um homem que vai mentir e mentir para sair de apuros, vai fazer qualquer coisa, menos admitir a verdade – um protótipo de Basil Fawlty, se preferir. Absolutely Fabulous começou como uma esquete de French & Saunders sobre uma filha que é mais adulta do que a sua mãe.

A maioria das esquetes não tem tempo para demorar-se no personagem, mas você irá adicionar camadas extras de significado e de comédia à sua esquete, se você puder dar ao seu personagem algum defeito cômico que complemente a ideia por trás da esquete.

Seja Realista

O seu objetivo deve ser conseguir que algo seja apresentado em algum momento durante a exibição de uma série. A maior parte de todos os programas será escrita por escritores comissionados. Não deixe isso lhe desanimar, mas seja realista quanto às suas chances de conseguir botar material no ar. Qualquer um que consiga botar qualquer coisa que seja no ar, pode considerar isso um resultado fantástico. Qualquer um que consiga pôr alguma coisa no roteiro, mas que é cortado por falta de tempo, também deve ficar muito satisfeito. Qualquer um que receba uma crítica de "chegou perto, mas ainda não chegou lá" do produtor deve ficar feliz por ter sido contatado. Tendo dito isto, os criadores de Tilt disseram que estavam extremamente satisfeitos com o padrão de material dos escritores desconhecidos, e que usaram muito mais do que eles esperavam.

Se você enviar material e não obter nenhuma resposta, não fique decepcionado. Inevitavelmente, algum material bom vai ficar perdido entre as montanhas de rejeições. Se algo que soe como a sua ideia for ao ar porque um dos escritores comissionados teve a mesma ideia, você está autorizado a ficar aborrecido por um momento, mas então seja consolado pelo fato de que você está obviamente pensando do jeito certo.

E continue direto enviando material, até a última semana. As pessoas que tentam botar material no ar em um par de programas, fracassam e então desistem, definitivamente, não vão conseguir pôr nada no ar. O campo vai diminuir à medida que as semanas passam, persevere aí, e você ainda terá uma chance.

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Boa escrita pra você hoje!

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3 Comentários

  1. Oi Valéria!!!

    Esse post tá excelente. Com certeza mais uma série excelente que você nos proporciona.

    Ainda mais sobre comédia. Um tema que me interessa. E que me servirá bastante.

    Beijos.

    Comentário por Paulo Henrique — 21/08/2011 @ 13:30

  2. Adorei o post. 😉

    Comentário por Alexandre Nix — 21/08/2011 @ 13:44

    • Oi, Paulo Henrique e Alexandre! =)

      Esse site foi o mais completo sobre o assunto que eu encontrei, é bem difícil achar bons livros e sites que ensinem comédia. Por isso fiquei muito feliz que vocês tenham gostado! :mrgreen: O próximo post vai sair muito em breve, é só aguardar!

      Um abração, e obrigada pela força! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 22/08/2011 @ 17:09


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