Dicas de Roteiro

18/08/2011

O Uso de Flashbacks

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 12:03
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O artigo de hoje é do grande guru de roteirismo, Syd Field, e foi tirado do site da Writers Store:

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Neste momento, eu acho que estamos no meio de uma revolução de roteirismo, um tempo em que os roteiristas estão empurrando o modelo e o ofício para novas direções. Eu acredito firmemente que a maneira tradicional de "ver as coisas" mudou, e nós estamos procurando por novas maneiras de equiparar as nossas experiências e incorporar a nova tecnologia em nossas histórias.

Em termos de roteiro contemporâneo, parece que queremos chegar mais perto da realidade subjetiva dos nossos personagens. Dê uma olhada em Desejo e Reparação, O Vigia, Babel, A Supremacia Bourne, Kill Bill I & II, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Amnésia, e muitos outros.

Esta revolução/evolução no roteirismo parece basear-se na nova consciência visual de como vemos o mundo. Sabemos que a popularidade de fazer roteiros e cinema é parte integrante da nossa cultura. Se você olhar o MySpace e outros sites, todo mundo é, ou quer ser, um cineasta. Escreva um roteiro, consiga uma filmadora digital, filme, faça o upload para o seu computador, edite com o IPro Edit, adicione alguns efeitos especiais de computação gráfica, coloque algumas músicas, e você tem um filme que pode mandar por e-mail para os seus amigos e familiares. Com o aumento dramático da tecnologia sem fio, certamente progredimos, e continuamos a progredir, na maneira como vemos as coisas.

Se você olhar o modo como o flashback foi usado em um filme como Casablanca (Julius e Philip Epstein), compará-lo com os flashbacks fragmentados de Gente Como a Gente (Alvin Sargent) e então comparar esses dois filmes com os fios fragmentados de memória combinados em A Supremacia Bourne ou em Desejo e Reparação, você verá uma evolução visual em termos de estilo e execução.

Os flashbacks de Casablanca mostram aquele momento mágico em Paris, quando Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman) se encontraram e se apaixonaram. As cenas de flashback mostrando-os em Paris são simplesmente uma série linear de cenas completas inserida no fluxo narrativo do enredo.

Comparar a linguagem cinematográfica de A Supremacia Bourne, Gente Como a Gente e Desejo e Reparação é um exercício interessante. Em termos cinematográficos, os atributos visuais são impressionantes, e a forma como a ação e os personagens são expressos torna os filmes ainda mais uma experiência subjetiva. Como Tony Gilroy escreve em A Supremacia Bourne: Bourne tem uma arma apontada na cabeça de Nicky "prestes a puxar o gatilho – DE REPENTE – FLASHBACK! um momento – um fragmento – UM ROSTO DE MULHER – se afastando – implorando – implorando-nos – implorando à câmera – IMPLORANDO POR SUA VIDA, EM RUSSO – este borrão horrível de desespero e pânico – medo – rápido demais – em pânico demais" e então cortamos de volta ao tempo presente. Este tom, este estilo, tornou-se a nova versão do roteiro moderno. Em Desejo e Reparação, o flashback, ou memória, é visto a partir de dois pontos de vista distintos, a mesma coisa que Tarantino fez em Pulp Fiction e Kill Bill, ou que Scott Frank fez em O Vigia.

O que levanta a questão: quando é apropriado usar um flashback na trama? Eu ouço isso o tempo todo em muitos dos workshops e seminários que conduzo no mundo inteiro. Quando ele funciona melhor e quando ele é mais eficaz?

Flashbacks são uma ferramenta, um dispositivo, onde o roteirista fornece ao leitor e ao público a informação visual que ele ou ela não pode incorporar ao roteiro de nenhuma outra maneira. O objetivo do flashback é simples: é uma técnica que une tempo, lugar e ação para revelar informações sobre o personagem, ou mover a história adiante.

Muitas vezes, um escritor lança um flashback no roteiro porque ele ou ela não sabe como mover a história adiante de nenhum outro jeito. Às vezes, o roteirista decide mostrar alguma coisa sobre o personagem principal que poderia ser melhor apresentada no diálogo, e, nesse caso, o flashback apenas chama a atenção para si mesmo e se torna intrusivo. Isso não funciona.

Veja o flashback como uma ferramenta que pode ser utilizada para revelar informações sobre o personagem ou sobre a história, que você não pode revelar de nenhuma outra forma. Ele pode revelar informações emocionais, bem como físicas; pode revelar pensamentos, lembranças e sonhos, como o que aconteceu em Berlim, que Jason Bourne está tentando lembrar, ou o incidente do afogamento em Gente Como a Gente, ou as memórias das cenas de amor em Paris de Casablanca.

Flashbacks são realmente uma função do personagem, e não da história. Waldo Salt, grande roteirista de Amargo Regresso e Perdidos Na Noite, contou-me que ele achava que um flashback deveria ser pensado como um "flashpresent", porque a imagem visual que estamos vendo é o que o personagem está pensando e sentindo naquele momento presente, seja uma lembrança, ou uma fantasia, ou um acontecimento; um flashpresent, observou ele, é qualquer coisa que ilumine o ponto de vista de um personagem. Dê uma olhada na cena de hockey no primeiro ato de O Vigia. O que vemos em flashback é mostrado através dos olhos do personagem, portanto estamos vendo o que ele ou ela está vendo, pensando ou sentindo no momento presente, neste lugar ou tempo em particular. O flashpresent é qualquer coisa que vemos o personagem pensando e sentindo no momento presente, seja um pensamento, sonho, lembrança ou fantasia, pois o tempo não tem restrições ou limites. Na mente do personagem principal, não há tempo, e o flashpresent pode ser um momento em particular do passado ou do presente, talvez até mesmo do futuro.

O que nos traz de volta à questão básica: quando é apropriado usar um flashback? O objetivo do flashback é, ou mover a história adiante, ou revelar informações sobre o personagem.

Você pode usar flashbacks por várias razões, mas o seu propósito principal é unir tempo, lugar e ação, a fim de revelar um evento emocional passado ou conflito físico que afete o personagem. Às vezes, ele dá conhecimento e entendimento sobre o comportamento de um personagem, ou resolve um mistério do passado, como em O Vigia.

Você também pode usar um flashback para revelar por que um evento ocorreu, ou como aconteceu, ou possivelmente fazer um flashforward para um evento que pode ou não acontecer no futuro próximo. Todas essas são maneiras de incorporar o flashback em seu roteiro e fazer com que ele funcione de forma eficaz.

Se você decidir mesmo usar um flashback, pense em termos de flashpresent; pergunte-se o que o seu personagem está pensando ou sentindo no momento presente. Se você puder entrar na cabeça do seu personagem e encontrar algum pensamento, lembrança ou acontecimento que se reflita no momento presente, tente mostrar como isto afeta o seu personagem.

Desta forma, você estimula uma compreensão maior do personagem, tornando o seu trabalho mais profundo e mais perspicaz.

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Boa escrita pra você hoje!

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