Dicas de Roteiro

17/08/2011

Voice Over

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:32
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O artigo de hoje é de William C. Martell (um dos meus “professores” de roteiro preferidos), e tirado do site dele, Script Secrets:

sin_city

Você deve ter notado que SIN CITY tem narração em voice over. Isso se encaixa nas raízes pulp fiction do filme – os velhos filmes Noirs dos anos 1940 e os Roman Noirs [N.T.: Romances policiais góticos franceses] dos anos 1930 e 1940. Coisas de caras durões. Mas espera – a Narração em Voice Over não é uma das duas grandes proibições em roteirismo? Alguém da Polícia Cinematográfica não deveria pegar o Robert Rodriguez e atirar nele? Ele não deveria ao menos ser expulso de Hollywood (ou de Austin)?

A razão pela qual todo mundo diz: "Nunca use flashbacks ou narrações em voice over" é que na maioria das vezes eles são usados ​​errado. 95% dos roteiros que se lê com flashbacks e narração em voice over são uma droga, porque o escritor usou ambas as técnicas para tapar buracos do enredo com um grande naco de exposição verbal ou visual. O problema é que alguns dos maiores filmes já feitos têm voice over – o que seria de CREPÚSCULO DOS DEUSES sem aquela narração de  "funeral de típico tolo"?

Crepúsculo dos Deuses

Uma dos meus filmes obscuros favoritos de todos os tempos, DIÁRIO DE UM GÂNGSTER, estrelado por Michael Caine, usa narração em voice over. É sobre um romancista que escreve livros de ação de caras durões, que assume o trabalho de escrever as memórias de um mafioso de verdade… e a narração é pura ficção barata de caras durões – todos os clichês. O que torna o filme engraçado é que a narração de cara durão faz contraponto com a realidade do romancista banana. Como qualquer outra traça de livros, ele não é exatamente um herói de ação. Muitas vezes, a narração o descreve arrasando com os bandidos, enquanto a imagem mostra os bandidos arrasando com o herói! E é daí que vem muito do humor do filme. Remover a narração eliminaria grande parte do humor e mataria o filme! A história ainda funcionaria, ela só  não seria engraçada. O filme resultante seria um filme semi-sério sobre um escritor que fica em dívida com a máfia… e um assassino da máfia – o grande (e finado) Al Lettieri vestido de freira – o perseguindo.

Diário de um Gângster

Então – voice over é uma coisa boa ou ruim? Se Billy Wilder pode usá-lo em clássicos como CREPÚSCULO DOS DEUSES e PACTO DE SANGUE, por que não o resto de nós? É algo que só os profissionais na ativa podem usar? Ou devemos desistir de nossos cartões DGA & WGA e nos mudarmos para o Texas, se quisermos usar narração em VO?

É muito mais fácil para um Guru de Roteirismo dizer "Nunca use narração em voice over" do que explicar POR QUÊ você não deve usar voice over na maioria dos casos, mas DEVE usar voice over em outros casos. Isso é complicado, pode ser difícil de entender no início, mas aqui vai:

1) Voice Over e Flashbacks são ESTILOS – isto é, eles não aparecem simplesmente aqui e ali na história. A história inteira usa flashbacks ou voice over. CREPÚSCULO DOS DEUSES é um filme narrado – a coisa toda tem voice over. A mesma coisa com o sombriamente engraçado O OPOSTO DO SEXO, de Don Roos. A voice over não aparece simplesmente no meio do filme. Dê uma olhada em qualquer um desses grandes filmes que utilizam narração em voice over e você vai notar que o filme todo é narrado. Um dos indicadores de que a VO está sendo usada para tapar um buraco no enredo é quando ela só aparece aqui e ali – exatamente onde estão os buracos na trama. Hmm, isso é meio suspeito! Se você se encontra necessitando de narração apenas aqui e ali, provavelmente você está usando-a para o mal ao invés do bem, e deve simplesmente livrar-se dela.

the-opposite-of-sex-movie-poster

2) Voice Over não é usada para contar a história, é usada para comentar sobre a história que já está sendo contada através de ações e diálogo. Lembre-se, um filme é um veículo visual. Isso não significa que o diálogo não seja importante. Mas se você não está usando a parte da imagem para contar a história, está desperdiçando filme. Você não quer um naco grande de exposição narrativa contando a sua história, você quer que o público vivencie a sua história através do que os personagens DIZEM e FAZEM. Se a narração está contando-nos a história, o que faz disso um filme? Por que você simplesmente não fica na frente de uma plateia e a narração? Pule toda a coisa de filme. Filmes são histórias contadas através de imagens em movimento. Não nos conte através da narração, mostre-nos – vamos ver e ouvir o que acontece.

3) Você deve ser capaz de remover a Narração em Voice Over e o roteiro inteiro ainda fazer todo o sentido. Nós ainda entendemos as motivações de cada personagem, ainda compreendemos as conexões e os relacionamentos entre os personagens, ainda entendemos o que acontece. O roteiro não precisa da narração em voice over – você não está usando-a como uma muleta ou para encobrir problemas da história. A narração é muitas vezes mal utilizada como uma forma de entrar na cabeça de um personagem – são balões de pensamento. O problema com o uso de narração para entrar na cabeça de um personagem é que isso não é visceral – é intelectual. Palavras têm de ser processadas pelo público – temos que converter as palavras em sentimentos. Elas não são sentimentos reais. Se eu lhe mostrar um homem chutando um filhote de cachorro, você mesmo cria os sentimentos. Você experimenta os sentimentos. Nenhum processamento é necessário. Então, encontre maneiras de converter pensamentos e sentimentos em experiências, ao invés de apenas ter o personagem contando sobre elas. Faça a história em PRIMEIRA MÃO, em vez de algo relatado verbalmente. Tenha certeza de que está usando a narração pelas razões certas. Se você estiver usando narração para esconder uma escrita preguiçosa, é melhor simplesmente livrar-se dela. Se você não puder se livrar da narração e ainda ter um roteiro que funcione, o seu roteiro não funciona… conserte a porcaria do roteiro!

4) Voice Over nunca é usada para tapar buracos do enredo… Uma das razões pelas quais a Narração em Voice Over tem uma fama ruim é que muitas vezes é usada para "consertar" filmes estragados. Quando tinham um filme onde a história não fazia qualquer sentido, ou tinham que cortar meia hora do meio da história para caber no tempo de exibição, ou o filme tinha algum outro grande problema, o estúdio tentava corrigi-lo com narração. Eles estavam tapando buracos. Então, a Narração em Voice Over tornou-se um daqueles sinais de que o filme era uma droga, juntamente com a ausência de exibição prévia para os críticos e as palavras "Estrelado por Ben Affleck". Apesar de tantos grandes filmes usarem narração, provavelmente há muitos, muitos mais ruins que o fazem. Assim, quando um produtor vê narração em seu roteiro, ele pode se preocupar de que a narração possa ser vista como uma coisa negativa. Por que comprar um roteiro com um elemento negativo?

5) Voice Over acrescenta uma CAMADA ADICIONAL à história. Pense nisso como a cobertura do bolo. Ela não é o bolo. Você pode comer o bolo sem a cobertura, mas ele é ainda melhor com a cobertura.

O programa de TV BURN NOTICE é um bom exemplo – você poderia retirar todas as voice over e ainda ter um grande programa. Se você nunca assistiu, a série é uma variação dos programas de detetive particular, mas em vez de um detetive particular, temos o ex-espião Michael Weston (Jeffrey Donovan), que foi "queimado" por sua agência: a sua identidade apagada, o seu histórico de crédito apagado, os seus cartões de crédito e contas bancárias foram-se… juntamente com o seu passaporte e certidão de nascimento. Ele não pode arranjar um emprego ou dirigir um carro ou deixar o país ou fazer qualquer coisa que exija que ele tenha uma identidade. Ele está preso em Miami, Flórida… então, ele se aluga a pessoas que precisam resolver problemas mas não querem ir à polícia, enquanto tenta descobrir quem o queimou e por quê. A "História B" em cada episódio tem Weston encontrando alguma pista de quem o queimou, e a "História A" tem alguém em dificuldades procurando-o por ajuda; e ele tem seus dois amigos – a atiradora de elite durona/ex-namorada Fiona (a sempre quente Gabrielle Anwar) e o embriagado ex-militar Sam Axe (o sempre engraçado Bruce Campbell) – e, às vezes, a sua mãe aposentada (o tipo super-mãe Sharon Gless) ajudando-o.

burn_notice

O programa funcionaria perfeitamente sem voice over, porque a VO é a cobertura do bolo – neste caso, as notas de rodapé. Assim, o diálogo poderia ser Weston dizendo: "Deixe-me pegar uma arma", e o visual poderia ser ele abrindo uma gaveta com cinco armas dentro, pegando uma e enfiando-a no bolso… Mas a VO nos dá os detalhes técnicos – as notas de rodapé – sobre a arma. Marca, modelo, poder de parada, alcance de precisão, velocidade inicial, e qualquer outra coisa que nos faça sentir íntimos do mundo de Weston. Nós não temos apenas a história, temos as detalhadas notas de rodapé que são legais de saber, mas que não são realmente necessárias. Você pode ler um livro inteiro e ignorar todas as notas de rodapé – a maioria das pessoas faz isso. Assim, a VO no programa não é necessária… não é o bolo, mas a cobertura doce que torna o programa único e muito legal.

6) A Voice Over é frequentemente usada em histórias que têm introdução e prólogo – onde nós começamos depois que a história acabou e voltamos em flashback para a história em andamento. BELEZA AMERICANA faz isso muito bem. Mais uma vez – você poderia remover a Voice Over de BELEZA AMERICANA e a história ainda faria todo o sentido… Apenas não teríamos os comentários engraçados de Lester sobre a história.

A mesma coisa com DIÁRIO DE UM GÂNGSTER: nós ainda teríamos a história toda do romancista Michael Caine escrevendo a biografia de um gângster que vai contar tudo e o encontro com outros mafiosos que prefeririam que ele não contasse tudo, mas perderíamos a comédia que vem do contraste entre o cara durão que o Caine imagina ser, e o escritor banana que ele realmente é. CREPÚSCULO DOS DEUSES funcionaria perfeitamente… mas não teríamos os comentários sarcásticos de William Holden sobre o ramo cinematográfico. Esses comentários são uma camada adicional – a cobertura do bolo.

Beleza Americana

7) É melhor a sua Voice Over ser super engraçada… quem quer um bolo estragado por uma bosta de cobertura? Se a Voice Over não tornar um já ótimo roteiro ainda melhor, é mais jogo simplesmente deixá-la de fora. Se a narração não está tornando uma ótima história ainda melhor, ela está apenas ocupando espaço, não é? Como a Voice Over nunca é NECESSÁRIA PARA CONTAR UMA HISTÓRA, uma Voice Over que não esteja realmente arrasando, está acrescentando fraqueza para uma história perfeitamente boa. Ela vai prejudicar o seu roteiro inteiro! Então, tenha certeza de que a sua narração arrase! Certifique-se de que ela seja tão boa quanto a narração de Billy Wilder em CREPÚSCULO DOS DEUSES. Se não for tão boa quanto a de Wilder – livre-se dela!

A Narração em Voice Over não é má. Ela pode ser usada por roteiristas novatos, bem como por velhos profissionais. O problema é que a narração pode ser usada para o bem ou para o mal. Usá-la da maneira errada faz o seu roteiro ficar péssimo – e não queremos isso. Portanto, use-a com cautela. Certifique-se de que você esteja usando a narração em voice over pelas razões certas – para acrescentar aquela camada adicional em seu roteiro. Não se entregue para o lado negro!

bolo-de-cenoura

Ai, me deu fome agora, por que será? Boa escrita pra você hoje!! =D

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4 Comentários

  1. Acho que foi a melhor matéria que ja li aqui.
    Realmente de Parabens Valéria, acho que terei que tomar mais cuidado com o meu uso do V.O

    Att. Douglas Cavalcante

    Comentário por Douglas Cavalcante — 17/08/2011 @ 14:54

    • Esse William C. Martell é ótimo, né? Eu também adoro os artigos dele, já aprendi tanto…!! Ainda esta semana sairá outro post com um texto dele sobre Flashbacks, muito legal também, vale a pena aguardar! :mrgreen:

      Um abraço, Douglas!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 17/08/2011 @ 22:39

  2. Eu sou muito cuidadosa em usar o V.O. Na verdade quase nem uso!!
    Muito esclarecedor o artigo desse autor! Sinceramente não o conhecia mais fiquei encantada pela linguagem bastante objetiva! O que ele diz sobre o “guru de roteirismo” é totalmente verdade!!

    Bjs!!

    😉

    Comentário por Marcia Fr. — 28/08/2011 @ 01:57

    • Oi, Marcia, como vai?! 😀

      Realmente, fora certas cenas de telefonemas, eu também evito usar V.O. ao máximo. Eu também acho que Voice Over é mais um estilo de narração do que uma simples ferramenta, é preciso usá-lo com consciência e nas horas certas.

      O William C. Martell é um dos meus professores de roteirismo preferidos exatamente porque ele ensina coisas que outros autores e gurus de roteirismo não ensinam. Além de experiência prática, já que ele mesmo é um roteirista atuante, ele também é muito perceptivo. Eu sempre estou postando textos dele aqui, e se eu pudesse botava todo dia! 😆 Mas, com o tempo, é bem capaz de eu traduzir o site dele inteirinho! :mrgreen:

      Um beijo, Marcia! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/08/2011 @ 13:22


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