Dicas de Roteiro

10/08/2011

As Ferramentas Ocultas da Comédia

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:25
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Como prometido, aqui vai o primeiro artigo desta semana sobre comédia, tirado do site Filmmaker IQ (publicado originalmente no site da Writer’s Store) e de autoria de Steve Kaplan:

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Vamos começar com um teste. Um Teste de Percepção de Comédia, para ver se estamos percebendo a comédia com uma visão acurada.

Abaixo estão sete frases, sete descrições verbais. Elas não significam nada além do que são. Não há história passada. Leia-as com atenção.

A. Homem escorregando numa casca de banana.
B. Homem, usando uma cartola, escorregando numa casca de banana.
C. Homem escorregando numa casca de banana após chutar um cachorro.
D. Homem escorregando numa casca de banana depois de perder seu emprego.
E. Homem cego escorregando numa casca de banana.
F. Cão de homem cego escorregando numa casca de banana.
G. Homem escorregando numa casca de banana, e morrendo.

Assim, você tem estas sete frases, imagens verbais que não contêm significados ou narrativas ocultos. Agora responda a estas quatro perguntas:

Qual destas afirmações é a mais engraçada? A menos engraçada? A mais cômica? E qual é a menos cômica?

Agora, um de vocês pode estar pensando consigo mesmo: "Cômico e engraçado – isso não é a mesma coisa?"

Excelente pergunta, obrigado por perguntar. Mas apenas por agora, vamos nos ater a selecionar qual delas você acha que é a mais engraçada, a menos engraçada, a mais cômica e a menos cômica.

Vamos começar com a mais engraçada. Qual delas você escolheu? A.) Homem escorregando numa casca de banana? E que tal C.) Homem chutando um cachorro, ou D.) Homem perdendo seu emprego? (OK, essa só um chefe poderia achar engraçada.) A sua escolha foi E.) Homem cego? (E se foi, que vergonha! Você é doente, sabia disso?)

Então, qual você decidiu que foi a mais engraçada? A resposta para qual é a mais engraçada é, é claro… você está certo, não importa qual você escolheu! Você não se sente ratificado?

Você estava certo, porque a diferença entre o que é engraçado e o que é cômico, é que engraçado é subjetivo. Se você está rindo daquilo, para você aquilo é engraçado. Fim da história. Fim da discussão. Ponto final. Se você está rindo, aquilo é engraçado para você. E, por isso mesmo, se você não está rindo, não importa o quão perspicaz seja uma crítica no The New Yorker, para você, não é engraçado. Eu tenho um sobrinho de três anos de idade. Se eu pegar as minhas chaves e começar a chacoalhá-las, eu posso fazê-lo rir. Então, para ele, isso é engraçado. Mas você me daria um contrato de opção de 600 mil a um milhão de dólares para comprar esse conjunto de chaves?

Um dos maiores erros que os escritores cometem é que eles se preocupam se o roteiro é ou não é engraçado. Mas engraçado, como já disse, é subjetivo. O que os comediantes vão lhe dizer é que você não pode viver ou morrer pelo fato de esta ou aquela pessoa rir. Você tem que fazer o seu material e apenas confiar que está criando um quadro cômico, um retrato cômico, e que a comédia não é baseada em quantas piadas existem na página. O pior sitcom que você pode pensar, o pior filme cômico, a pior comédia romântica, estão lotados de momentos que eles estão tentando tornar engraçados.

Então o que é comédia? No meu curso, nós assistimos a um monte de trechos de comédia, mas um dos trechos mais importantes que assistimos é o de uma novela [americana] diurna. Quando eu o mostro, ocasionalmente as pessoas riem. Tirado fora do contexto, é bem engraçado. OK, é muito engraçado. Mas por que iríamos querer assistir a uma novela americana para aprender sobre comédia? [N.T.: A qualidade das novelas americanas é bem baixa, se comparada com os filmes e seriados americanos e com as novelas brasileiras (até mesmo com as novelas mexicanas!). Elas são pobres em todos os sentidos, desde os roteiros até a cenografia, passando pela direção, fotografia e atuação. Não é nada estranho rir dessas novelas, eu mesma já rolei de gargalhar por algumas cenas impagáveis que eu tive a “sorte” de assistir.]

Eis o negócio: Todo mundo envolvido nesta questão – tal como os escritores, diretores, atores, designers e artesãos – geralmente é dedicado a não fazer você rir. Então eu acho que é instrutivo prestar atenção ao que eles estão fazendo e às escolhas que estão fazendo. Dê uma olhada em quase qualquer cena de novela americana. A primeira coisa que você tem que observar sobre as pessoas nas novelas americanas é que elas têm mais do que apenas boa aparência, elas são quase sobrenaturalmente atraentes. Pessoas assim simplesmente não existem na natureza. E a combinação de escrita, direção e atuação é planejada para comunicar um conjunto específico de qualidades. Mesmo quando o comportamento é extremo, ou seja, adultério, assassinato e trapaça, os elementos básicos do drama diurno, os atores raramente agem de forma inadequada, como se isso tendesse a zombar dos personagens. Os atores que interpretam os personagens estão sutilmente nos dizendo: “Olhe para mim, olha como eu sou sensível, o quanto eu estou sofrendo, como são profundos os meus sentimentos, como eu sou inteligente.” E eu viro para as mulheres na plateia e digo: "Senhoras, é assim que os homens de sua vida são?" Muitas vezes, há uma grande gargalhada porque, obviamente, eles não são assim.

A questão é que o drama nos ajuda a sonhar com o que podemos ser, mas a comédia nos ajuda a viver com o que somos. A comédia nos ajuda a viver com o que somos porque, enquanto o drama idealiza a perfeição do homem e a tragédia de sua inadequação, a comédia opera com a certeza da imperfeição do homem: inseguro, desajeitado, desastradamente incerto – todos os atributos centrais da comédia. Isto realmente não descreve todos nós? Enquanto o drama poderia representar um de nós passando por uma noite escura da alma, a comédia vê a noite escura mas também percebe que, durante essa noite escura, ainda estamos vestindo o mesmo roupão que estivemos usando por alguns dias e comendo manteiga de amendoim dura direto do pote, enquanto ficamos sentados assistindo Juíza Judy. Ainda é uma noite escura, mas uma que a comédia torna mais suportável por nos ajudar a manter as coisas – como a nossa vida – em perspectiva.

A comédia conta a verdade e, especificamente, ela conta a verdade sobre ser humano. Um comediante é simplesmente a pessoa corajosa que se levanta na frente de um grupo de estranhos e admite, confessa ser humano. Por isso, se você tem a coragem de dizer a verdade e, principalmente, a verdade sobre si mesmo e a verdade sobre as coisas loucas que você faz e a maneira maluca como você vê o mundo, então você tem uma boa dianteira na criação de comédia.

Então, o que é comédia? O paradigma da comédia é um cara ou uma garota comum que luta contra barreiras insuperáveis, sem muitas das ferramentas necessárias para vencer, mas ainda assim sem nunca perder a esperança. Isso quase pode ser declarado como uma equação: Um cara ou uma garota comum – Jackie Gleason costumava chamá-lo de asno – lutando contra barreiras insuperáveis, sem muitas das ferramentas necessárias para vencer, mas ainda assim sem nunca perder a esperança.

A partir deste paradigma ou equação nós podemos extrair ferramentas úteis, práticas, o que chamamos de Ferramentas Ocultas da Comédia.

As ferramentas são:

1. Vencer
2. Não-Herói
3. Ação Positiva (ou Egoísta)
4. Emoção Ativa
5. Relacionamento Metafórico
6. Linha Reta/Linha Ondulada

Primeiro, há a ferramenta Vencer. Vencer é a ideia de que, na comédia, você está autorizado a fazer o que for que acha que precisa fazer para vencer. A comédia dá ao personagem a permissão para vencer. Em vencer não existe nenhum "deveria". Mesmo se isso lhe fizer parecer idiota, você pode fazer o que acha que tem que fazer para vencer. Você não está tentando ser engraçado, está apenas tentando conseguir o que deseja, dado quem você é.

A seguir, vem o Não-Herói. Não-Herói é o cara comum que carece de algumas, senão todas, das habilidades exigidas para vencer. Observe que não dizemos herói cômico, mas um não-herói. Não um idiota, não um tolo exagerado, mas simplesmente alguém que tem algo faltando. Ou muitas coisas, mas que ainda está determinado a vencer. Quanto mais habilidades o seu personagem tem, menos cômico e mais dramático o personagem é. É assim que você pode moldar o arco de uma comédia romântica: nos momentos românticos, o até então desajeitado ou desagradável herói torna-se mais sensível, mais maduro. Não acredita em mim? Dê uma olhada no Bill Murray em Feitiço do Tempo.

Ação Positiva, ou ação egoísta, ou ação esperançosa, é a ideia de que toda ação que o seu personagem toma, ele realmente acha que vai funcionar, não importa o quão estúpida ou tola ou ingênua aquilo possa lhe fazer parecer. Isso também tira as arestas desagradáveis de personagens como o Basil Fawlty, de Fawlty Towers, ou o Louie De Palma, de Taxi.

Emoção Ativa é a ideia de que a emoção que ocorre naturalmente no curso de tentar vencer, a emoção que é criada simplesmente por se estar na situação, é a emoção certa e exata de se ter.

Relacionamento Metafórico é a ferramenta da percepção. É a ideia de que, sob toda relação superficial há um relacionamento metafórico verdadeiro, ou essencial. Cada personagem percebe os outros ao seu redor, e o mundo em si, de formas específicas e metafóricas. Pense nos casais que você conhece. Alguns brigam feito cão e gato, alguns arrulham entre si como bebês, e alguns são como parceiros de negócios: "OK, eu não posso fazer sexo com você nesta quinta-feira, mas se eu transferir algumas coisas, posso ser capaz de encaixar isso na tarde de domingo, exceto qualquer complicação adicional." Mesmo que eles sejam um casal casado, a sua relação metafórica é a de parceiros de negócios que trabalham duro. É o Oscar e o Felix, dois colegas de quarto de meia-idade divorciados, agindo como um velho casal. E é o Jerry e o George, sentados no banco de trás de um carro de polícia, agindo feito crianças: "Ei, posso brincar com a sirene?"

E, por último, mas não menos importante, a ferramenta que desafia a visão convencional da comédia: Linha Reta/Linha Ondulada.

John Cleese disse uma vez que quando eles começaram o Monty Python, eles pensavam que comédia eram as partes tolas: "Costumávamos pensar que comédia era assistir alguém fazer alguma coisa tola… nós viemos a perceber que comédia era assistir alguém assistindo alguém fazer alguma coisa tola."

Existe a crença equivocada de que em toda dupla há o cara engraçado e o cara certinho. Em "Who’s On First?" é óbvio que Lou Costello, o desajeitado baixo, gordo e roliço é o homem engraçado da equipe, enquanto o alto, magro e sério Bud Abbott é o homem certinho. Este equívoco deixa escapar a verdade essencial da comédia – que ela é um esforço de equipe, onde cada membro da equipe está contribuindo para o momento cômico. A dinâmica real é a de observador e observado, aquele que vê e aquele que não vê; aquele que cria o problema e aquele que luta com o problema. Pense no Kramer de Seinfeld. A comédia não é apenas assistir o Kramer comportar-se de sua maneira tipicamente escandalosa, a comédia exige que o Jerry ou o George ou a Elaine assistam-no com espanto assombrado. A ferramenta da Linha Reta/Linha Ondulada reconhece isto. É a ideia de que não só precisamos que alguém, alguma pessoa engraçada, faça algo idiota ou crie um problema, mas também precisamos de alguém que esteja agindo como representante do público para assistir essa pessoa fazer algo idiota ou lutar para resolver o problema que foi criado. O outro personagem pode não ser tão verbal, pode não estar fazendo as coisas engraçadas, mas porque o outro personagem também é um Não-Herói, ele ou ela vê o problema, mas não tem as habilidades para resolvê-lo. A Linha Reta cria o problema, como se ele estivesse usando antolhos, e é de fato cego para o problema ou está criando o problema ele mesmo. A Linha Ondulada luta, mas é incapaz de resolver o problema. Então, o que a Linha Ondulada faz mais do que tudo é simplesmente ficar assistindo bastante. Assistir sem saber o que fazer quanto àquilo, para que haja confusão. Para que haja consternação. Enquanto os outros personagens estão fazendo alguma coisa – como John Cleese diria – tola. E é essa combinação que cria o momento cômico, ao contrário de alguém simplesmente ser atingido no rosto com uma torta.

Com estas seis ferramentas ocultas, podemos começar a desvendar os segredos da comédia.

Por quase 20 anos, Steve Kaplan tem sido o especialista em comédia mais respeitado e cobiçado da indústria. Além de ser um consultor regular e um script doctor para empresas como Disney, Dreamworks, HBO, Paramount, entre outras, Steve tem ensinado na UCLA, NYU, Yale e outras universidades de topo, e criou a Área de Trabalho da HBO e o Programas de Novos Escritores da HBO, ensinando e orientando alguns dos maiores escritores, produtores e diretores de comédia dos dias atuais.

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Boa escrita de comédia pra você hoje! =)

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5 Comentários

  1. Tenho acompanhado seu blog há meses, mas agora tenho algo que acho legal trocar. 🙂
    Adoro escrever comédia e fiz um post meses atrás sobre a distinção que faço entre comédia e humor e o papel das duas coisas. Espero que você curta. http://flamingcircus.com/2011/04/28/o-que-voce-acha-engracado/

    Comentário por Alexandre Nix — 10/08/2011 @ 15:52

    • Oi, Alexandre, seja bem-vindo! =)

      Obrigada por nos acompanhar sempre, fico muito feliz com isso! 😀

      E valeu pela sua dica, é sempre bom ter opiniões e visões diferentes sobre os assuntos tratados nos posts. Muito bacana.
      Também sinta-se à vontade para comentar novamente quando quiser!

      Um abração, Alexandre, até a próxima! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 11/08/2011 @ 12:05

  2. Oi Valéria!

    Muito bom este seu post. É realmente muito importante ler algo que fale sobre comédia. É tão difícil achar algo relacionado ao assunto.

    O que você acha: é mais difícil roteirizar uma comédia ou não?

    Eu, particularmente, acho que pra fazer um roteiro nesse estilo exige uma habilidade muito maior do roteirista. Uma intimidade com o estilo bem maior.

    Abraços.

    Comentário por Paulo Henrique — 15/08/2011 @ 09:39

  3. Paulo, desculpe a interrupção… mas como a Valéria ainda não respondeu, vou me intrometer. 🙂
    Eu acho que depende do background mesmo do roteirista. Eu já penei para criar uma história de terror original, mas sei que roteirizar uma história de alguém seria algo fácil pra mim… já comédia para mim é fácil em qualquer sentido. É o que me especializei e me tornei íntimo em várias vertentes. Eu leio sobre comédia e consumo comédia de diversos países (vídeo, rádio e livros) numa dieta de no mínimo 15 horas semanais há cinco anos.

    Comentário por Alexandre Nix — 16/08/2011 @ 00:22

    • Oi, Paulo e Alexandre!! =)

      Em primeiro lugar, obrigada Alexandre, por responder o comentário; muito boa a sua observação e já já vou comentar sobre ela. Mas antes, preciso pedir desculpas ao Paulo pelo atraso na resposta. Na verdade, estive fora nos últimos dois dias, eu havia adiantado e deixado os posts agendados para serem publicados automaticamente, e não tive mesmo tempo de entrar no blog para responder os comentários, por isso eu peço mil desculpas! Eu adoro os comentários de vocês, eu sempre aprendo tanto, que fico super triste de não poder responder imediatamente. 😦

      Mas, quanto à Comédia, o Alexandre está fazendo algo que eu ia citar: ele está com a mente focada no assunto. Eu acredito que comédia seja um modo de ver as coisas. A gente tem que mudar o interruptor de nossa mente para ver as coisas com humor. Eu já li entrevistas de vários comediantes e roteiristas de seriados de comédia, brasileiros e americanos, que disseram que tentaram escrever dramas sérios, mas até as cenas mais trágicas acabavam saindo uma piada. Porque eles estavam com o ponto de vista de comédia ligado. Se a gente está escrevendo muito drama sério, é o oposto. Fica difícil fazer graça de qualquer sofrimento. O mesmo para histórias de terror, de romance, tudo vai depender do nosso foco mental. Tem gente que consegue transitar de um para outro com facilidade, mas são raros. Ultimamente, eu tenho visto isso mais nos animes e mangás japoneses. Eles te fazem chorar num momento e gargalhar no seguinte, só pra te fazer chorar novamente em seguida. Eu fico abismada (e babando de inveja) com isso, como eu gostaria de ter essa habilidade!

      Eu já tentei escrever comédia, mas os resultados foram desastrosos. Quanto mais eu tentava ser engraçada, mais patético o roteiro ficava. Acabei descobrindo que eu conseguia espremer alguma coisa engraçada aqui e ali na história quando eu NÃO tentava ser engraçada! Se havia alguma semente de humor em determinada cena, alguma possibilidade, eu a aproveitava, mas isso deveria vir naturalmente, senão não dava certo. Eu continuo fazendo assim, mesmo em histórias dramáticas eu insiro humor quando ele surge, pois dá um tempero na história e um alívio temporário da trama mais séria. Mas ainda não consigo fazer isso QUANDO eu quero, infelizmente!

      Tem uma série sobre comédia do site da BBC que eu vou publicar em breve, eu espero que ela nos ajude a melhorar nesse campo! É só aguardar mais um pouquinho que eu preciso terminar os outros posts que havia prometido antes de começar outra série. Mas vai ser logo.

      Um abração, Paulo Henrique e Alexandre, e obrigadão por seus comentários, é sempre maravilhoso poder conversar com vocês! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 16/08/2011 @ 10:26


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