Dicas de Roteiro

10/05/2011

O Novo Estilo de Roteiro de Especulação

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:38
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Já que temos falado sobre formatação de roteiro, aqui vai um artigo do roteirista David Trottier sobre o formato de roteiros de especulação mais utilizado atualmente. Este texto também foi tirado do site da Writers Store:

roteiro na grama

Tem havido muita discussão ultimamente sobre o novo estilo de formatação de roteiros de especulação. Por toda a década de 1990 houve um movimento na direção de escrever roteiros "enxutos e limpos": roteiros mais curtos, parágrafos mais curtos, discursos mais curtos, mais espaço branco e a omissão de instruções técnicas. Não deve ser nenhuma surpresa que esta evolução gradual continue a refinar o estilo de roteiro de especulação. Vamos dar uma rápida olhada em como as coisas estão neste momento atual.

A Parte Técnica
Vamos começar com o que é proibido. Não escreva CONTINUA no topo e no final de cada página. Não escreva "continuação" em uma rubrica quando um personagem continuar seu diálogo depois de um parágrafo de descrição narrativa. Não numere suas cenas. Sei que isso pode significar desabilitar o software; isto porque grande parte dos softwares disponíveis é projetada para formatar roteiros de filmagem, enquanto você (provavelmente) está escrevendo um roteiro de especulação.

Evite direções de câmera: ÂNGULO EM, CLOSE EM, PDV [Ponto de Vista], PAN, DOLLY COM, CAMINHÃO, OUTRO ÂNGULO, ZOOM, RECUE PARA REVELAR, ZIP PAN*, TOMADA DE CRANE, ECU [N.T: Extreme closeup], NÓS VEMOS, e assim por diante. Evite direções de edição: CORTA PARA, DESVANECER PARA, IRIS**, WIPE***. Observe que eu uso a palavra evitar. Evitar significa usar uma direção técnica apenas quando absolutamente necessário para mover a história adiante. Isso é cerca de duas ou três vezes em um roteiro. Lembre-se, você está escrevendo a história, não dirigindo o filme.

*[N.T.: Uma variação da tomada panorâmica em que a câmera é propositadamente movida em panorâmica em qualquer direção a um ritmo muito rápido, criando a impressão de um rápido movimento horizontal de desfocagem das imagens de um lado a outro da tela; muitas vezes confundido com uma tomada de dolly, ou sobre trilhos ou com a câmera montada num veículo.]

**[N.T.: Técnica usada para mostrar uma imagem em apenas uma pequena área arredondada da tela. Uma Iris-Out começa como um pontinho e depois se move para fora, para revelar a cena completa, enquanto uma Iris-In se move para dentro a partir de todos os lados, deixando apenas uma pequena imagem na tela. Uma íris pode ser tanto um dispositivo de transição (usando a imagem detida como um ponto de transição) ou uma forma de focar a atenção em uma parte específica da cena, sem reduzir a cena em tamanho.]

*** [N.T.: Um dispositivo de transição em que uma imagem lentamente substitui outra empurrando esta outra para fora do caminho.]

Mais
No passado, quando o diálogo continuava do final de uma página para o começo da próxima, você digitava MAIS (entre parênteses) abaixo do diálogo, e depois digitava ‘continuação’ (entre parênteses) ao lado do nome do personagem no topo da página seguinte. Você ainda faz isso. Mas apenas quando absolutamente necessário. Idealmente, o seu diálogo deve ser tão magro que você não tem que usar MAIS de modo algum. Basta mover o bloco inteiro de diálogo para o início da próxima página ou trapacear um pouco em sua margem inferior para trazer aquela última linha para o final da página. (Atenção:. Não trapaceie nas margens esquerda e direita do seu roteiro, nem nas margens de diálogo.)

Rubricas
Você já leu que deve usar as instruções parar os atores (rubricas) com moderação, que não deve dirigir o modo como o ator diz suas falas a menos que o subtexto não esteja claro. Você também já leu que, já que os executivos só leem o diálogo ou apenas algumas páginas, você deve incluir alguma ação na rubrica para ajudar a melhorar a leitura. Há verdade em ambas as declarações. Vamos ser honestos, os executivos são cada vez mais jovens, muitas vezes falta-lhes uma base criativa e pede-se que leiam mais. O resultado é que leem menos. Mas os leitores (analistas de história profissionais), leem tudo, após o quê eles fazem sua recomendação ao executivo ou produtor. É essa recomendação que coloca o seu roteiro na corrida para um acordo.

Em vista disso, continue a usar rubricas com moderação, mas considere aproveitar oportunidades ocasionais para adicionar uma linha de ação (cerca de 3 a 4 palavras) na rubrica, se isso acrescentar movimento à cena. E não tenha medo de escrever uma descrição breve. Cinema ainda é um meio essencialmente visual.

Magro, Mas Quanto?
Tente manter o seu roteiro dentro de 110 páginas, cerca de 100 páginas para uma comédia e 105 para um drama. Parágrafos de descrição narrativa não devem ultrapassar quatro linhas. Como regra geral, cada parágrafo deve focar-se em uma imagem, ação ou movimento da história. Desta forma, os parágrafos geralmente terão apenas uma ou duas linhas de extensão. Falas de diálogo não devem ser superiores a 8,1 centímetros (3,2 polegadas) de largura. Idealmente, o diálogo deve consistir de uma ou duas linhas, talvez três. (Sim, existem exceções para tudo.)

Intrusão do autor
Geralmente, você deve ficar de fora do roteiro. Shane Black tornou a “intrusão do autor” moda. Aqui está só um exemplo da página 91 de "O Último Boy Scout": "Lembra-se do Jimmy, amigo de HENRY, que conhecemos brevemente perto da abertura do filme? Claro que sim, você é um leitor altamente remunerado ou executivo de desenvolvimento." Shane Black pode se safar disso, você e eu não podemos. Mas ter um estilo de escrita pessoal pode acrescentar muito à leitura. Eu adorei ler "Tudo Por Uma Esmeralda". A primeira linha começa: "Uma bota tamanho 16-EE [N.T.: tamanho 46, larga] chuta a porta…." Eu acabei pensando que a Diane Thomas se divertiu muito escrevendo essa história. Eu me diverti muito lendo-a.

O Que Eu Posso Usar?
Use a MONTAGEM, a SÉRIE DE TOMADAS, o INSERIR, o INTERCUT, o FLASHBACK (com moderação) e o SOBREPOR. Use estes para fins dramáticos ou cômicos (ou para maior clareza ou facilidade de leitura), não para enfeitar o roteiro. Eu tenho uma cópia do roteiro de especulação original de “Instinto Selvagem”, de Joe Eszterhas – aquele que ele vendeu por US$ 3 milhões. Não há um único DESVANECER, CORTAR PARA, ÂNGULO EM, SÉRIE DE TOMADAS, MONTAGEM ou técnica extravagante em seu roteiro inteiro de 107 páginas. Apenas cabeçalhos de cena (slug lines), descrições e diálogos – e é isso. O seu foco está em contar uma história através de uma escrita clara, concisa e desembaraçada.

Conclusão
Tenha em mente que o seu público-alvo é o leitor do seu roteiro (não os frequentadores de cinema) e que ele está cansado de ler roteiros. Portanto, não sobrecarregue a leitura dele com instruções técnicas. Apenas deixe a história fluir como um rio. Esse rio vai fluir se você usar uma linguagem visual, clara e concreta, que dirige o olhar sem dirigir a câmera, e toca o coração sem embotar os sentidos.

Enfim, não fique paranoico quanto às regras de formatação; a história é o negócio. Os leitores não se importam se você recuar 10 ou 12 espaços para o diálogo, contanto que ele pareça "quase certo", tenha uma aparência limpa e (mais importante) seja uma boa leitura. Com sorte, o seu roteiro magro vai te fazer ganhar um cheque gordo.

Cheque gordo

Boa escrita pra você hoje!

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