Dicas de Roteiro

09/05/2011

A Importância do Ponto de Vista

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:09
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O artigo de hoje foi escrito pelo roteirista/produtor Erik Bork (Band of Brothers, Da Terra à Lua) e tirado do site Save The Cat!, do também roteirista/produtor Blake Snyder (1957-2009):

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A crítica mais devastadora que eu poderia ouvir sobre um dos meus roteiros (se os leitores fossem brutalmente honestos o suficiente para dizê-lo), seria: "Eu não me importei." Eu, inclusive, diria que o meu único e maior trabalho como escritor é fazer com que os leitores e o público se importem: fazê-los envolverem-se emocionalmente o bastante no que está acontecendo em uma história para quererem continuar lendo ou assistindo. O que isto realmente significa é que eles devem se importar com o personagem no centro dela – para relacionarem-se profundamente com o que ele está passando em um nível humano, e quererem vê-lo resolver qualquer grande problema que a história esteja explorando.

O título Save the Cat vem do aviso de Blake Snyder de que o "herói" de uma história deve "salvar um gato" – ou algo tão carismático quanto – nas primeiras 10 páginas de um roteiro, para que os leitores pensem que esta pessoa é digna de sua atenção e tempo. Embora eu concorde com isso, eu iria mais longe: Eu acredito que nós precisamos fazer os leitores verem as coisas pela perspectiva do personagem principal – dentro de sua pele, quase – de modo que pareça que o que está acontecendo com esse personagem, está acontecendo com eles, durante toda a história.

O primeiro roteiro que eu escrevi profissionalmente foi um episódio da minissérie da HBO, Da Terra à Lua. Nele eu escolhi focar em um astronauta em particular com um problema que parecia que iria impedi-lo de jamais voar no programa Apollo. Eu identifiquei esta situação como tendo um bom potencial de história, em comparação com alguns dos outros episódios que focaram-se nas missões, que não tinham necessariamente um personagem principal em potencial tão apropriado com o qual o público pudesse se envolver. Até aí, tudo bem.

Mas quando eu escrevi as primeiras versões do roteiro, fiquei tão envolvido com a pesquisa e com a responsabilidade de documentar com precisão todos os eventos-chave da missão Apollo na qual este episódio era focado, que quando eu dei o roteiro para outro roteirista profissional que estava envolvido no projeto, ele claramente não se importou com a história. Ele foi gentil o suficiente para não colocar isso dessa maneira. O que ele disse foi que achou que o roteiro precisava mais de um ponto de vista claro.

Isso não significava apenas que aquele personagem precisava estar no centro dos acontecimentos – ele já estava. Mas o público precisava vivenciar mais o que ele pensava, sentia e queria, a partir da perspectiva dele. Aquilo tinha que se tornar uma viagem emocional para eles. Não é o suficiente para eles ficarem um tanto interessados na situação dele, e a missão acabar voando no final. O objetivo real é eles se importarem – relacionarem-se com este ser humano e realmente quererem que ele alcance o objetivo no qual esta história era focada.

Como se consegue isso? Bem, o primeiro ponto que eu salientaria pode parecer uma regra óbvia, mas também sufocante: ele deve estar em praticamente todas as cenas. Eu lembro do quanto eu me irritei com esta ideia quando o meu professor de roteiro da faculdade a propôs pela primeira vez, e como eu procurei por exemplos de filmes com personagens principais que não estivessem em muitas das cenas, a fim de tentar provar que ele estava errado. (Não me lembro até onde eu fui com isso, mas não acho que fui um grande sucesso.) Claro, você não precisa seguir isto cegamente, mas poderia ficar surpreso se visse os filmes de sucesso que você já amou, para descobrir exatamente em quantas cenas o personagem principal está presente neles. Eu apostaria que ele está na grande maioria das cenas – e naquelas em que ele não está, há uma razão muito clara e importante da história para isso ( que provavelmente tem muito a ver com ele, mesmo que ele não esteja fisicamente presente).

Mas não é só ele estar presente. Normalmente, ele deveria estar dirigindo a ação da cena: o que ele quer e está tentando fazer deve ser a coisa principal sobre a qual é cada cena. E é necessário todas as cenas de um filme para ele finalmente alcançar o seu objetivo. Para ver o quão difícil e complicado é o problema.

Claro, existem histórias que têm mais de um "personagem principal", mas eu acho que elas são mais raras do que se poderia pensar. Um verdadeiro filme de "conjunto" é um com vários personagens, em que cada um tem suas próprias mini-histórias que se entrelaçam, como em Crash, O Reencontro, ou Ele Não Está Tão a Fim de Você. Mas você vai perceber que, mesmo nestes filmes, em qualquer cena em particular, estamos totalmente dentro da perspectiva emocional do "personagem principal" daquela história. Em outras palavras, as coisas não são contadas "objetivamente", como anteriormente escrito.

Em muitos roteiros que eu li, é exatamente essa a sensação que passa: que nós estamos olhando para os acontecimentos, e não vivendo-os emocionalmente de dentro do personagem principal. Podemos até não estar plenamente conscientes do que o personagem principal está pensando, sentindo, querendo, ou tentando alcançar. Ou talvez não haja um personagem principal claro – apenas um punhado de personagens vivenciando uma história, em nenhum dos quais estamos realmente inseridos.

Na Folha de Beats que escrevi para este site, analisando Minhas Mães e Meu Pai, eu descobri que este filme não tinha um personagem principal, mas na verdade explorou os pontos de vista de todos os cinco personagens centrais sobre a história na qual todos eles estão envolvidos. Este é um outro tipo de abordagem de "conjunto" que raramente é usada, mas pode ser eficaz se bem feita. Mas, novamente, em cada uma das cenas estamos realmente focados nas emoções de um personagem em particular, conforme ele vivencia o que está acontecendo. Somos feitos para sentir, intimamente, o que é ser cada um destes personagens.

Eu acredito que a conexão emocional e a ressonância é do que se trata a narração de histórias (juntamente com o entretenimento – se nós quisermos encontrar um público). A melhor maneira de conseguir isto é dar ao seu personagem principal um problema grande, difícil, complicado e importante, com muita coisa em jogo para ele – o que o desafia a sair em uma "missão" que levará o filme inteiro para resolver. E então, dramatizar essa missão a partir da perspectiva dele – estar com ele quando ele tenta alcançar seus objetivos, quando fracassa, muda de planos, se depara com consequências inesperadas e é pressionado até o seu limite, antes das coisas finalmente serem resolvidas. Em outras palavras, conseguir nos envolver tanto no ponto de vista dele, que ele se torna o nosso.

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Boa escrita pra você hoje!

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2 Comentários

  1. Oi Valéria, boa tarde!
    Não só a questão e da importância do Ponto de Vista, como para o Ponto da Vista que deve estar atenta para uma simples rabiola (rabo do papagaio, pipa, etc…). Ela foi complementar ao texto.
    “Um certo grau de oposição é importante para o homem. As pipas sobem contra e não com o vento”. Ótima frase, coerente e significante para quem tem “preguiça” ou “distração” ao ler.
    Vou sim, sempre, seguir o seu conselho. Uma ótima escrita para ti também.
    Parabéns!
    Abraços!.

    Comentário por Cilas Medi — 09/05/2011 @ 13:10

    • Oi, Cilas, como vai?! 😀 😀

      Obrigada, fico super feliz que tenha gostado, às vezes eu levo um tempão pra achar imagens que combinem com o texto, mas esta veio a calhar direitinho. Eu adoro as frases ilustradas do Ceó Pontual, ele, além de escolher bem as frases, as ilustra com uma beleza e uma graça que casam perfeitamente com a mensagem que ele quer passar. Se quiser conferir as outras obras dele, dá uma passada no site: http://frasesilustradas.wordpress.com/

      É bem bacana!

      Obrigadão pela visita e pela mensagem, Cilas, e uma ótima semana pra você, com muitas realizações!! 😀 😀
      Um beijo grande! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 10/05/2011 @ 11:19


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