Dicas de Roteiro

17/04/2011

Sobre Falsos Documentários

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:04
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O texto de hoje é a resposta de uma pergunta feita para o roteirista Scott Myers, e tirado do site dele, Go Into The Story:

Cinema_tomgauld

Cinema é a verdade 24 quadros por segundo

Pergunta via email de Jason Toon:

Eu amo o seu blog. Você merece uma medalha. E isso vale em dobro se você puder responder a minha pergunta:

Estou trabalhando em um mockumentary [falso documentário] e tenho ficado surpreso ao ver quão poucos conselhos existem por aí sobre escrever esta abordagem específica. Obviamente, muitas das regras habituais não se aplicam: personagens falam diretamente para a câmera, falas em “off” são frequentemente exigidas etc. Além disso, é um desafio contar a história sem uma câmera onisciente. Você tem algum outro conselho para um aspirante a falso documentarista? E quanto à indústria, os falsos documentários são vistos de forma diferente dos outros roteiros de especulação? Em outras palavras, ao seguir por este caminho, eu estou me colocando numa situação de venda mais difícil?

Resposta de Scott Myers:

Primeiro, um pouco de história. Tanto quanto sei, o termo "mockumentary" – um documentário falso, cômico – foi utilizado pela primeira vez em relação ao filme de 1984, Isto é Spinal Tap. Uma das estrelas deste filme de Christopher Guest fez carreira em cima deste sub-gênero com Waiting for Guffman (1996), Best in Show (2000), A Mighty Wind (2003) e For Your Consideration (2006). No entanto, eu acho que você poderia razoavelmente chamar Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), de Woody Allen, e Real Life (1979), de Albert Brooks, de mockumentaries, mesmo antes da designação ter entrado em uso. Outro exemplo seria Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (2006), de Sacha Baron Cohen.

Se você olhar os falsos documentários como um sub-gênero da sátira, que é um sub-gênero da comédia, então é muito fácil compreender por que não vemos muitos deles – um sub-gênero de um sub-gênero é bem um nicho. Além disso, uma vez que os falsos documentários são tipicamente uma paródia de uma área temática específica – por exemplo, exibições de cães, em Best in Show; música popular, em A Mighty Wind; indústria cinematográfica, em For Your Consideration – eles restringem o público em potencial àquelas pessoas que realmente se importam e conhecem a área específica que o filme está gozando. Finalmente, há o seguinte: Uma grande sátira é realmente difícil de se levar a cabo.

Essas seriam as razões que eu acredito que contribuem para que tão poucos falsos documentários de fato sejam produzidos e distribuídos. E, para ser honesto, eu acho que isso se aplica ao nível de aquisição de roteiros também – se alguém souber de um roteiro de especulação de falso documentário que tenha sido produzido nos últimos anos, favor postar nos comentários, porque eu não consigo pensar em nenhum.

Em termos de escrever roteiros de falsos documentários, eu de fato tenho um pouco de informação privilegiada sobre isso. Em 1995, Burg & Myers teve um escritório em Castle Rock por várias semanas enquanto políamos o nosso roteiro original de Alasca. Na mesma época, o estúdio estava produzindo Waiting for Guffman, e, como resultado, eu consegui ver algumas das filmagens e dar uma olhada em algumas páginas do roteiro.

Como você pode imaginar, Guffman profundamente improvisado – o que faz sentido porque, para funcionar, o filme tem de parecer um documentário; portanto, os atores e tudo o que acontece têm de passar espontaneidade e “verdade”. As páginas de roteiro que eu vi não tinham diálogos em si, mas elas tinham: (A) cenas escritas explicando as linhas gerais do que ela se tratava, (B) dinâmica-chave entre os personagens nas cenas, e (C) ocasionais falas de diálogo na descrição da cena. Tudo isso me sugeriu que o Guest e o co-escritor Eugene Levy tenham criado o enredo com antecedência, o testaram através de ensaios com os atores, e então inseriram pequenos detalhes de interpretação em seu roteiro pré-existente.

Especificamente quanto à sua pergunta sobre uma "câmera onisciente", eu acho que você pode presumir isso na fase do roteiro – simplesmente suponha que você possa ir a qualquer lugar. E eu lhe aconselharia a assistir Real Life, porque, se a minha memória está correta, Brooks tinha operadores de câmera usando umas câmeras-capacete ridículas que pretensamente deveriam manter as equipes de filmagem em segundo plano – para ajudar a família a sentir-se mais confortável – mas acabavam por fazer exatamente o oposto. Em outras palavras, Brooks de fato torna a câmera e a equipe de produção parte da história, o que, na realidade, contribuiu para o humor do filme.

Meu conselho principal: Certifique-se de que o roteiro seja engraçado. Realmente engraçado. Isso – e o conceito central da história, supondo que seja ótimo – são os dois elementos mais importantes em termos de uma possível venda de roteiro.

A propósito, se alguém tiver uma cópia de um dos roteiros de Guest ou o de Borat, por favor, entre em contato comigo.

tirinha1457

Nos comentários uma internauta lembrou que existem muitos falsos documentários de comédia independentes e de baixo orçamento, o que faz sentido, pois eles são fáceis de filmar, já que geralmente você não precisa se preocupar com o valor da produção. Boa opção para quem está começando, desde que tenha o que o Scott disse: uma boa ideia central e seja realmente engraçado (ou aterrorizante, caso seja um falso documentário tipo [Rec] ou A Bruxa de Blair).

Boa escrita pra você hoje! Alegre

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6 Comentários

  1. Parabens.
    Vc é maravilhosa. Minha leitura diaria. Um anjo em minha vida.
    Muito obrigado, valeria, por tudo!

    Comentário por john — 17/04/2011 @ 22:52

    • UAU!!! =D

      Puxa, obrigada, John, eu não sou um anjo, mas agora estou nas nuvens!! Rsrs! :mrgreen:

      Disponha, e fico super feliz de você estar gostando e acompanhando diariamente meu blog! Eu tenho tido uma semana super cheia, mas a partir de amanhã acho que conseguirei voltar a postar diariamente de fato! Rs! Tomara! 😀

      Um beijo grande, John, e obrigadão pela visita! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 18/04/2011 @ 12:57

  2. Gostei do texto, mas acho que ele trata os falsos documentários como algo que deveria ser muito específico e atingir um publico específico, e ter graça apenas para esse público que entenderia as piadas e tal, e acho que não precisa ser assim.

    The Office e Parks and Recreation, duas séries maravilhosas que são super engraçadas (não deixam de ser sátiras, em meu ponto de vista), mas você não precisa trabalhar em um escritório ou em uma divisão do governo, ou um entendimento sobre um assunto para entendê-las. Acho que o mockumentary é apenas a maneira como você apresentar sua série ou filme, e depois o tipo de comédia vai determinar o tipo de público que vai assistir. Logo, acho que não é porque é um falso documentário que será sobre um nicho.

    O falso documentário funciona mais como uma “liga” para a história, sabe? É aquilo que dá um atrativo e pode trazer outros recusos para a comédia. Pense nas mesmas séries que eu falei (se alguém assistir) sem o formato do falso documentário. Eu imagino que não dariam tão certo como 30 Rock, Community, na verdade nessas duas eu acho que nem teria espaço para colocar um falso documentário se tentássemos fazer um pensamento oposto.

    Na série que estou escrevendo, eu vi que as coisas não estavam caminhando, não tinham muito objetivo e estava começando a perder a fé em toda a idéia. Então pensei em modificar um pouco a história e fazer minha egocêntrica personagem principal ganhar um documentário sobre sua vida, mas que perde o rumo após uma decisão dos “produtores” em procurar algo mais interessante e que venda.

    Nessa mudança, eu consegui já traçar uma espécie de arco da personagem, as histórias que pareciam sem sentido se encontraram com o restante da série e agora posso colocar desde histórias mundanas como a compra de uma roupa até mistérios com assassinatos que o falso documentário me dá essa base para um bom funcionamento.

    Depois dessa baboseira toda, o que quero dizer mesmo é que (pra mim) o falso documentário não pode ser ser vista ou imaginada como um sub-gênero da sátira e sim a sátira um sub-gênero do falso documentário, que você pode muito bem usá-la ou não.

    Comentário por Fernando — 18/04/2011 @ 20:04

    • Oi, Fernando! =D

      Antes de tudo, me perdoe a demora na resposta, ando numa correria tão grande, que só agora consegui ter um tempinho no computador!

      E ADOREI o seu comentário. Muito bem observado. Realmente, nem toda comédia vai melhorar com este tipo de estética, mas em outras, a coisa fica muito melhor! A-M-E-I a sua ideia, nossa, eu tô me coçando pra assistir a sua série!!! Achei um barato essa sacada de transformar o documentário em algo vendável, e a personagem é que se estrepe!! 😆 :mrgreen: ADOREI! E realmente é uma boa moldura pra uma série, isso te dá pano pra manga pra desenvolver muitas situações engraçadíssimas (e até de suspense, como você citou), sem perder a lógica ou forçar a barra, já que essa base garante a viabilidade de muitas tramas que normalmente não ficariam naturais numa narrativa tradicional.

      Amei mesmo de paixão a sua história, e agora vou ter que ficar torcendo ainda mais pra você vender rapidamente a sua série, pra que eu, e todo mundo,
      possamos assisti-la logo logo!! 😀 😀

      Um beijo grande, Fernando, obrigadão pelo comentário, e desculpe novamente pelo atraso, espero poder voltar ao meu esquema normal agora no feriado, vou aproveitar a minha folga pra trabalhar mais! 😆 :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 20/04/2011 @ 16:40

  3. Imagina, Valéria! Eu também estava atolado de coisas para fazer essas semanas para trás, e tive que procrastinar para poder vir ao seu blog. Espero que esse feriado me deixe colocar o que falta em ordem, pois tenho toneladas de livros para terninar de ler, roteiros para desenvolver, um novo projeto querendo dar as caras… Muita coisa!

    E eu que ADOREI sua resposta! Fico feliz que tenha gostado da idéia, e que ja tenha ganhado pelo menos um telespectador 😀 . O jeito é continuar trabalhando para conseguir algo até o final do ano, porque já estamos praticamente na metade de 2011! SOCORRO!

    Comentário por Fernando — 21/04/2011 @ 13:39

    • Oi, Fernando! 😀

      Eita, tá vendo que as coisas tão brabas pro meu lado, mas eu tô tentando botar em dia! Rsrs!

      Pode crer, você já tem uma espectadora cativa! 😀 E ansiosa! :mrgreen:

      Ah, eu tô igualzinha a você (a minha lista tá até parecida!) e faço coro contigo: SOCORROOOO!!! Pra onde foi o começo do ano? Nem vi passar!!

      Ai, ai, só nos resta continuar na labuta, tentando recuperar o prejuízo na próxima metade de ano que temos, né?

      Um beijo grande, Fernando! (Tô meio sonâmbula no momento, mas nada que uma sonequinha não cure! 😆 )
      Valéria Olivetti =D

      Comentário por valeriaolivetti — 23/04/2011 @ 13:59


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