Dicas de Roteiro

13/04/2011

Sobre Adaptações

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 12:57
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O texto de hoje é de Michael Ferris e foi tirado do site da revista Script (onde este autor tem uma coluna chamada Magic Bullet):

Adaptação

A notícia é que a calota de gelo está derretendo e vai ser quase impossível pegar focas.

A boa notícia é que se continuarmos andando para o sul, tem um montão de animais gordos chamados “humanos” que não conseguem correr muito rápido.

Pergunta: O roteiro que eu escrevi é uma adaptação de um videogame, e eu queria saber quais são as regras e restrições para algo assim. Eu tenho que comprar os direitos dos desenvolvedores do jogo ou eu posso tentar vender o roteiro e uma empresa produtora vai comprar os direitos, se eles quiserem o roteiro?

Se você tiver tempo para responder, por favor, me avise.

Obrigado,
Lucas

Resposta de Michael Ferris:

Lucas,

Obrigado por sua pergunta, essa é uma que me fazem muito. Ultimamente, tenho recebido uma onda de dúvidas de pessoas que escreveram adaptações de quadrinhos menos conhecidos, por exemplo, e me perguntam o que elas podem e o que não podem fazer com o roteiro.

Quanto à sua pergunta, infelizmente, quando se trata de direitos de livros de grandes nomes (ou de grandes lançamentos de videogames, no seu caso), os direitos geralmente são comprados pelos produtores ou estúdios muito antes do material sequer ser lançado para o público. Hoje em dia, praticamente qualquer coisa produzida por uma grande editora, produtora de jogos, ou quadrinhos (mesmo os autores principiantes e menos conhecidos) ganha um contrato de opção antes mesmo do tiro de largada, pois tê-los antes que eles se transformem em sucesso mantém os custos baixos (os direitos de um genuíno romance bestseller sendo muito mais caros; bem mais caros do que os daquele que você *acha* que pode se tornar um bestseller). É uma estratégia arriscada, mas, em última análise, inteligente, dos figurões que, infelizmente, dificultam para quem tem menos poder e dinheiro.

Agora, tem uma boa notícia. Se ele for um ótimo roteiro, pode tanto: A) ajudar você a conseguir um agente (mais provável), e B) colocá-lo na concorrência para escrever sob encomenda um outro filme de ação semelhante. É ALTAMENTE improvável, não importa o quão incrível seja a abordagem que seu filme fez do videogame, que um estúdio compre o roteiro ou sequer deixe você reescrever uma versão de uma interpretação já existente deles, já que você seria novo na indústria e eles contratam profissionais grandes e comprovados para reescreverem filmes de grande orçamento do tipo tentpole [N.T.: Filmes muito divulgados e ansiosamente aguardados pelo público que são utilizados para vender uma série de outros menos conhecidos, numa espécie de pacote, para os distribuidores].

Nunca subestime o poder de uma ótima amostra de escrita de alto conceito. Visto que os escritores profissionais que se concentram em trabalhos sob encomenda, em apresentação de ideias, e (especialmente) em reescritas ganham mais dinheiro do que aqueles que continuam tentando produzir continuamente um roteiro de especulação depois do outro, eu tenho visto muitos profissionais juntarem mais dinheiro em cima de suas amostras de escrita do que aqueles que tentam vender o seu roteiro favorito.

Pergunta: Achei a sua série Magic Bullet bastante perspicaz. Eu tenho escrito ficção com um interesse crescente na faceta da escrita de roteiros de um contador de histórias. Tenho notado uma diferença super primária que é ao mesmo tempo decepcionante e encorajadora.
Com ficção, cada composição é uma criança nascida do trabalho excruciante de um escritor; crescida e preparada e enviada ao mundo para ter sucesso. Cada uma deve ser bem-sucedida, mas infelizmente, sabemos que nem todas conseguem isso.
Seus artigos sobre roteirismo ensinam um conceito diferente. Cada uma é um trabalho produto da paixão, composta por um criador egoísta a fim de ser posta de lado assim que o seu objetivo seja cumprido. Ao invés de um esposo fiel, o indivíduo deve se tornar um cafajeste e pular de uma história bonita para a próxima, procurando apenas o que pode ser ganho com cada uma.
Leva algum tempo para se acostumar, mas não há nada mais gratificante do que ver uma criação ter sucesso, mesmo que você esteja namorando uma outra história no momento.

Thomas

Resposta de Michael Ferris:

Thomas,

Você levanta pontos excelentes! A razão pela qual eu abraço essa filosofia, é porque, mesmo no melhor cenário (um estúdio gosta, compra, aprova e diz que o seu roteiro é "perfeito"), há uma chance de 99,999% de que vão contratar alguém para reescrever e/ou polir o seu roteiro. Isso pode ser difícil para aqueles que estão despreparados e que pensam em seu roteiro como seu “bebê” (e que escritor não pensa assim?) até o final. Eu aprendi do jeito mais difícil, depois de não ter pensado em preparar um par de primeiros clientes quando eu os ajudei a lançar suas carreiras, e eles ficaram inconsoláveis ​​quando seus roteiros foram "levados" e reescritos por grandes profissionais contratados pelo estúdio.

Na ficção, você não tem esse problema. Claro, ela pode acabar editada em algo que você não reconhece, mas nunca é tomada por outro escritor. Em suma, ela nunca deixa de ser o seu bebê e você nunca tem que compartilhar o crédito de escritor, por exemplo.

Mais uma vez obrigado pelo comentário – você fez ótimas observações!

Pergunta: Eu tenho uma ideia para o meu roteiro, de usar um slogan bem conhecido como parte do meu contexto e talvez usá-lo como um lembrete. (Ex: "Acorde com o Rei", do Burger King.) Eu não sei se isso viola as leis de direitos autorais ou se sequer é uma boa ideia, para falar a verdade. O que você acha?

Ted

Resposta de Michael Ferris:

Ted,
Na maior parte das vezes, provavelmente é melhor ficar longe de marcas registradas, direitos autorais ou de outros materiais/slogans bem-conhecidos. Mesmo quando os estúdios têm milhões de dólares e equipes de advogados por trás deles, eles intencionalmente escolhem inventar lugares de negócios fictícios por uma boa razão. A menos que eu não tenha entendido o que você deseja fazer com ele, o meu conselho é criar uma versão original ou satírica da mesma coisa e se poupar de problemas.

Acorde com o rei-por mastafuu

Boa escrita pra você hoje!

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4 Comentários

  1. Oi Valéria, Como está ?
    Eu estou muito confuso em relação a uma coisa: Eu tenho 15 anos, eu sei que quero ser um grande roteirista. Sei que vou conseguir, mas algumas pessoas dizem que para isto eu tenho que ter uma “certa faculdade” de cinema. Obviamente, não ligo, porém, sou um garoto que se atinge rápido. Então, eles estão me influenciando para fazer o Enem. Você acha que a faculdade de cinema me ajudará a me tornar um bom roteirista ? Eu acho que tenho que ir pelos meus próprios instintos, mas eu quero uma opinião diferente.
    Uma boa semana e um beijão!
    Igor !

    Comentário por igor — 13/04/2011 @ 13:54

    • Oi, Igor! 😀

      Sabe, quando eu dizia que queria fazer faculdade de Cinema (lá pelos idos dos anos 90!), as pessoas reagiam como se eu tivesse ficado louca. Algumas comentaram que eu morreria de fome. O preconceito era imenso, e foi só depois da Retomada do Cinema Nacional que as coisas mudaram. Hoje a faculdade de Cinema não é mais uma subdivisão da de Comunicação Social, ela ganhou o status de faculdade autônoma, e tem várias universidades que já oferecem este curso (na minha época só tinha a USP, a Faap e a UFF, que foi a que eu entrei). As coisas mudaram tanto que já estão te indicando pra fazer esta faculdade, ao invés de tentarem dissuadi-lo disso, que diferença da minha época!

      Também, quando eu entrei neste curso, uma pessoa do ramo me disse que a faculdade não era para aprender a fazer Cinema, isso eu teria que aprender sozinha, a faculdade era apenas para “fazer social”, conhecer gente com os mesmos interesses que eu. Odiei ouvir isso. E não acreditei. Mas acabei descobrindo que era verdade. A faculdade não torna ninguém cineasta (ou roteirista, ou fotógrafo, produtor etc.), isso você vai ter que ralar muito por conta própria para adquirir os conhecimentos de que necessita. Mas lá você terá gente disposta a filmar seus roteiros de curtas, por exemplo. Gente que vai querer participar dos curtas que você vai dirigir. Gente que vai te incentivar, criticar, apoiar. Amigos com os mesmos interesses e que podem acabar dando o primeiro passo para a carreira profissional junto com você (em grupo é sempre mais divertido do que sozinho, não acha?). E isso também vai te tirar um pouco de casa, você vai conhecer gente nova, com ideias diferentes, o que pode acabar servindo de inspiração para suas histórias.

      O diploma de Cinema serve basicamente para uma coisa: uma “rede de segurança” caso você não consiga tornar-se um profissional atuante na área. Você poderá, assim, trabalhar como crítico de cinema em jornais e revistas, ou dar aulas em cursinhos de cinema, como o curso de câmera de vídeo do Senac, por exemplo. Pode até dar aula em faculdades, se fizer a pós-graduação.

      Eu mesma cursei a faculdade 2 anos e meio (faltou apenas 1 e meio para terminar), mas saí porque achei que meu tempo seria melhor empregado trabalhando e estudando sozinha, já que meu objetivo era escrever roteiros (e eu estava farta de tantas greves, todo ano tinha uma longa greve que garfava 2 meses ou mais de nosso período letivo, e tínhamos que compensar em algumas semanas nas férias. Eu sou simpática à reivindicação por melhores salários, mas odiava as consequências para os alunos dessas greves constantes, os professores terminavam o período de qualquer jeito, jogando um pouco de matéria e tascando um trabalho qualquer para darem nota e se livrarem logo daquilo, e poderem começar o período seguinte que já estava no calendário – e outra greve alguns meses depois). Se eu tivesse terminado o curso, talvez a minha carreira já tivesse decolado (ou não, pois outras circunstâncias, que não têm a ver com o caso, também me impediram). Enfim, a decisão de cursar ou não Cinema deverá ser sua, e apenas sua, e você está certíssimo em contar com a sua intuição – ela é a sua melhor arma.

      Aqui vai o link da experiência de outra pessoa que também estudou na UFF (e terminou): http://www.ufscar.br/rua/site/?p=1960

      Ah, e hoje em dia tem várias faculdades de tecnólogo de Cinema (em universidades particulares) que, pelo que dizem, botam mais a mão na massa do que as faculdades públicas, que têm um enfoque mais teórico. Dê uma pesquisada pra conferir se é verdade.

      Um abração, Igor, eu espero que essas informações lhe ajudem a decidir o rumo que você tomará daqui pra frente! Boa sorte! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 14/04/2011 @ 11:03

  2. Olá.

    Gosto muito do seu blog e leio praticamente todos os textos postados aqui.

    Aprendi muito com eles.

    Quando li essa matéria fiquei com uma curiosidade: qual seria a SUA resposta para as perguntas?

    Sucesso obrigado obrigado pelas dicas.

    Até mais.
    Fabrício Luna

    Comentário por Fabrício Luna — 13/04/2011 @ 14:46

    • Oi, Fabrício, seja bem-vindo! 😀

      Que bom que você esteja gostando dos posts, saber que meu objetivo de divulgar este conhecimento está sendo cumprido, me deixa super feliz!! =D

      Eu concordo com o autor do post, sendo que devemos lembrar que a vida em Hollywood é um tantinho(!) diferente da nossa aqui. Por exemplo, acho que podemos ter mais chance de contatarmos um autor de quadrinhos ou de livros e conseguir uma autorização dele para fazer uma adaptação de seu trabalho (ou conseguir os direitos autorais por um preço módico, até o roteiro ser vendido – para isso é necessário um advogado especializado para redigir o contrato) por um tempo determinado, 2 anos, por exemplo. Se neste período você conseguir vender o roteiro, vocês dois receberão suas devidas partes do lucro com o filme. Passado este tempo, o autor pode vender os direitos para outra pessoa.

      Tem muitas obras interessantíssimas de autores brasileiros (tanto de ficção quanto de não-ficção) que podem render filmes incríveis, e você pode acabar acertando na loteria se conseguir os direitos de um autor menos badalado (os maiores vão cobrar mais $$$!) e conseguir fazer um roteiro que seja produzido.

      No entanto, se você vai usar um roteiro como amostra, eu acho que seria melhor fazer um original do que um baseado na história de outros (se você não possui os direitos autorais). Assim, pelo menos aqui no Brasil, as suas chances de vendê-lo (ou de ser contratado como roteirista por uma emissora, por exemplo) aumentam, e você terá empregado melhor o seu tempo e a sua criatividade. Afinal, os profissionais também vão julgar se você consegue criar uma história (e diálogos) própria, sem se basear nas ideias e palavras de outros.

      Mas esta é apenas a minha humilde opinião. :mrgreen: 😉

      Um abração, Fabrício, muito sucesso e volte sempre! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 14/04/2011 @ 11:26


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