Dicas de Roteiro

25/03/2011

Fica Por Aí Mesmo

Filed under: Atuação,Direção,Produção,Roteiro — valeriaolivetti @ 10:07
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Esta coluna saiu ontem no Segundo Caderno do Jornal O Globo, e é de autoria de Eduardo Levy:

Hollywood-Sign

Hollywood é um sonho. Para os iniciantes e para os mais bem-sucedidos, a meca do cinema é o objetivo final, a terra prometida. Alan Parker mesmo diz que sua indústria do cinema é povoada por um monte de pessoas em Londres que não conseguiram o green card. Verdade que vale para a Inglaterra, para a Austrália, Alemanha e Suécia. Vale para o Brasil. No fim da temporada de prêmios, no auge da euforia, me enchem de perguntas daí a respeito da vida por aqui, umas mais ingênuas que as outras, então aproveito o espaço para responder a todos. Espero que o título desta coluna não seja muito anticlimático.

Começando pelo começo. Aos que ainda estão na faculdade: não, não faz a menor diferença se você é formado em Cinema pela USP, UFF ou Faap. E, por favor, não vai mencionar que fez o curso de quatro semanas da New York Film Academy. Pega muito mal. Se a sua formação não é pela USC, Tisch ou AFI – e seu pai não é presidente de produção de algum estúdio – quem se importa? Faz a coisa certa, se forma e volta para o Brasil para dividir o que aprendeu com os outros meninos. Por aí, eles vão te achar o máximo.

Roteiristas: falar inglês é importante. Ter experiência escrevendo inglês é relevante. E ter experiência escrevendo(!) ajuda também. Não, fazer parte de uma equipe que escreve a novela das sete (existe esse horário ainda?) não é credencial, e não vai abrir as portas para o cinema ou mesmo a TV. Aliás, escrever para a TV por aqui é cada vez mais difícil e competitivo. Para que mudar para Los Angeles? Agora que a Starbucks entrou no país, vocês podem viver como qualquer roteirista de Hollywood por aí mesmo. Basta levar o laptop, comprar um café torrado e amargo, e sentar em umas das lojas da cadeia por horas a fio, fingindo estar criando o próximo roteiro magnífico que vai revolucionar a sétima arte. “Mas as oportunidades são mínimas no Brasil!” Mas as oportunidades são ainda menores por aqui se você não tem experiência escrevendo, ou escrevendo em inglês. Pelo amor de I.A.L. Diamond! Ah, você tem uma ideia maravilhosa para um roteiro? Então, tá. Coloca na caixinha de ideias do lado de fora do meu escritório, onde você encontra outras mil ideias geniais que não foram a lugar nenhum. Disclaimer: I don’t accept unsolicited material.

Atores e atrizes: se você faz sucesso no Brasil, alguém já se ofereceu para trazê-lo para Los Angeles, certo? O seu agente ou manager, que no fim das contas não faz muito além de marcar algumas reuniões – e tudo que ele/ela quer em troca são módicos 40% de comissão – já te levou aos estúdios e à ICM, CAA ou UTA. E eles te receberam muito bem, mencionaram seus últimos sucessos e até te levaram para assistir a um jogo dos Lakers, não foi? Fique realmente feliz quando eles conseguirem trabalho, e você receber o dinheiro. Aí sim, desconta os 10% da agência – sim, 10% é o justo e regulado por lei aqui nos EUA – a pequena parte do seu intermediário, custos das viagens de todos, imposto de renda e… não é mais negócio continuar recebendo na Globo e nos eventos de fim de semana? E para os que não fazem sucesso por aí, que tal melhorar o inglês? Parece repetitivo detalhe, mas posso garantir que existe uma razão para isso. Se já disseram que seu inglês é bom por aqui, melhor correr atrás, porque não é. They are definitely patronizing you. By the way, are you ready for hundreds of cattle calls? Don’t know what that means, right? This isn’t for you, then.

Diretores: se seu nome é Padilha, Salles ou Meirelles, esta coluna não te diz respeito. Se o sobrenome é outro, vejamos, você dirigiu algo mais do que um curta-metragem? Foi indicado ao Oscar? Algum dos seus filmes está sendo adaptado por um grande estúdio? Você fala inglês? Entendo. Me ajuda, vai. Alguma coisa para atrair a atenção das agências de talento? Eu já assisti a seu curta, e não gostei. Parece amador. E não, isso não é estilo de cinema independente. Cinema Novo é velho. Amador não é elogio.

Produtores: me identifico com vocês. Ligeiramente. Não são muitos os que se aventuram por aqui como eu. São mais espertos, e sabem que não há melhor indústria de cinema para se fazer dinheiro produzindo como a brasileira. Onde mais se faz uma fortuna sem ter que se preocupar com a audiência ou bilheteria? No meu caso são quatro longas em três anos, e, mesmo assim, it’s only paying off if they do really well in the box office. What, unheard of? Well, it’s the way it should be over there.

Então é isso. Para de reclamar e vai buscar seu dinheiro público, baratinho, de irmão, e faz o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Assim que vender mais de um milhão de cópias piratas oficiais, você recebe uma ligação de Sundance para levar seu filme para as montanhas em janeiro. De repente a Embratur até patrocina a viagem. After they get tired of kissing your ass, you’ll come back to Brazil thinking nobody can live without your talents anymore. But they can, and they will. Falei que inglês era importante, não falei?

Quem devia ler este texto lê, mas não acha que é com ele, ou ela, it is, dear. Bom, tenho de certeza que você vai me ligar quando estiver em Los Angeles. Posso até fazer a reserva no Spago, mas não vai esperando ser descoberto entre o couvert e a sobremesa.

Em breve um ano alienando o leitor. You’re welcome.

Se seu nome é Padilha, Salles ou Meirelles, esta coluna não te diz respeito.

hollywood-is-dead-25

“Hollywood está morta”

Boa escrita pra você hoje!

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4 Comentários

  1. o artigo é de eduardo levy, colunista de o globo, pág dele do imdb: http://www.imdb.com/name/nm2037687/.

    achei meio raso. vamos deixar claro que fala direto para uma espécie de roteiristas que não responde pelo todo

    é, portanton, um bom texto para quem entra na labuta do roteiro achando que a vida é fácil, q não existe estrutura, q não existe um mercado e na esperança de ganhar um Oscar. já que ele abusa do inglês neste artigo, vou gastar o meu tb: é um bom wake-up call para alguns deslumbrados por aí.

    Comentário por vitor — 25/03/2011 @ 11:54

    • Olá, Vitor!

      Muito obrigada pela informação, já a adicionei ao post. Valeu! =)

      Existem muitos roteiristas sérios, estudiosos e responsáveis no Brasil (e é exatamente para vocês que eu estou fazendo este blog, senão nem o teria criado, pois seria total perda de tempo, né? :mrgreen: ) mas também existe um grande número de iludidos e deslumbrados, como você bem definiu. E infelizmente eles são a maioria. Eu sei bem, já conheci pessoalmente muitos, e fui assim por muito tempo. Ou, como dizem os americanos, been there, done that! Rsrs!

      O autor pode ter sido duro em seu texto, falando “na lata”, sem dó nem piedade, mas é melhor tirar nossas ilusões mais cedo do que mais tarde. Quem realmente ama este ofício fará tudo ao seu alcance para vencer as probabilidades, e pagará, consciente, o preço cobrado para se ter sucesso neste ramo.

      É isso, Vitor, obrigadão novamente pela informação, é muito chato não saber o autor do texto que a gente tá citando! Valeu!

      Um abração,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/03/2011 @ 21:37

  2. Valéria, eu vou ficar por aqui mesmo. As partes em ingles do texto, direto no google e pronto, estou certo do que foi dito, apesar da tradução ainda meio que meio.
    Para que eu vou para Hollywood? Mesmo com textos que são a maravilha da sétima arte? Nada, não sei falar ingles. E eles não sabem falar portugues. Estamos empates. Questão de tempo.
    O texto não é anticlimático. É só verdadeiro. O Q.I. é bom no mundo todo, para quem consegue as verbas. E concordo com o fato de ter, não importa o meio, o nome do autor.
    Abraços!

    Comentário por Cilas Medi — 26/03/2011 @ 07:23

    • Oi, Cilas! =D

      Gostei do empate! Rsrs! E eu estou contigo, vou ficar por aqui mesmo! Eu traduzo textos diariamente, mas a distância disso para falar e – pior – escrever direito em inglês, com expressões locais e gramática certinha, é bem grande. Eu tô fora desse estresse. Se eu já arranco os cabelos para escrever em português mesmo, vou arranjar mais sarna pra me coçar por quê? E, como você, eu quero é poder contar as minhas histórias, se elas forem lidas ou produzidas, já estarei pulando de alegria! Viver desse ofício aqui no Brasil, sem passar necessidades e com algum reconhecimento (estou longe da pretensão de agradar a gregos e troianos), é o meu humilde sonho. E isso já é muito! Por isso sei que tenho que ralar bastante, continuar dando o meu melhor, para merecer realizá-lo. E deixo Hollywood para quem quiser! Rsrs! :mrgreen:

      Um beijo grande, Cilas, e obrigadão pela mensagem! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/03/2011 @ 21:45


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