Dicas de Roteiro

19/03/2011

Transformada, Não Transferida

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:56
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O texto de hoje é de autoria de D. B. Gilles, e tirado do site Hollywoodlitsales:

Baseado numa história verdadeira original

Roteiristas jovens ou principiantes tendem a ter problemas em encontrar histórias para contar. Com frequência, eles caem na armadilha de escrever o que sabem. Apesar dos numerosos livros sobre escrever romances, peças teatrais, contos e roteiros que lhe dizem para "escrever o que você sabe", isso é enganoso.

Escrever o que você sabe é muitas vezes interpretado no sentido de "escrever o que você vivenciou". Bem, isso é legal de fazer, conquanto você não esteja escrevendo sobre algo EXATAMENTE do jeito que aconteceu.

Lembro-me de uma aluna em particular que era incapaz de escrever qualquer coisa que ela NÃO TIVESSE vivenciado. Ela era divorciada, então ela escreveu sobre seu divórcio. Ela tinha uma mãe abusiva, então ela escreveu sobre sua mãe abusiva. Ela teve um caso com seu chefe, então ela escreveu sobre ter um caso com seu chefe.

Quando ela trazia suas páginas para a sala de aula e algumas cenas ou trechos de diálogos eram questionados por mim ou por outros alunos, ela dizia: "Mas foi exatamente assim que aconteceu." Isto levava a uma discussão sobre o quanto do que "realmente aconteceu" deve entrar no roteiro.

Eu disse para ela (e para muitos outros estudantes que cometeram o mesmo erro) que se você escrever próximo demais da maneira que aconteceu, você não está escrevendo um roteiro. Você está fazendo um documentário.

O melhor conselho que eu já ouvi sobre o assunto veio de um livro maravilhoso sobre dramaturgia chamado "Write That Play" [Escreva Aquela Peça], de Kenneth Thorpe Rowe, publicado em 1939. Ele disse: "A vida deve ser transformada, não transferida."

Falou e disse.

escrever

Boa escrita pra você hoje!

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10 Comentários

  1. Valéria, concordo plenamente. Por mim, não escrevo nada do que vivenciei, pela simples razão de não lembrar de nada, absolutamente, nos detalhes. Então, aqui me vai ó fator de lembranças dos personagens.
    Abraços!

    Comentário por Cilas Medi — 20/03/2011 @ 12:30

    • 😆 Eu tô na mesmíssima situação que você, Cilas, como não lembro de nada do passado em detalhes, vou pela ficção completa mesmo! E acho muito mais divertido e com possibilidades infinitas! Deixar a imaginação voar solta e nos levar a outros planetas, universos paralelos, personagens e histórias que jamais poderíamos vivenciar, isso é que é legal! :mrgreen:

      Um abração, Cilas! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 20/03/2011 @ 12:35

  2. Eu não sei se já falei isso aqui, mas certa vez eu descobri um site brasileiro sobre escrita de romances. Estava achando site interessante com muitos recursos para aspirantes a escritor, até que me deparo com certo artigo…

    Como bem o autor desse texto que você traduziu disse, Valéria, escrever o que você sabe é interpretado como escrever o que você vivenciou, agora eu acrescento é que o grande problema é quando interpretam dessa maneira e ensinam dessa maneira. O artigo do tal site falava absurdos tão monstruosos que a todo o momento eu procurava alguma nota dizendo que aquilo era um site de comédia e que tudo ali escrito tinha o único propósito de entreter.

    Seja lá quem escreveu (que não merece nenhuma atenção nossa) chegava a dizer que você não poderia utilizar uma personagem de 30 anos em sua história se você é um garoto de 15 anos. Você teria que escrever sobre garotos de 15 anos, pois você não sabe como é ser um homem de 30. Você não pode escrever sobre personagens em crise no casamento, se você nunca passou por uma crise no casamento, se no máximo você presenciou uma no casamento de seus pais, então você deveria escrever sobre uma pessoa de fora que viu uma crise em um casamento assim como você. Você não pode escrever sobre uma profissão que nunca teve… Os absurdos não paravam e só pioravam.

    O argumento dado pelo autor do texto seria de que para passar confiança para o leitor você teria que ter sentido, presenciado, vivido toda a história de seu livro.

    Sinto muito, mas escrever sobre o que você sabe, nesse caso de ter vivenciado a história, é apenas uma desculpa para os preguiçosos que abrem mão da parte mais gostosa da produção de uma história: a pesquisa.

    Então sou super a favor do termo “Escreva sobre o que você sabe.” Desde que seja completado com a palavra “Pesquise.”

    Eu acho que a vida real muitas vezes nos dá razões e histórias para escrever, mas jamais vou fazer uma história do jeito que a vivi. Quero escrever ficção, não uma biografia. Eu nem ao menos gosto de usar nomes de pessoas que eu conheço em minhas histórias! Depois reclamam que os nomes das minhas personagens soam um tanto quanto “estrangeiros” em nossa cultura, mas é minha maneira de escrever sobre o novo ou o que já conheço, sem ficar preso a nossa realidade. E acho que isso falta nos roteiristas brasileiros, sabe? Pelo menos aqueles que são produzidos. Todos muito presos a realidade, ao que vivenciamos… Nossa realidade não é maravilhosa para retratarmos em nosso cinema e TV, na verdade nossa realidade é bem medíocre. Quero ver o nosso sonho da verdade, não ela nua e crua. É aí onde os americanos ganham de nós, eles escrevem sobre o que querem ser, viver (mesmo que seja um armagedon alienígena) e o que nós escrevemos? Aquilo que nós somos e não queremos, escrevemos sobre nossa pobreza, nossa violência (o armagedon pelas mãos de facções criminosas) e ainda muitos viram para nós e dizem que devemos ter orgulho disso.

    P.S.: Eu definitivamente preciso de um blog. Eu abuso dos seus comentários!!! Oh, well… Pelo menos aqui vou ter resposta sobre o que escrevo.

    Comentário por Fernando — 20/03/2011 @ 16:26

    • Fernando, fiquei pasma com esses conselhos que você leu!! Tô em choque até agora!! Você tem toda razão, se a gente não morrer num Armagedon, então não podemos escrever sobre pessoas que morrem em Armagedons!! Rsrs!! É uma loucura! E se você for escrever sobre um serial killer, é bom já começar matando gente a torto e a direito, senão não vai passar “verdade” pro personagem… Completamente insano!! Vai ser complicado fazer vilões então… No final das contas todos os escritores só poderiam escrever suas autobiografias mesmo, e nada mais. Você teria de ser um astronauta para escrever sobre viagens ao espaço, um médico e um louco para escrever Dr. Jekyll e Mr. Hyde! Teria que ter vivido na época de Roma, ou da Segunda Guerra Mundial, para escrever sobre isso. A gente tem que ser escritor E ter uma máquina do tempo, senão não serve. E a lista de exemplos absurdos para este conselho não teria fim, ele é realmente uma comédia! Pelo menos tem a qualidade de fazer a gente rir muito!! Rsrs!

      E eu também adoro pesquisa! Até me sinto um pouco culpada, porque às vezes eu fico tão entretida na pesquisa que adio a escrita, o que é um erro. Mas tenho me disciplinado mais nesse sentido ultimamente. Mas que é divertido, é!

      Eu não sou contra as pessoas fazerem filmes sobre a face dura da realidade de nosso país, eu sou contra fazerem SÓ isso, e os produtores produzirem só esses temas, e os concursos e editais privilegiarem apenas essas histórias. Façam filmes sobre lixões, mas façam também de ficção científica. Façam filmes sobre favelas, mas façam também de fantasia, suspense, comédia romântica, terror e por aí vai… Acho que há espaço pra todo mundo, mas isso tem de começar pela cabeça das pessoas que dão a carta branca pra continuar.

      E, claro, fazer um blog é ótimo, mas não deixe de comentar aqui! Você jamais abusou, muito pelo contrário, seus comentários são sempre informativos e pertinentes, e eu ADOOOORO!!! (E as letras maiúsculas não são grandes o suficiente pra mostrarem o quanto eu adooooro!!). :mrgreen:

      Um beijo grande, Fernando, e obrigadão pela companhia e pela conversa sempre bacana e inteligente! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/03/2011 @ 09:08

  3. “A vida deve ser transformada, não transferida.” – Realmente.

    Devo admitir que eu não pensava assim. Mas, se formos parar para pensar, escrever algo é a msm coisa que sonhar. Há qm diga q nossos sonhos se baseiam em nossas experiências emotivas e sensoriais, mas tds nós sabemos q a maioria de nossos sonhos nunca aconteceu conosco na vida real.
    E eu REALMENTE gostaria de ler um livro sobre uma personagem de 30 anos criada por um garoto de 15. Este seria um livro que eu compraria.

    Abs.

    Comentário por Carolina Flor — 21/03/2011 @ 13:10

    • “E eu REALMENTE gostaria de ler um livro sobre uma personagem de 30 anos criada por um garoto de 15.” >> Eu também!!

      Mas quanto a sonhar, já conheci algumas pessoas totalmente incapazes de sonhar acordadas, visualizar algo que não viveram. Não conseguem mesmo! Nem pra imaginar algo que elas querem para o futuro delas, tipo mentalização positiva. Muito estranho! Eu realmente acredito que esta seja uma das maiores qualidades dos escritores, a facilidade de viajar no pensamento.

      Um abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/03/2011 @ 21:55

  4. Valéria, este seu post veio em ótima hora pra mim. Eu estava discutindo isso com uma amiga minha esses dias depois de ela me mostrar um texto dela que se passava nos Estados Unidos quando ela nunca viajou para o exterior. Então eu disse que ela não poderia escrever sobre algo que ela não conhecia. Mas o Fernando apontou uma coisa certa: pesquisa. Mas não pesquisa de Wikipédia, de Google, pesquisa de observar, de entender o universo do outro que nos fascina. O que eu vejo muita gente fazendo (inclusive essa minha amiga) é escrever sobre algo que não conhece, achar que entendeu o suficiente pra escrever sobre isso e o texto fica exatamente como a própria vida, então pode ficar estranho no fim das contas. Eu acho que é por esse jeito exagerado de alguns é que certas pessoas exageram no contraponto. Adorei o post!

    Comentário por Priscila — 21/03/2011 @ 22:10

    • Olá, Priscila!

      Eu não vejo nada de errado de escrever sobre outros países, desde que se faça uma boa pesquisa sobre o lugar, e que não sejamos muito específicos quanto a ruas, bairros etc., pois nem mesmo os americanos fazem isso. Eles filmam “cidades tipicamente americanas” no Canadá! Então isso tem mais a ver com custos de produção e logística de filmagem do que com a nossa visão de onde a história deve se passar. Os americanos também frequentemente fazem cenas, sequências e histórias que se passam em outros países (e duvido que todos os roteiristas viajem para esses lugares antes de escrever). Hoje em dia, com a internet, facilitou pra todo mundo a pesquisa, podemos facilmente encontrar fotos e vídeos dos lugares sobre o qual escrevemos, e muita, muita informação escrita. A poucas décadas atrás, tinha muita barbaridade em filmes americanos, como aquele do Mickey Rourke, Orquídea Selvagem, em que o Rio de Janeiro ficava no meio da Floresta Amazônica. Uma pesquisa séria é mesmo fundamental.

      Mas ainda acho melhor escrevermos sem limitação geográfica, assim nosso roteiro pode ser vendido aqui, nos EUA, na Europa, em qualquer lugar do mundo ele será aceito e apreciado. A universalidade abre mais portas.

      Um abração, Priscila, e obrigada pelo comentário! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 22/03/2011 @ 10:04

  5. Bem não tenho 15 anos, só tenho 13… mas vou escrever sobre um cara de 30…
    Naverdade faz parte de um desafio de criatividade pra mim mesmo… O objetivo é fazer o máximo de histórias que eu conseguir com os mesmos personagens (eles tem os mesmas manias, mesmos gostos, a mesma essência, mas não tem os mesmos detalhes, por exemplo, um é mais romantico outro mais corajoso… Já que eles são as mesmas pessoas mas foram criados por pessoas diferentes em ambientes diferentes sobre condições diferentes, etc…)
    E o meu maior objetivo era escrever sobre coisas que eu nunca escrevi, temas que eu nem gosto… sair da minha zona de conforto… E achei legal saber que eu tô fazendo uma coisa boa… e o mais legal é que lendo os comentários notei que é tudo oq eu vou fazer: um garoto de 13 (quase 15) vai escrever sobre um outro garoto de 13, um de 17, um de dezoito e um de 30… e mesmo eu usando coisas do meu dia a dia (todos são escritores, e algumas outras coisas) estou escrevendo sempre sobre coisas que eu nunca imaginei que iria escrever (ficção cientifica, romance adolescente, fantasia e provavelmente um suspense) Além de que uma das histórias se passa em Los Angeles… E realmente é muito legal fazer pesquisas!
    Vai ser muito divertido escrever essas histórias (vou começar com o romance) mesmo eu estando com uma dificuldade pra escrever acho que estou conseguindo aos poucos e retomando várias histórias que abandonei, o que está sendo muito legal (um exemplo é uma história que fiz na primeira série que foi toda refeita e está bem mais legal) daqui um tempo,espero, que vocês possam ler um livro sobre um cara de 30 anos, não escrito por um garoto de 15, mas por um de 13

    Comentário por Lucas Luciano — 22/03/2011 @ 19:10

    • Oi, Lucas, como vai? =)

      Eu estou esperando pra ler! E sabe de uma coisa? Você pode escrever sobre homens de 30, 40, 60 anos (e mulheres também), não há impedimento algum! Jung acreditava que toda a Humanidade era unida por algo que ele chamou de Inconsciente Coletivo, uma consciência universal que todos nós compartilhamos, um conhecimento que reside escondido no fundo de nossos cérebros, mas de onde ocasionalmente conseguimos pescar algo e expressá-lo em nossas vidas, um conhecimento que não nos aprendemos de forma direta, como indivíduos.

      Biólogos modernos já teorizam que carregamos as experiências de nossos antepassados em nossos DNAs, e estão pesquisando isso. Seria como uma biblioteca gigantesca correndo em nossas veias, mas os livros estão muito bagunçados e conseguimos acessar apenas uns trechinhos aqui e ali. Um famoso biólogo, Rupert Sheldrake, fez pesquisas envolvendo grupos isolados de macacos, cada grupo vivendo numa ilha. Quando um desses grupos aprendia novas formas (e mais eficientes) de abrir cocos ou caçar animais (macacos são carnívoros, quem diria?), os outros grupos, que não podiam ter nenhum contato com o primeiro, pois havia o mar impedindo-os, aprendiam a mesma técnica quase imediatamente! E é muito possível que isto aconteça com todas as espécies de animais, inclusive o Homem. (Existem livros muito interessantes desse autor em português, se quiser saber mais.)

      O que “dispara” o conhecimento adormecido, na maioria das vezes, é a necessidade, e eu acredito que você seja capaz de captar todo o conhecimento que precisa através da pesquisa diligente e da prática regular da escrita. Por isso, você já está indo muito bem recuperando as histórias que você deixou na gaveta. Com a postura mental certa, elas agora vão ganhar o mundo!

      Um beijo grande, Lucas, eu acho fantástico você ter todo esse talento e motivação tão cedo, isso é verdadeiramente admirável! Estou torcendo muito por você! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 23/03/2011 @ 09:05


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