Dicas de Roteiro

12/01/2011

As 15 Regras de Ouro de Danny Boyle

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 12:04
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Aqui vai mais um texto sobre direção. Este artigo também foi tirado da revista Movie Maker (outubro/2010), e escrito por Ryan Stewart.

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O diretor vencedor do Oscar por Quem Quer Ser Um Milionário? retorna com 127 Horas

Danny Boyle dirigiu filmes de sucesso de uma ampla variedade de gêneros, da saga de prevenção contra as drogas Trainspotting – Sem Limites (1996) ao terror esmagador de Extermínio (2002), do filme-família Caiu do Céu (2004) ao drama inspirador de Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), que ganhou um total de oito Oscars, incluindo o de Melhor Diretor para Boyle, e o de Melhor Filme. O seu último filme, um forte drama sobre uma provação que muda a vida de um homem no deserto intitulado 127 Horas, estreou nos cinemas por cortesia da Fox Searchlight, em novembro/2010.

1. UM DIRETOR DEVE SER UMA PESSOA SOCIÁVEL. • Noventa e cinco por cento do seu trabalho é lidar com pessoal. Pessoas que nunca fizeram isso imaginam que seja alguma performance, como pintar um Picasso a partir de uma tela em branco, mas não é assim. Dirigir é sobretudo lidar com os egos, vulnerabilidades e humores das pessoas. É apenas tentar fazer todos ficarem animados no momento certo. Você tem que certificar-se de que todo mundo esteja no mesmo filme. Isto parece estupidamente simples, tipo: “É claro que eles estão no mesmo filme!” Mas o tempo todo vemos longas onde as pessoas claramente não estão no mesmo filme juntas.

2. CONTRATE PESSOAS TALENTOSAS. • O seu principal trabalho como diretor é contratar pessoas talentosas e acertar o espaço para que elas possam trabalhar. Eu tenho muito respeito pelos atores quando eles estão atuando, e espero que as pessoas se comportem. Eu não quero ver as pessoas lendo jornais por trás da câmera ou sussurrando ou qualquer coisa assim.

3. APRENDA A CONFIAR NOS SEUS INSTINTOS. • O ideal é criar o filme à medida em que você avança. Não quero dizer que você seja irresponsável e que, literalmente, não tenha nenhuma idéia, mas o ideal é que você tenha coberto tudo, cada ângulo, de modo que esteja livre para fazer de qualquer uma dessas formas. Mesmo em filmes de baixo orçamento, você tem responsabilidades financeiras. Se você ferrar com isso, ainda pode retroceder para uma dessas maneiras de fazê-lo. Você tem um plano A para o qual voltar, apesar de que você deve sempre fazê-lo com o plano B, se puder. Dessa forma fica estimulante para os atores, e para você.

4. O CINEMA ACONTECE NO MOMENTO. • O que é extraordinário em relação ao cinema é que você o faz no dia, e depois ele é daquele jeito para sempre. Naquele dia, o ator pode ter terminado com sua esposa na noite anterior, então ele, inevitavelmente, vai ler a cena de um modo diferente. Ele vai ser uma pessoa diferente.
Eu venho do teatro, que é vivo e muda a cada noite. Eu pensei que o cinema ia ser o oposto disso, mas não é. Ele muda a cada vez que você o assiste: Públicos diferentes, lugares diferentes, humores diferentes nos quais você está. A coisa é logicamente fixa, mas ainda muda o tempo todo. Você tem que entender isso, por mais difícil que seja.

5. SE O SEU ÚLTIMO FILME FOI UM SUCESSO ESMAGADOR, NÃO ENTRE EM PÂNICO. • Eu tinha uma obsessão com a história de “127 Horas”, que precedia “Quem Quer Ser Um Milionário?”. Mas eu sei (porque não sou um idiota) que a única razão pela qual [o estúdio] nos permitiu fazê-lo foi porque “Quem Quer Ser…” fez baldes de dinheiro para eles e eles sentiram uma espécie de obrigação. Não uma obrigação de me deixar fazer o que eu quisesse, mas você meio que ganha uma volta grátis no carrossel.

6. NÃO TENHA MEDO DE CONTAR HISTÓRIAS SOBRE OUTRAS CULTURAS. • Você não pode simplesmente seqüestrar uma cultura para a sua história, mas você pode se beneficiar dela. Se você entrar nisso com a atitude certa, você pode aprender muito sobre si mesmo, bem como sobre o potencial do cinema em outras culturas, que é algo que tentamos fazer com “Quem Quer Ser Um Milionário?”… A maioria dos filmes ainda é feita nos Estados Unidos, sobre americanos, e tudo bem. Mas as coisas estão mudando e eu acho que “Quem Quer Ser Um Milionário?” foi uma prova disso. Haverá mais provas conforme vamos em frente.

7. USE O SEU PODER PARA O BEM. • Você tem tanto poder como diretor que, se você for de algum modo bom nisso, deve ser capaz de usar isso para o benefício de todos. Você tem tanto poder para moldar o filme do jeito que você quer que, se você estiver em forma e tiver feito a sua preparação direito e estiver pronto, você deve ser capaz de fazer disso um emprego decente junto com as outras pessoas.

8. NÃO TENHA UM EGO. • O seu processo de trabalho – a maneira como você trata as pessoas, a sua crença nas pessoas – acabará por se refletir no produto em si. Os meios de produção são simplesmente tão importantes quanto o que você produz. Nem todo mundo acredita nisso, mas eu acredito. Eu não vou tolerar alguém ser maltratado por ninguém. Eu não gosto de ninguém gritando ou abusando das pessoas ou qualquer coisa assim. Às vezes você vê pessoas que estão esperando que você seja assim, porque tiveram uma experiência como essa no passado, mas eu não acredito nisso. A textura de um filme é muito afetada pela honra com a qual você o faz.

9. FAÇA O PROCESSO DAS EXIBIÇÕES-TESTE TRABALHAR PARA VOCÊ. • Exibições-teste são dureza. Elas o deixam nervoso, expondo o filme, mas são muito importantes e eu tenho aprendido muito ao usá-las. Não tanto de todo o processo de cartões e discussões posteriores, mas a experiência ao vivo de sentar em um auditório com uma platéia que não sabe muito sobre a história que você vai contar a eles – eu acho isso tão valioso. Eu aprendi não tanto a gostar disso, mas a estimar o quanto é importante. Eu acho que você tem que fazer isso, realmente.

10. VÁ PARA O SET DE FILMAGENS COM UM LIVRO DE ILUSTRAÇÕES. • Eu sempre tenho uma bíblia de fotografias, imagens com as quais eu ilustro um filme. Eu não quero dizer storyboards estritos, só quero dizer inspiração para as cenas, para as imagens, para as idéias, para os personagens, para os figurinos, e até mesmo para os adereços. Estas imagens podem vir de qualquer lugar. Elas podem vir de lugares óbvios, como grandes fotógrafos, ou podem vir de anúncios de revista – de qualquer lugar, realmente. Eu as compilo em um livro e sempre o tenho comigo, e o mostro aos atores, à equipe, a todo mundo!

11. MESMO FÓRMULAS PERFEITAS NÃO FUNCIONAM SEMPRE. • Como diretor, o seu trabalho é encontrar a emoção do filme através dos atores, que está em parte relacionada com o talento deles, e em parte com seu carisma. Carisma é um tanto indefinível, graças a Deus, ou então seria prescrito do mesmo jeito que quimicamente se faz um analgésico novo. Nos filmes – e isso causa um monte de tragédia e dor de cabeça – às vezes você pode ter a fórmula mais perfeita e ainda assim eles não funcionam. Essa é uma realidade da qual todos nós somos vítimas às vezes, e da qual nos beneficiamos em outras. Mas se você seguir os seus próprios instintos e der um salto de fé, então pode pelo menos estar orgulhoso da maneira que você fez isso.

12. TIRE INSPIRAÇÃO DE ONDE VOCÊ A ENCONTRAR. • Quando estávamos promovendo “Quem Quer Ser Um Milionário?”, estávamos meio que lado a lado com Darren Aronofsky, que também estava com a Fox Searchlight e estava promovendo “O Lutador”. Eu assisti e foi muito interessante; Darren apenas decidiu que ia seguir esse ator por aí, e foi maravilhoso. Eu pensei: “Eu quero fazer um filme assim. Eu quero ver se consigo fazer um filme assim.” É um filme sobre um ator. É sobre a natureza, por vezes, monolítica, do cinema, sabe? É sobre uma performance dominante.

13. EMPURRE O CARRINHO. • Eu acho que você deve sempre tentar empurrar as coisas até o mais longe que puder, de verdade. Eu chamo isso de "empurrar o carrinho". Sabe, tipo aquele carrinho de bebê que você empurra na rua? Eu acho que você deve sempre empurrar o carrinho até a borda do penhasco – é para isso que as pessoas vão ao cinema. Isso poderia se aplicar a uma comédia romântica; você empurra alguma coisa até o máximo que ela se esticar. Eu acho que esse é um dos seus deveres como diretor… Seu único arrependimento só vai ser o de não fazer isso, de não tê-lo empurrado. Se fizer bem o seu trabalho, você vai se surpreender com o quão longe o público vai com você. Eles vão percorrer um longo, longo caminho – eles já percorreram um longo caminho só para ver o seu filme!

14. SEMPRE DÊ 100 POR CENTO. • Você deveria estar trabalhando em seu máximo absoluto, o tempo todo. Se você vai ser creditado com algo no final, isso realmente não importa. Concentre-se em empurrar-se o tanto que puder. Eu costumo não escrever, mas adoro discutir ideias de escrita; eu adoro que os escritores escrevam para depois eu discutir ideias a partir daquilo. Eu discuto ideias com os escritores da mesma maneira que eu discuto com os atores.

15. ENCONTRE O SEU PRÓPRIO "ESCO". • Uma lição que eu aprendi com Por Uma Vida Menos Ordinária foi quanto à mudança de tom – eu não estou certo de que se possa fazer isso. Nós mudamos o tom para um tipo de tom Capra-esco, e sempre que fizer algo mais "esco", você estará em apuros. Essa seria uma das minhas regras: Nada de "escos". Não tente tornar nada Coenesco ou Capraesco ou Tarkovskyesco, porque você apenas se envolverá em um monte de problemas. Você tem que encontrar o seu próprio "esco" e então permanecer com ele.

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A última frase da regra número 8 me tocou fundo. Esse cara ganhou o meu profundo respeito! bravo

Boa escrita (e boa filmagem) pra você hoje! 😀

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8 Comentários

  1. Esse é o mesmo diretor que prometeu mundos e fundos aos atores pobres e só cumpriu a palavra depois de uma grande pressão internacional?

    Comentário por Edson Cunha — 15/01/2011 @ 13:11

    • Oi, Edson! 😀

      Ih, agora você me pegou, eu não sabia disso! O discurso dele é ótimo, mas parece que na prática são outros quinhentos. Quando entra $$$ na equação todas as boas intenções ficam só nisso: em boas intenções, e olhe lá! É, tenho que aprender que tem muita gente “garganta” nesse mundo, não podemos acreditar em tudo o que dizem. Mas que a frase é linda, isso é! :mrgreen: Pelo menos fica como inspiração para NÓS agirmos com ética, em NOSSOS filmes, não é mesmo?

      Um beijo grande, Edson, obrigada pelo toque, e volte sempre! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/01/2011 @ 14:08

  2. Oi Valéria.
    Será que aprender a dirigir para escritores de séries assim como eu é bom ? (Acho que a pergunta é meio obvia, mais tenho dúvidas).
    E, estou ancioso para o texto ‘Como formatar os roteiros de TV”.

    Um abração e um bom final de semana.
    Igor.

    Comentário por Igor — 15/01/2011 @ 13:26

    • Oi, Igor! 😀

      Eu não esqueci do texto de formatação para a TV, não, estou traduzindo-o devagar, com carinho (eu lembro sempre de você, por que será? :mrgreen: ), eu só atrasei porque tenho estado meio atarefada nas últimas semanas, mas nesta semana as coisas serão mais calmas, então acho que vai dar para terminá-lo.

      Eu só não entendi bem a sua pergunta, você quer dirigir seriados (com roteiros de outros) ou quer aprender a dirigir séries que você vai escrever? Bom, seja um ou outro, eu acho que se você sente atração por direção (que eu acho o máximo, por sinal, é uma carreira super emocionante, nenhum dia é igual ao outro, tipo, “Xô, rotina!”), então não há nenhum motivo que lhe impeça de segui-la. Tem tanto roteirista que virou diretor, e vice-versa, por aí, que acho até uma vantagem você conseguir dirigir seus próprios textos (ou o de outros). E, considerando que a indústria televisiva brasileira tem muito mais cacife do que a indústria cinematográfica nacional, então é uma boa tentar entrar nesse ramo.

      Um abração, Igor, um ótimo final de semana pra você também, e me diga caso eu não tenha respondido a sua pergunta direito!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/01/2011 @ 14:21

  3. […] This post was mentioned on Twitter by André Farias. André Farias said: RT @DicasDeRoteiro: As 15 Regras de Ouro de Danny Boyle: http://wp.me/pJ8ar-12O […]

    Pingback por Tweets that mention As 15 Regras de Ouro de Danny Boyle « Dicas de Roteiro -- Topsy.com — 15/01/2011 @ 13:30

  4. Essas regras só tendem a nos acrescentar, principalmente a de nº 1 e 8. Um sincero soco no estômago. 😉

    Ótimo artigo!

    Beijos! S2

    Comentário por Marcia F. — 15/01/2011 @ 17:11

  5. Olá Valéria, sou eu de novo! hihihi 😉
    Tenho uma breve dúvida quanto a descrição de personagens no roteiro. É correto/necessário fazer uma descrição física do personagem quando se está escrevendo o roteiro? Por exemplo: DALVA uma senhora de 74 anos visíveis por seus cabelos alvos, esta sentada em seu sofá vendo televisão.

    Agradecida pela resposta e no aguardo da mesma!
    Beijos!
    ;P

    Comentário por Marcia F. — 16/01/2011 @ 03:10

    • Oi, Marcia!! 😀 😀

      Você tem toda razão, lidar com o ego das pessoas é a parte mais difícil de ser diretor. Principalmente porque a gente tem que controlar nosso próprio ego sem perder a autoridade, o que é algo como andar no fio da navalha! Eu me lembro de uma entrevista do diretor Buza Ferraz, comentando sobre o filme For All – O Trampolim da Vitória, que ele co-dirigiu com o “Bigode” (apelido do diretor Luiz Carlos Lacerda). Ele disse que, quando era vez do Bigode dirigir, ficava todo mundo conversando, na maior confusão, e o cara ficava falando baixinho, na voz mansa dele: “Gente, vamos filmar?” E o pessoal nem ouvia. “Gente, vamos filmar agora?” E nada, a balbúrdia continuava. Isso continuava por horas! Só quando o Buza chegava e mandava todo mundo pros seus lugares com a voz alta e firme é que o pessoal se mancava! Imagina, cada hora de um dia de filmagem é preciosíssima, temos que aproveitar o sol, diminuir os custos do aluguel do estúdio, equipamentos, comida, pessoal, e o pessoal na moleza achando que aquilo era colônia de férias remunerada?! Ser firme sem ser chato é um desafio imenso, e eu admiro muito quem consegue encontrar esse equilíbrio.

      Quanto à sua descrição de personagem, não há absolutamente nada de errado com ela, mas lembre-se sempre de que é bom citar as características que sejam mais importantes para a história e para definir o personagem. Eu tento sempre ser o mais breve possível, ou procuro explicar o por quê daquela característica física. Usando o seu exemplo: DALVA, 74 anos, cabelos alvos… Ou ainda: DALVA, 74 anos, cabelos alvos e pouco vaidosa com sua figura… Ou: DALVA, 74 anos, mulher de expressão sofrida, cabelos alvos e o rosto muito marcado de rugas…

      Qualquer coisa que vá enriquecer o personagem sem tornar o roteiro muito arrastado é válido. O importante é dar subsídios aos leitores, atores, diretor, maquiador etc., enfim, a todos os que têm de trazer à vida o personagem, para que eles possam compreender o melhor possível quem é aquela pessoa que está vivendo a história, mas sempre lembrando de tomar o cuidado de deixar espaço para que eles também possam dar suas contribuições.

      Obrigadão pela mensagem, Marcia, um beijo grande e uma ótima semana pra você, com ótimas escritas! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 16/01/2011 @ 11:00


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