Dicas de Roteiro

08/01/2011

Mitos e Embustes de Hollywood: Contatos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:58
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Olá, eu achei que o texto de hoje seria um bom contraponto aos inúmeros artigos que dizem que contato é tudo nessa indústria. Este artigo de hoje foi tirado do site Filmmaker IQ, mas foi originalmente postado no site Writers Store, só que não está mais lá. O texto é do romancista, roteirista, professor universitário, guru e autor de livros de roteirismo, Richard Walter.

 Networking

Você já ouviu isso um zilhão de vezes: não é o que você sabe, mas quem você conhece.

Talento não significa nada, um roteiro se parece muito com outro. Não tem toneladas de péssimos roteiros sendo produzidos? Todos nós já vimos filmes que eram piores do que um ou outro dos nossos próprios roteiros não-vendidos. Como pode ser que um roteiro ruim consegue ser rodado e o meu trabalho superior continua na prateleira? Obviamente, a explicação só pode ser que o que conta em Hollywood não é a qualidade da escrita, mas ir às festas certas, puxar um papo agradável com as pessoas certas, fazer as conexões certas.

Na verdade, isto é o oposto da verdade. Eu conheço pessoalmente todos os tipos de escritores bem conectados que não conseguem vender um roteiro. No campus da UCLA, em nosso programa de pós-graduação de roteiro, por outro lado, vejo novos escritores entrarem no ramo a cada temporada. A verdade sobre Hollywood, por mais difícil que possa ser para os céticos reconhecerem, é que é uma meritocracia. Os recém-chegados têm êxito com base no valor dos roteiros que eles escrevem.

Eu moderei uma mesa-redonda de roteirismo anos atrás em Maui (eu sou um cara de sorte ou o quê?), no qual os roteiristas figurões discutiram questões relativas à escrita. Os conferencistas foram Carrie Fisher (além de sua carreira como atriz, ela também fez considerável sucesso como escritora), Steven de Souza, James L. Brooks, Ron Bass, e Nick Kazan. Eu observei que, antes do sucesso deles, apenas um desses escritores tinha conexões. Essa seria, evidentemente, a Carrie, que disse à multidão que suas conexões impediram seu progresso por anos, na verdade militaram contra o seu sucesso; serviram, não de apoio, mas como obstáculos a serem superados. Todos os outros conseguiram o que conseguiram começando do zero.

Se a sua carreira de escritor no momento patinha na largada, então você está em boa companhia.

Todo escritor de sucesso, sem exceção, não importa o quão adorado, rico, invejado, elogiado e realizado, já foi um dia tão desconhecido quanto você.

Os cínicos adoram citar a frase atemporal de Dorothy Parker: "Hollywood é o único lugar da Terra onde você pode morrer de encorajamento."

A minha resposta aparece no meu romance de 1999, Escape From Film School: "Hollywood é o único lugar da Terra onde você começa no topo e trabalha para abrir seu caminho para baixo."

O seu melhor crédito é não ter créditos. Exatamente como os filmes romantizam e idealizam a condição humana, assim também acontece com a indústria do cinema. Os produtores podem projetar sobre uma tela em branco a visão romantizada e idealizada que procuram. Eles não podem fazer isso com um escritor que tem acordos de desenvolvimento que não se desenvolveram, filmes que foram feitos mas nunca vieram a ser distribuídos, ou filmes que foram distribuídos mas acabaram fracassando nas bilheterias. Este é o único negócio que eu conheço onde a inexperiência triunfa sobre a experiência.

Na primeira reunião do meu workshop regular de roteiro da UCLA, no qual cada estudante tem dez semanas para escrever um roteiro de longa-metragem, eu me gabo para os participantes, de todos os filmes, para não mencionar franquias cinematográficas, que surgiram a partir de roteiros escritos neste mesmíssimo curso. Perdoe-me por vangloriar-me, mas a culpa é dos escritores, por me darem tanto do que me gabar.

Após essa orgia de vanglória, eu advirto os escritores: "Por favor, não tentem vender o roteiro que vocês escrevem neste curso." Eu acompanho isto com o que alguns chamam de minha característica pausa longa.

Não é uma contradição? Eu me gabo do Highlander e do Backdraft – Cortina de Fogo e do Ace Ventura e mais, projetos que cresceram de tarefas em minhas próprias aulas e nas de outros instrutores, e em seguida instruo os escritores a não tentarem vender o trabalho que eles escrevem no curso.

Não existe, de fato, nenhuma contradição aí. Eu não digo aos escritores para não venderem seu trabalho. Digo-lhes para não TENTAREM vender seu trabalho. Na verdade, eu espero e rezo com fervor para que eles vendam o seu trabalho. Se o fizerem, eu vou adicioná-lo à lista de projetos dos quais me gabarei nos futuros cursos.

Há uma frase Zen sobre arqueiros: Você não pode acertar um alvo mirando nele.

Para vender um roteiro que você tem que esquecer totalmente da venda e simplesmente mergulhar de cabeça no processo. Você tem que fazer todas aquelas coisas da Califórnia: Seguir a sua felicidade, ir com o fluxo. Eu nunca conheci um escritor que não tenha se surpreendido com uma reviravolta ou virada na história, uma fala de diálogo falada por um personagem que surgiu totalmente de surpresa.

A vida não é assim? O escritor/diretor tardio formado na faculdade de cinema da UCLA, Colin Higgins (O Expresso de Chicago e Golpe Sujo, entre outros) me disse anos atrás que, quando ele ainda era um estudante de cinema, ele rezou para ganhar o primeiro prêmio na competição Goldwyn, que teria dado dinheiro suficiente para ele não fazer nada além de escrever por um ano. Ele não teria que sofrer a distração de um emprego diário. Infelizmente, ele ganhou apenas o segundo prêmio, o que lhe exigiu procurar um trabalho de meio-período. Ele escolheu o trabalho perfeito para um escritor ou ator: trabalhar para uma empresa de limpeza de piscina.

Na primeira casa cuja piscina ele limpou, uma casa luxuosa nas planícies de Beverly Hills, ele percebeu um homem sentado na extremidade da piscina debaixo de um guarda-sol, lendo um roteiro. Claramente, este era o dono da casa. Assim como, claramente, ele era um produtor de cinema. Na verdade, este bairro nitidamente transbordava de produtores. Colin começou a conversar com ele. Disse-lhe que ele mesmo era um roteirista, e convenceu-o a ler o seu roteiro que ganhou o segundo lugar do concurso Goldwyn. O produtor acabou fazendo o filme. Isso estabeleceu a impressionante e produtiva carreira de Colin.

Algumas pessoas vão protestar: "Mas esse não é apenas mais um exemplo de contatos, de encontrar as pessoas certas?" Elas se concentram no encontro e ignoram o fato de que o roteiro acontecia de ser o Ensina-me a Viver. Se Colin tivesse dado ao produtor um roteiro sem valor, não estaríamos contando esta história.

"Pense bem, Richie", Colin me disse. "Se o meu sonho tivesse se tornado realidade, se eu tivesse ganho o primeiro prêmio, eu estaria limpando piscinas hoje."

A lição: esteja aberto às surpresas. Isto é verdade não apenas em relação às surpresas no seu roteiro, mas também na narrativa de sua vida.

Não é quem você conhece, ou sequer o que você sabe.

No final das contas, é o que você escreve.

richard-walter

Boa escrita pra você hoje! 😀

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