Dicas de Roteiro

06/01/2011

Não Deste Mundo!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:25
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O artigo de hoje é do roteirista William C. Martell e tirado do ótimo site dele, Script Secrets:

Fat Girl

Como roteiristas, somos os criadores de mundos. Começamos com uma página em branco, e usando apenas a nossa imaginação e 26 letras em várias combinações, acabamos com um mundo e personagens nos quais o público acredita por duas horas. Nas primeiras 30 páginas ou mais (Ato Um, se você é um fã de Aristóteles) estabelecemos as regras do nosso mundo. Nós definimos o tom da história, decidimos o nível de "realismo", apresentamos os personagens importantes, apresentamos o conflito central, decidimos as locações básicas, dizemos ao público qual será o gênero, e estabelecemos quaisquer outras informações que serão importantes durante os restantes dois terços a três quartos do roteiro. Nós criamos o nosso mundo…

Mas então temos de viver nele. Uma vez que o mundo é criado, ele é "real", e o resto do nosso roteiro deve se passar dentro da realidade que nós estabelecemos. O que é verdadeiro na página 30, é também verdade na página 70. Se nos encurralamos em um canto na página 53, não podemos fazer o mundo que criamos mudar de repente, a fim de resolver o problema… devemos encontrar uma solução dentro desse mundo que criamos. Se o seu herói está desarmado e acuado pelo vilão, você não pode simplesmente fazer uma arma se materializar na mão dele por mágica (a menos que você tenha estabelecido anteriormente que o seu herói é um bruxo-policial). Este não pode ser o único dia em que o seu herói decidiu usar seu colete à prova de bala – ou ele o usa o tempo todo, ou não. Seu herói não pode de repente tornar-se o Super-Homem, ou desmaterializar-se, ou ter uma arma secreta escondida a qual ele pareceu esquecer durante uma cena de luta de 10 páginas, mas de repente lembra-se agora que está encurralado e prestes a morrer. Você tem que usar o que você havia previamente estabelecido.

BEM-VINDO AO MUNDO REAL

Mas o que É "realidade"? Digamos que você tem um triângulo amoroso – a sua protagonista tem de decidir entre um homem rico e bonito, mas nada romântico, e um cara feio e sem grana que é o maior dos românticos. Ela passa o roteiro todo tentando decidir qual o homem que ela mais gosta – e finalmente se decide pelo cara rico e bonito… mas não consegue se forçar a contar para o cara feio e pobre que eles não têm futuro juntos. Então, na página 87, um antigo satélite Telstar da década de 1960 cai fora de órbita e mata o cara feio enquanto ele espera para atravessar a rua. Problema resolvido!

Satélite Telstar

Você pode argumentar que realmente existem satélites Telstar, e eles realmente caem fora de órbita de vez em quando, e se um caísse em uma área povoada, poderia matar alguém. Portanto, esta é uma forma legítima de resolver o seu problema, certo? Errado. Isso não faz parte da "realidade" que você criou para este roteiro em particular.

Contudo, você não precisa apresentar todos os mínimos detalhes do "seu mundo" nas primeiras 30 páginas – os seus personagens podem subir em um avião na página 67, mas isso não significa que você precise mostrar um avião nas primeiras 30 páginas ou explicar a teoria de vôo. Mas qualquer coisa incomum que DE FATO tenha um impacto direto sobre a história precisa ser estabelecida nas primeiras 30 páginas. Ser morto por um satélite que cai fora da órbita é incomum… e não é realmente parte do mundo que você criou nesta história de triângulo amoroso.

A primeira vez eu estive no júri do Festival de Cinema Raindance em Londres, lá em 2002, um dos filmes em competição foi À MA SOEUR! (THE FAT GIRL / PARA MINHA IRMÃ), escrito e dirigido por Catherine Breillat. É a cândida história de ciúmes e amizade entre irmãs, entre uma linda garota de 15 anos e sua irmã rechonchuda de 13 anos de idade. Elas falam de amor e sexo enquanto passam férias com sua mãe em um resort de praia. A jovem de 15 anos conhece um atraente homem italiano de 20 e poucos anos, que a seduz em uma das cenas mais realistas já levadas ao cinema. Depois de 90 minutos das duas garotas adolescentes falando sobre garotos, há um final súbito e chocante… que surge completamente do nada! Um personagem é introduzido nos últimos três minutos e tem impacto direto na história – um personagem que não se encaixa nesta história ou gênero de jeito algum! É quase como se Breillat não soubesse como terminar esta delicada história, de maneira que ela jogou este chocante final violento de alguma outra história – de algum outro mundo. Está completamente fora de lugar – e uma desculpa para não enfrentar a dificuldade! Em vez de encontrar uma solução dentro do mundo que ela criou, ela achou uma saída fácil. Um final que não se encaixa na história que vem antes dele.

Ao criar o mundo de sua história, você precisa encontrar soluções para os conflitos dentro dos limites das realidades desse mundo. Inventar alguma coisa no final que convenientemente resolva o problema (mas que não foi estabelecido antes e não é uma parte orgânica do mundo que você criou) é simplesmente escrita preguiçosa. Finais Deus Ex Machina (ou mesmo finais Assassinos do Machado Ex Machina) é escrita ruim, seja você uma famosa escritora-diretora francesa ou um roteirista novato de Canton, Ohio. Você cria as "regras" do seu mundo – você tem que viver com elas!

Mundo

Boa escrita pra você hoje! 😀

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4 Comentários

  1. Uma dica ótima (e de uma coisa óbvia) que às vezes não é levada em consideração.
    Acho que, na mudança que farei em meu primeiro livro, não farei o personagem principal ganhar um superpoder que aniquila o rival na luta final. Porque foi isso que fiz na primeira versão…
    😯

    Comentário por Milton G. Machado — 11/01/2011 @ 23:50

    • Oi, Milton! 😀

      Eu também frequentemente reconheço, através desses artigos, erros que estou cometendo nos meus roteiros (aliás, foi por isso que comecei a estudar esses textos). Eu achava que nunca ia acertar, já que eu sempre tava encontrando novos erros, mas com o tempo a gente pega a manha e vai sentindo que a coisa tá ficando legal, o que dá até um friozinho na barriga e uma palpitaçãozinha legal no coração! 😆 Acho que é isso o que chamam de “barato” de escrever! :mrgreen: Eu recomendo! 😆

      Um beijo grande, Milton, e obrigadão pela visita! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 12/01/2011 @ 10:27

  2. Muito bom esse texto, e principalmente o site, parabens! Ah! Eu sinto esse mesmo frio n barriga sempre que reviso meus textos depois que aprendo algo novo tambem! E e mesmo um barato se ver evoluindo, mesmo que lentamente, e so tenho a agradecer a voces que contribuem com isso, obrigado!

    Comentário por vinicius — 15/01/2011 @ 14:21

    • Olá, Vinicius! 😀

      Obrigadão pela força, fico super feliz que você esteja gostando do blog, e que ele esteja de fato contribuindo para a sua escrita! Isso é o que me motiva a melhorar também! 😀

      E agora você está de prova que essas sensações são comuns a todos nós, escritores, os sintomas são os mesmos! :mrgreen:

      Obrigada pela mensagem e pela visita, Vinicius, um ótimo fim de semana, e que você ainda tenha muitos frios na barriga gostosos pra contar (provocados tanto pela escrita como pela vida)! Que é isso que nos dá alegria de viver, não é mesmo?
      Um beijão,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/01/2011 @ 14:33


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