Dicas de Roteiro

02/01/2011

Escrevendo Para Editar

Filed under: Edição,Roteiro — valeriaolivetti @ 13:00
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Olá! O artigo de hoje foi escrito pelo editor, professor de edição e autor Chandler Gael, e tirado do site Writers Store:

películas

"A verdade humilhante é que o filme é feito na sala de edição."
-David Mamet apresentando os indicados para o prêmio de Melhor Edição durante a cerimônia do Oscar de 2002

Os editores são freqüentemente chamados de os últimos re-escritores do programa. Outra maneira de colocar isto é que o editor é o arquiteto do programa. A nossa planta é o roteiro (ou o argumento, em um programa de não-ficção). Os nossos materiais de construção são as imagens filmadas: tomadas de longa distância, tomadas de plano geral, planos médios, closes, câmera no ombro, inserções, tomadas inclinadas, inversões, tomadas-sequência e tomadas duplas. A partir dessas nós projetamos o programa com som, diálogos, música e a colocação e duração das tomadas. Assim como uma ponte transporta viajantes de uma margem à outra com um bom projeto e construção, do mesmo modo a edição transporta os espectadores do início do programa para o final, dando-lhes o que eles precisam ver, ouvir e experimentar ao longo do caminho para chegarem lá.

Truísmo: Há o filme que é escrito, o filme que é rodado e o programa que é editado.

Então, por que não escrever para a edição?

Como eu faço isto, você pergunta. Aqui estão algumas sugestões:

Escreva visualmente

Editores escrevem não com palavras, mas com imagens e som. Por isso, rode mentalmente o seu roteiro em sua cabeça. Isso também irá ajudar a vender o seu roteiro e a guiar o diretor a filmá-lo.

Certifique-se de que a sua história seja forte e clara

Eu me lembro de trabalhar em um MOW [Movie of the Week = Filme da Semana; é um filme produzido pela própria emissora de TV, baseado em seu gênero principal. A SyFy produz MOWs de ficção científica, por exemplo] onde o editor principal e eu pegamos o projeto, mas achamos a história obscura do modo como estava escrita. O produtor e bem-conhecido diretor adorou o roteiro e a história, e estava admirado com toda a pesquisa que o escritor tinha feito sobre o assunto. Durante a filmagem, eles perceberam que a história não fazia sentido nem recompensava. Eles chamaram o escritor, pedindo algumas reescritas. O escritor sentiu-se insultado. As chamadas tornaram-se cada vez mais improdutivas e antagônicas. Durante a pós-produção, o escritor amou o programa do jeito que estava filmado e editado, mas ele não fazia sentido para mais ninguém. Algumas narrações em OFF foram adicionadas, houve exibições-teste extras para o público, e a edição durou mais duas semanas, mas o filme não foi salvo. E o escritor substituiu o seu verdadeiro nome nos créditos por um conhecido pseudônimo.

Entenda o ritmo de sua história e de suas cenas

"A edição não é tanto um juntar de partes quanto é a descoberta de um caminho."
-Walter Murch, A.C.E., Oscar de Melhor Edição de Som e Imagem por O Paciente Inglês.

Assim como você desenvolve um ritmo ao escrever diálogos e outras cenas, do mesmo modo um editor desenvolve um ritmo quando corta. A editora do Quentin Tarantino, Sally Menke, disse na edição atual da Editor’s Guild Magazine: "Eu realmente sinto que há um ritmo interno em cada pessoa que é refletido em sua obra. De alguma forma, uma pintura se parece com seu pintor. Existe uma resposta inata para as imagens filmadas que eu sinto que é muito minha".

Pergunte a si mesmo:

* Que ritmo a sua cena teria se nela fosse colocada música? Ter um senso disso vai lhe ajudar a entender os acordes, trinados, árias e dissonâncias do seu filme e suas muitas cenas. E em muitas cenas serão postas músicas durante a pós-produção.

* Se eles fossem um instrumento ou uma obra musical, o que cada personagem principal seria? Intuir isso vai lhe ajudar a entender melhor os ritmos internos dos seus personagens e como eles se flexionam – ou não – ao reagirem às situações e aos outros personagens.

Faça as suas transições claras e estimulantes

Toda vez que o seu filme corta de uma cena para outra, imagine como vai ficar. Não deixe isso para o diretor ou editor descobrir – dirija todo mundo com a sua escrita. Você não tem que imaginar todas as transições, apenas as principais. Bons exemplos: Julie & Julia fez um trabalho interessante com as transições entre as histórias das duas mulheres, assim como Cinema Paradiso fez ao mover-se para frente e para trás do personagem principal como um menino e como um homem adulto.

Faça os pensamentos, sonhos e psiques dos seus personagens acessíveis

"Editar é a coisa mais próxima de pensar."
-VI Pudovkin

Você é o pensador original do programa. Os seus pensamentos e palavras são transformados em sons e imagens. A partir dessas imagens e sons o editor cria um filme que coloca o público em suas cenas e nas cabeças dos seus personagens. Certifique-se de que o seu pensamento seja sólido como rocha e de que soará verdadeiro para o seu público. Você quer que eles vivam as situações nas cabeças dos seus personagens enquanto estão assistindo ao filme, assim como as situações e os personagens viveram dentro de você quando você os criou.

Exercícios

Para entender melhor a edição, coloque um DVD de um grande filme contemporâneo.

1) DESLIGUE O SOM e assista algumas cenas – a ação, os diálogos e a montagem. Você pode querer assistir as cenas várias vezes.

* Observe cada vez que o filme é cortado.
* Observe o ritmo diferente de cada cena.

2) DESLIGUE A IMAGEM e ouça as mesmas cenas.

* Ouça os diferentes tipos de sons: os diálogos, os efeitos sonoros, a sonoplastia, a música.
* Observe o ritmo diferente de cada cena.

wave-chaise-lounger-001  wave-chaise-lounger

Se é para estudar assistindo DVDs, por que não em grande estilo com esta espreguiçadeira modernérrima?! 😀 Pra pedir de presente no próximo aniversário! :mrgreen:

Boa escrita pra você hoje!

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4 Comentários

  1. MUITO LEGAL, E GOSTEI MAIS AINDA DA ESPREGUIÇADEIRA, ONDE EU ACHO UMA PRA COMPRAR? RSRS

    Comentário por LUIZ FERNANDO BOARETO — 02/01/2011 @ 17:24

    • Olá, Luiz Fernando! 😀

      Que bom que você gostou! A espreguiçadeira é genial, né? Pela que ela seja apenas um protótipo, não está à venda ainda, mas nos sites que eu vi, os americanos também estão doidinhos para comprá-la! O curioso é que ela foi projetada por uma designer brasileira, Roberta Rammê! Bacana, não?

      Para quem quiser saber mais sobre esta maravilhosa obra de arte do mobiliário high-tech, aqui vão dois links:
      http://design.spotcoolstuff.com/furniture/multimedia-wave-chaise-lounge
      http://www.gadget4boys.com/index.php?page=post&id=145

      Ah, e eu adorei o seu blog, Fernando, já coloquei nos meus favoritos aqui do lado! :mrgreen:
      Um abração, um ótimo 2011 pra você, e obrigada pela mensagem! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/01/2011 @ 07:49

  2. Olá! Eu li esse post – na verdade, tenho lido todos os posts! =D – e quero fazer algumas perguntas. Eu tenho 18 anos e sempre tive muitas ideias e até comecei muitos roteiros, mas nunca continuei com eles, pois não via norte ou propósito. Ainda bem que esse blog existe e está me dando muiiiitas orientações. Primeira pergunta: escrever para editar é dar direções mais claras sobre as cenas, certo? Mas, quando eu vou escrever eu devo colocar o direcionamento da câmera ou trilha sonora (como dizer se há “música de suspense” etc.) ou isso fica para outras pessoas da equipe?
    Segunda pergunta: Eu não sei o que faço primeiro. Eu escrevo e vou me aperfeiçoando, até ter algo, de fato, bom e começo a vender esse projeto ou faço curtas e vou tentando a entrada deles em festivais?

    MIL OBRIGADO PELO BLOG!
    ESTÁ ME AJUDANDO DEMAIS!

    =D

    Comentário por Marcello — 06/01/2011 @ 17:44

    • Olá, Marcello! Seja bem-vindo! 😀

      Em primeiro lugar, não há de quê!! Muito legal que você esteja gostando do blog e que ele esteja te ajudando, isso me dá uma alegria imensa! Pra valer! 😀

      Sabe, quando eu comecei, eu fiquei exatamente como você, e eu já era mais velha e experiente no ramo, por assim dizer, pois havia feito vários cursos, mas ainda assim precisei estudar vários anos pra me sentir segura para terminar um roteiro. Inclusive foi por isso que eu fiz este blog, para que outros roteiristas não precisem levar tanto tempo neste processo quanto eu levei. Mas o que eu quero dizer, é que mesmo estes roteiros inacabados são muito úteis, pois servem de aprendizado, são degraus que você já escalou e não devem ser menosprezados.

      Quanto a escrever para editar, é sim, dar direções mais claras, mas sem dirigir explicitamente, pois não devemos colocar posições de câmera, nem música (exceto se, por algum motivo, ela for imprescindível à trama), nem detalhes cenográficos etc. Tudo isso vai ficar a cargo do pessoal especializado, o diretor, o cenógrafo, o fotógrafo, o editor de som etc. O que é mais complicado, e mais valorizado em quem escreve bons roteiros, é a capacidade de visualização das cenas, e a capacidade de comunicar isso no papel. Existem escritores que são excelentes com palavras, mas escrevem mais no estilo literário do que no cinematográfico, porque eles se esmeram em trabalhar as palavras mas não estão visualizando cena nenhuma, ou a cena é tão banal que sem aquele palavreado todo bonito para descrevê-la ela não tem nada demais. Num filme não assistimos a descrição da cena com palavras, mas com imagens, e o roteirista que consegue “assistir” o filme todo em sua cabeça e passar isso da forma mais clara e simples possível para o papel tem uma chance imensa de fazer muito sucesso neste ramo.

      E quanto à segunda pergunta: Por que você não faz os dois? Ora, nada te impede de fazer vários curtas enquanto vai escrevendo um longa caprichado, isso é ótimo, e vai te abrir a mente para coisas que você não tinha percebido, uma coisa vai ajudar a outra. Aí, depois de já estar bombando nos festivais com seus curtas, quando algum produtor lhe abordar, você já terá um roteiro de longa pronto, ou quase pronto, para apresentar! É a situação ideal!! Já começa a carreira abrindo um monte de portas!

      É isso, Marcello, eu espero que minha humilde opinião lhe ajude em algo! Se fizer seu curta e postá-lo na internet, manda o link aqui pra gente, pra gente divulgá-lo, vou adorar assisti-lo! Um beijo grande, e muito sucesso pra você! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 07/01/2011 @ 14:12


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