Dicas de Roteiro

01/01/2011

100 Por Cento de Pura Adrenalina

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:38
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FELIZ ANO NOVO, PESSOAL!!! Que 2011 seja repleto de alegrias e realizações para todos, e cheinho de roteiros maravilhosos, QUE SERÃO PRODUZIDOS!!! Para começar o ano, aqui vão dicas para fazer filmes de ação. O artigo foi tirado do site Slate, e é de autoria de Jessica Winter. Aviso que há SPOILERS dos filmes dirigidos pela Kathryn Bigelow:

Feliz 2011

As quatro regras dos filmes de ação que Kathryn Bigelow quebra o tempo todo (e graças a Deus por isso).

Em junho, quando Guerra ao Terror chegou aos cinemas, Jessica Winter reviu a carreira de sua diretora, Kathryn Bigelow. Winter notou que a característica de Bigelow é o espetáculo altamente carregado de ação. Mas apesar de um filme da Bigelow poder, ocasionalmente, parecer uma produção de Jerry Bruckheimer, ela se recusa a obedecer às convenções do gênero. Passando em revista longas que vão desde o filme de surfe/assalto Caçadores de Emoção até o suspense submarino K-19: The Widowmaker, Winter enumerou as quatro regras dos filmes de ação que Bigelow mais gosta de quebrar. O artigo é reproduzido abaixo.

Através de sua longa e incrivelmente imprevisível carreira, a cineasta Kathryn Bigelow sempre teve a presciência do seu lado. Ela deu a Willem Dafoe o seu primeiro papel creditado num filme (como um motociclista mau-encarado em The Loveless, 1982). Duas décadas antes de Crepúsculo, ela fez um irresistivelmente agitado romance adolescente de vampiro (Quando Chega a Escuridão, 1987). Ela foi a primeira a vislumbrar Keanu Reeves como uma estrela de ação – o seu super sexy noviço do FBI em Caçadores de Emoção (1991) lançou as bases para as suas voltas em Velocidade Máxima e Matrix. E por falar em Matrix, Bigelow precedeu os irmãos Wachowski quanto ao universo de realidade virtual em vários anos com Estranhos Prazeres (1995), uma ficção científica alucinógena com seqüências de ação tão complexas que a sua companhia de produção teve de projetar e construir novos equipamentos de câmera para capturá-los.

À primeira vista, então, pode parecer desanimador que uma diretora com tal visão de futuro tenha se encontrado no lado errado de uma tendência fracassada. O mais recente de Bigelow é um filme sobre a guerra no Iraque que chega depois de anos de fiascos sobre a guerra no Iraque (Soldado Anônimo, No Vale das Sombras, Stop-Loss – A Lei da Guerra, Guerra Sem Cortes, The Lucky Ones, Grace Is Gone, e outros). Mas Guerra ao Terror, que segue 38 dias com uma unidade de Desativação de Artefatos Explosivos em Bagdá, não é um tratado sobre a guerra mais do que Caçadores de Emoção foi uma investigação sobre o FBI, ou o drama submarino-soviético K-19: The Widowmaker (2002) foi um documento de posição sobre a Guerra Fria. Como muitos dos filmes de Bigelow, é um curso de imersão repleto de adrenalina no modo como as pessoas se adaptam a extremos físicos e psicológicos. Atléticas sem serem chocantes, as perseguições, lutas e batalhas de Bigelow empenham-se pelo máximo de imediatismo do “você-está-aí”, frequentemente através do uso de tomadas de ponto de vista – não é à toa que a diretora prefere o termo experiencial no lugar de ação, enquanto ainda aprecia a fluidez e a coerência espacial (ao contrário de tantos arrasa-quarteirões de verão).

Escolha aleatoriamente qualquer cena entre os filmes de Bigelow e é possível confundi-lo com uma produção de alta categoria de Jerry Bruckheimer ou de Joel Silver: as guitarras agitadas, as armas e a munição, os carros flamejantes, os caras sem camisa socando um ao outro. Mas uma das muitas virtudes de Bigelow como autora – e talvez o calcanhar de Aquiles de sua bilheteria – é a sua propensão de quebrar algumas regras não escritas dos espetáculos altamente carregados de ação, que é frequentemente a sua característica.

 kathryn-bigelow

Regra 1: Heróis devem ser heróicos.

Os heróis de Bigelow são fracos, agravantes, irresolutos, até mesmo inexistentes. O Sargento William James de Guerra ao Terror (o extraordinário Jeremy Renner) é um especialista em desativação de bombas cuja conduta profissional é uma curva sinusoidal de doce e amigável camaradagem, e taciturna agressão passiva; o seu Nº 2, o Sargento Sanborn (Anthony Mackie), é um líder nato, mas pode fazer pouco mais do que fazer barulho pelos cantos. Em Estranhos Prazeres, Lenny (Ralph Fiennes), um desprezível vendedor do mercado negro de capacetes de realidade virtual, preenche grande parte dos seus dias ou vagando pateticamente atrás de sua bagaceira ex (Juliette Lewis), ou dependendo da mãe solteira Mace (Angela Bassett) para limpar a sua bagunça – emocional e outras – e conduzi-lo ao redor de Los Angeles. Em Jogo Perverso (1989), um drama de perseguição freudiana que se articula sobre uma arma roubada (Alô, ansiedade de castração!), a policial novata Megan (Jamie Lee Curtis) é tanto uma figura de autoridade quanto um alvo vulnerável, a heroína e a donzela em perigo. Mesmo em Caçadores de Emoção, a estrela de futebol que tornou-se destemido, o Oficial Johnny Utah (Keanu Reeves) tem pelo menos duas chances bem grandes de prender o seu homem, o assaltante de bancos surfista e swami, Bodhi (Patrick Swayze). Mas Johnny não consegue forçar-se a terminar o negócio.

Regra 2: A violência deve tanto excitar quanto relaxar o seu público.

Como todos sabemos, os filmes de ação compartilham alguns mecanismos básicos com a pornografia: corpos colidem e fluidos são produzidos; uma suada atividade enérgica culmina numa grande explosão, etc. Os filmes de Bigelow – que são obcecados com a sensação de violência, mas também com suas conseqüências – não acompanha muito bem a mesma gramática pura de causa e efeito, tensão e relaxamento. (Uma atenuada emboscada no deserto em Guerra ao Terror não termina mas afunda à distância, em conjunto com o sol poente.) O sangrento último ato de Jogo Perverso oferece pouco no sentido de triunfo ou deliciosa vingança; o terror e o sofrimento de Megan não são parte e parcela da auto-descoberta. Quando Chega a Escuridão torna-se um completo filme de terror durante uma longa e brutal sequência em uma pousada, onde os vampiros se demoram sadicamente no abate dos seres humanos reunidos. E em Guerra ao Terror, é claro, a simpatia da platéia está alinhada com James e sua equipe, então a satisfação primordial de uma explosão totalmente impressionante provavelmente está fora de questão.

Mesmo quando os filmes de Bigelow são literalmente pornográficos, a resposta do espectador pode seguramente supor-se ser conflituosa. Tomemos, por exemplo, a infame cena do filme snuff em Estranhos Prazeres: O vilão prende sua vítima numa armadilha, a engancha no dispositivo de realidade virtual que vai baixar a experiência sensorial dele no seu cérebro dela, e, em seguida, a estupra e estrangula, o que significa que ela experimenta tanto o seu próprio estupro e assassinato quanto o prazer do assassino em fazer isso, e nós temos de assistir. Quer você leia esta cena como um provocativo esboço de teoria de cinema sobre o interiorizado olhar macho, ou apenas um vil um precursor de Jogos Mortais, O Albergue, e o resto do gênero de tortura pornô que surgiu – ou ambos – você desejará esfregar o seu cérebro com um Bombril depois de assistir.

Regra 3: Deve haver pelo menos uma Gata Sexy (ou seja, Jolie, Mendes, Fox).

Sufocante com a testosterona incontida, os dois últimos filmes de Bigelow, K-19 e Guerra ao Terror, não têm praticamente nenhum papel feminino com falas entre eles; em Guerra ao Terror, a tensão sexual quase explode em uma cena de jogo de luta bêbada que é tão enervante quanto qualquer uma das seqüências de caça às bombas do filme. Em The Loveless, Quando Chega a Escuridão, Jogo Perverso, e no irrefletidamente homoerótico Caçadores de Emoção, as protagonistas femininas são fadinhas molecas, de cabelos curtos e um tanto hermafroditas. A Mace de Estranhos Prazeres é inegavelmente uma Gata Sexy, mas o contexto é tudo, e ela tem mais músculos e bolas – e veste melhores ternos – do que o seu oposto masculino. Depois que ela passa o filme todo sendo uma mãe firme para o infeliz Lenny, o abraço romântico final deles parece quase incestuoso.

Regra 4: Mande o espectador para as alturas!

No final de Caçadores de Emoção, nem Johnny Utah nem Bodhi "ganham"; é mais parecido com um empate por exaustão. A Megan de Jogo Perverso parece destinada a uma vida de sonhos ruins e problemas de confiança retorcida. Os jovens heróis da marinha homenageados em K-19 também são vítimas – mortos de doença de radiação porque o seu ultra-autoritário capitão (Harrison Ford com um sotaque russo!) insistiu que o seu calhambeque de submarino estava pronto para o mar. Eles eram incrivelmente corajosos, sim, mas morreram por nada mais do que o machismo de seu chefe.

E sem estragar nenhuma surpresa, o final de Guerra ao Terror é uma piada sinistra que confirma a sua epígrafe de abertura, "A guerra é uma droga" – embora a frase não seja tão evidente quanto parece à primeira vista. A guerra é viciante e perversora da alma em Guerra ao Terror, sim, mas depois de duas horas tentando penetrar na mente do sargento James, pode-se pensar também na guerra como uma medicação –  um potencializador cognitivo para um certo tipo de desajuste muito útil. Como muito da obra de Bigelow, é um conceito estranho e inquietante. Seus filmes são emocionantes, de arrepiar, sensacionais em todos os sentidos da palavra, mas eles não são reconfortantes, e não são catárticos. O que significa dizer: Kathryn Bigelow nos dá o que queremos, mas não tudo.

Kathryn Bigelow

Boa escrita pra você hoje! 😀

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2 Comentários

  1. Oi Valéria…
    um Feliz ano novo pra vc, tudo de bom, muita saúde, paz, amor e muita… muita criatividade!!!
    Estou feliz de ver que esta postando desde jah, não tenho comentado, mas estou sempre por aqui.
    Decidi que neste ano vou dedicar muito mais tempo para meus textos, argumentos, roteiros e até um blog, vamos ver no que isso vai dar!!!
    Abraço…
    Valdemar…

    Comentário por Valdemar — 03/01/2011 @ 02:01

    • Olá, Valdemar! 😀

      Muito obrigada, desejo um excelente 2011 pra você também, com muito, muito sucesso e alegrias imensas!

      E eu dou a maior força pra que você escreva sempre mais! Quando tiver o seu blog ativo, manda o link aqui pra gente, vou adorar conhecê-lo! 😀

      Um abração, Valdemar, e muito obrigada pela mensagem, pelo carinho e pela companhia. Vamos lutar pelos 400 posts com Dicas de Roteiro em 2011! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/01/2011 @ 08:01


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