Dicas de Roteiro

03/12/2010

A Bíblia do Roteirista – Parte 10

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:43
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Aqui vai a continuação do capítulo do livro de David Trottier, The Screenwriter’s Bible:

caneta-gandhi

O tratamento de especulação (ou argumento ou sinopse) que se segue trata da mesma história que a sinopse da analista de histórias. Por que o estilo de escrita é diferente? Porque é escrito para uma finalidade diferente. (A propósito, o roteiro e este tratamento me levaram a um acordo de desenvolvimento com a Disney, muitos anos atrás.)

A minha estratégia para este curto tratamento foi aplicar os princípios já declarados nesta seção sobre tratamentos. A pequena extensão do tratamento me forçou a focar na história principal, em termos de enredo, personagem e emoção.

Eu recomendo que você escreva tratamentos curtos quando estiver empacado, antes de reescrever, e (é claro) antes de apresentá-lo oralmente. Como o tratamento é uma apresentação escrita da ideia, consulte a parte sobre apresentação de ideias ao escrever um tratamento. Apesar de não ser necessário, eu comecei este tratamento com o gancho da história.

O SEGREDO DA CAVERNA DO PONTO DE INTERROGAÇÃO

por David Trottier

Esta é a história de uma espada há muito tempo prometida, uma caverna secreta, e uma família encalhada sem um aparelho de TV.

Seebee, 12 anos, imagina a si mesmo como um cavaleiro, apesar de ele ter sido expulso do Clube do Explorador por falhar em executar um ato de bravura. Pior que isso, o seu próprio pai (Frankie) o rebaixa como um “garoto inútil” e parte a sua espada ao meio, assim como o seu coração. Na verdade, Frankie ama o seu filho – ele apenas não sabe como se conectar com ele, e está ocupado demais assistindo TV para descobrir.

Uma noite, Seebee entra escondido no sótão contra a vontade de seu pai e descobre o diário de seu bisavô, Capitão Cole. Ele conta a história de uma espada “mágica” (pelo menos Seebee pensa que ela é mágica) escondida em uma caverna secreta no fundo das montanhas. Seebee jura fugir e encontrar a antiga espada. Ele está certo de que irá resolver seus problemas, mas sua esperança se desfaz quando Frankie o pega no sótão.

Enquanto isso, a sua amiga Glodina testemunha um roubo a banco e se esconde atrás de um carro, por segurança. Infelizmente, o carro que ela escolhe é o carro do ladrão. O ladrão é forçado a levá-la com ele para seu esconderijo. Seebee é incapaz de salvar Glodina e quando chega em casa, faz algo ainda pior – ele acidentalmente quebra o aparelho de TV de seu pai. Ele é banido para seu quarto.

Seebee sente-se deprimido e impotente; mas, naquela noite, ele sonha que seu bisavô, Capitão Cole, galopa em seu cavalo e oferece a Seebee a espada mencionada em seu diário. Cole diz: “Você tem um poder todo seu”, e Seebee acorda.

Encorajado, o garoto junta com fita adesiva os pedaços de sua espada de madeira. Ele foge com dois de seus companheiros do “Clube do Explorador” a fim de encontrar a espada “mágica” na caverna secreta, para que ele possa usá-la para resgatar Glodina. Eles superam obstáculos até descobrirem a velha caverna do Capitão Cole, chamada Caverna do Ponto de Interrogação. Dentro, eles encontram Glodina (ela está a salvo) – a caverna deve ser o esconderijo do bandido! Uma busca mais profunda apresenta evidências do Capitão Cole, mas não da assombrosa espada de seu sonho. Seebee fica desanimado.

Só então o ladrão chega. Ele está prestes a “apagar” o pequeno bando de quatro crianças, mas Seebee engana o ladrão e os quatro escapam da caverna.

Seguindo a trilha, o bandido persegue Seebee e seus amigos até alcançá-los num penhasco que paira sobre um riacho no desfiladeiro. Ali Seebee desembainha sua espada de madeira e corajosamente mantém o ladrão cercado enquanto seus amigos passam sobre o despenhadeiro em segurança. Quando Seebee tenta atravessar, o bandido o apanha. Na luta, Seebee força o Bandido do Chapéu Vermelho a cair no penhasco, onde o ladrão quebra sua perna no rio abaixo.

Seebee agora percebe que ele não precisa da espada mágica de poder porque ele tem um poder todo seu – uma bondade interior com a qual ele pode contar. Seu sonho tornou-se realidade. Além disso, ele executou um ato de bravura para entrar de volta no Clube do Explorador.

Em casa, os acontecimentos deram à Frankie uma nova perspectiva. Ele leva Seebee ao sótão e retira a espada do Capitão Cole de um esconderijo secreto! O pai, como o filho, uma vez já quis ser um cavaleiro, e tinha, anos atrás, viajado até a Caverna do Ponto de Interrogação e encontrado a antiga espada. A espada tornou-se a conexão entre Frankie e seu filho, a conexão que ele estava ansiando encontrar. Ele então consagra o seu filho cavaleiro e lhe dá a espada que ele merece, enquanto Glodina admira seu corajoso herói.

Homens de verdade tornam-se roteiristas

HOMENS DE VERDADE TORNAM-SE ROTEIRISTAS

Boa escrita pra você hoje! Amanhã continuamos com esta série. Inté! 😀

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4 Comentários

  1. Oiii Valéria!
    Eu tenho uma pergunta, primeiramente quero dizer que este post foi muito bom, exclareceu tudo que eu queria saber sobre o tratamento de especulação, porém a pergunta é totalmente diferente.

    – Quanto tempo, na verdade demora para acabar um roteiro de serie de TV ? Como eu começo ?. Os roteiristas já vetenaros conseguem fazer isto tão facilmente. É verdade que você sempre tem que começar com algo incrivel para os produtores se surpreenderem ?

    Ahn, é verdade também que para você escrever tem que estar em seu melhor momento ?

    Um abração, e uma boa semana!

    Comentário por Igor — 19/12/2010 @ 16:20

    • Oiii, Igor! 😀 😀

      Que bom que gostou do texto! Eu tava devendo esse há muito tempo, né? Finalmente saiu! :mrgreen:

      Olha, cada um tem seu próprio ritmo, mas os profissionais costumam escrever um episódio por semana. É claro que a maioria escreve em grupo, aí fica muuuuito mais fácil! Dá uma olhada nesta página que o Fernando Marés indicou pelo twitter: http://oglobo.globo.com/cultura/revistadatv/mat/2010/12/17/ator-roteirista-marcius-melhem-mostra-processo-criativo-de-os-caras-de-pau-s-s-emergencia-923313025.asp

      Eles escrevem seriados de meia hora, e veja quanta gente trabalha na equipe! O impressionante é que tem noveleiros que escrevem roteiros de uma hora(!!!) POR DIA!! SOZINHOS!!! Isso pra mim é coisa de alienígena ou de super-herói, eu não tenho ideia de como eles conseguem fazer isso.

      Mas eu vou te contar como EU trabalho. No começo, eu levava um tempão pra terminar qualquer coisa, eu ficava esperando a inspiração, o “melhor momento” surgir, e por isso eu não conseguia escrever todo dia (o que é fundamental, a criatividade acaba se disciplinando com você e aparecendo todo dia na mesma hora. É sério!) e às vezes esperava semanas ou até meses para voltar a um roteiro no qual eu tinha empacado. Por isso, teve roteiro que eu levei mais de dois anos pra terminar! Cruzes! Mas depois de me disciplinar, o meu esquema básico ficou assim:

      1- Eu gosto de acordar bem cedo pra escrever, então eu separo de uma a duas horas por dia, de manhãzinha, quando tudo está quieto e tranquilo, para a minha escrita, seis dias por semana.

      2- Eu escrevo primeiramente em cadernos ou blocos com furos, pra colocar tudo no fichário depois. Quando o episódio está pronto é que eu passo à limpo para o computador e imprimo.

      3- Eu escrevo todas as ideias que me vêem à mente, isso a qualquer hora do dia, num caderninho que eu sempre carrego comigo. Eu junto as ideias no meu fichário e vejo se alguma tem potencial para um episódio ou filme. Já houve casos em que eu tive que juntar duas ou três histórias diferentes numa só, porque separadas elas seriam sem graça, mas juntas, viram uma história bombástica! 😀

      4- Com a ideia escolhida em mãos, eu faço um argumento, escrevendo livremente, como se eu estivesse contando a história para um amigo, jogando diálogos, quando ele surgem, e tudo o que me vier à mente. Quando eu acabo de contar a história do começo ao fim, o que geralmente leva umas dez páginas ou mais, eu faço o que os americanos chamam de Beat Sheet (eu fazia isso sem nem saber que esse troço tinha nome!): desmembro a história toda em frases, indicando as ações principais, algumas representam uma cena, outras frases seguidas podem acontecer em apenas uma cena. Exemplo:

      – Ana vai ao trabalho de Marcelo, seu marido.
      – Marcelo não apareceu no trabalho hoje.
      – Ana desconfia de que Marcelo a trai. Ela corre para a casa de sua melhor amiga, Sônia.
      – Ana encontra Marcelo na casa de Sônia. Ana se desespera e foge.
      – Ana sofre um acidente de carro e perde a memória.
      – Marcelo e Sônia visitam Ana e ela não se lembra quem eles são. Eles decidem manipulá-la para conseguir o que querem.

      E por aí vai… Até terminar a história.

      Depois disso, eu corto e acrescento cenas que estiverem sobrando ou faltando, e faço a escaleta com o rascunho das cenas, às vezes já faço a escaleta ampliada, com alguns diálogos e detalhes de cena. Daí fica moleza escrever o roteiro em si, geralmente eu levo dois ou três dias (ou seja, de 3 a 6 horas) pra terminar, depois da escaleta pronta.

      No total, posso levar de duas a três semanas, a até dois meses, mas teve casos em que eu não gostei do resultado final e fiquei mais tempo, basicamente reescrevendo tudo do zero, e no fim das contas a história ficou 80% diferente da primeira versão. Se você dedicar mais horas à escrita, pode fazer um episódio em muito menos tempo, de uma a duas semanas, por exemplo. Não esqueça de que esta é a primeira versão, eu geralmente levo mais uma semana para cada reescrita, mas com este esquema, não costumo mudar muita coisa quando a história já está legal. Um diálogozinho aqui, uma polidinha ali, e ele já está prontinho! Teve roteiros de vários episódios que eu precisei reescrever apenas duas vezes, mas foi mais uma polida leve do que uma reescrita daquelas cabeludas.

      Quanto a você ter uma ideia incrível para que os produtores se surpreendam, isso depende. Você pode ter uma ideia para uma história simples, singela e profundamente emocionante, e é isso o que vai contar. Se você tocar fundo alguma emoção do seu leitor, você terá feito um trabalho soberbo. Se a sua praia é ação, que seja um roteiro eletrizante; se é comédia, que seja recheado de gargalhadas; se é terror, que deixe o leitor de cabelo em pé; se for drama, que arranque lágrimas, e assim com qualquer gênero. Pergunte-se, antes de tudo: Você gostaria de assistir este programa, se você fosse apenas um espectador? Você se sentiria tocado por esta história? Ela te acrescentaria algo? Você a indicaria para seus amigos, você conversaria sobre ela com seus colegas? Se a resposta for não, então ainda está faltando algo para que ela esteja pronta. Talvez mais conflitos, talvez outros pontos de virada mais interessantes, ou talvez um final mais impactante. Mas você precisa persistir com ela até que ela esteja tinindo. Você vai saber quando isso acontecer, a gente sente um sinal piscando dentro da gente, avisando que aquilo ainda não está bom, até estar realmente pronto. Mas quando está pronto, a satisfação interna equivale a dez mil montanhas-russas! É de deixar a gente flutuando e eletrizado de alegria!

      Ufa, escrevi demais, né? Espero que tenha tirado algumas de suas dúvidas, Igor, o importante é que você está estudando roteirismo a sério e já sabe que ama escrever, isso já é mais do que meio caminho andado. Com disciplina para escrever diariamente, e alguma leitura pra “encher o seu poço”, você terá tudo o que precisa para ser um super escritor de sucesso. E eu tô torcendo por isso! 😀

      Um beijão, Igor, ótima semana pra você também, e boa escrita! 😀 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 20/12/2010 @ 10:32

  2. Olá Valéria, quanto tempo, como vai?

    Já faz um tempo que não visito o blog, o que de certa forma é bom, porque assim tenho alguns posts acumulados para ler. Finalmente terminei de escrever um roteiro de curta-metragem que planejo filmar no ano que vem, quando tiver pronto eu venho te mostrar 😉

    Vou evitar ficar novamente sem visitar esse site que sempre me ajudou.

    Abraço.

    Comentário por Tom — 19/12/2010 @ 19:13

    • Oi, Tom, que bom vê-lo aqui de volta! 😀 😀

      Que bacana, já escreveu seu curta e vai filmá-lo?! EU QUERO VER, EU QUERO VER!!! Quando tiver pronto, me diz onde vai passar, ou me manda ele, que eu quero ver!! Eu tenho certeza de que vou adorar, assim como adoro seu blog, seu twitter, enfim, sua escrita! Manda ver, Tom, que esse ano de 2011 vai ser seu ano de estreia! E eu tô aqui na plateia! :mrgreen:

      Um beijão, Tom, uma ótima semana, e estou ansiosamente aguardando seu curta! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 20/12/2010 @ 10:49


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