Dicas de Roteiro

30/11/2010

Introdução À Escrita Para TV

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:00
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O artigo de hoje foi tirado do site Script Frenzy, e é de autoria anônima. Este texto foi mais difícil do que eu esperava para traduzir, por isso levou mais tempo do que o previsto. Também gostaria de avisar que ele cita duas vezes a página COMO FORMATAR UM ROTEIRO DE TV, que eu pretendo traduzir no futuro.

bebê assistindo tv

A televisão precisa de mais bons escritores. Alguém tem de dizer às pessoinhas que vivem naquela caixa o que falar e quando falar, e é aí, meus amigos, onde vocês entram!

Não há uma pessoa que esteja escrevendo para televisão hoje que não tenha começado sentado sozinho em sua mesa, imaginando quem diabos ele estava tentando enganar. O que os torna especiais é que eles começaram. Eles trabalharam duramente nisso. E eles terminaram. Acontece que o segredo mais bem guardado na televisão é: continuar escrevendo. Lembre-se disso, e você estará bebendo lattes com Tina Fey antes que possa dizer "jurado rural". (Isso é dureza). [N.T.: Piada de um dos episódios de 30 Rock, onde a protagonista, interpretada por Tina Fey, não consegue pronunciar “rural juror”, que seria o nome de um filme. Isso torna-se uma piada corrente durante toda a série. Também é o título do décimo episódio da primeira temporada desta mesma série.]

Se você nunca escreveu um roteiro de TV antes, não tema; conforme percorre os conselhos abaixo, você provavelmente vai perceber que a maioria deles já são uma segunda natureza. Tal como o catálogo de canções dos Beatles ou o espectro de cores em um saco de M&Ms, há uma boa chance de que a estrutura de escrita para a TV já esteja entranhada nos recônditos de sua psique. Todas aquelas noites de sábado passadas no sofá dentro de casa, em frente ao aparelho de TV, não são mais horas desperdiçadas. Oh, não. Você estava fazendo pesquisa, e todo aquele trabalho duro está prestes recompensar!

11 Passos Para o Importante Domínio da Escrita Para TV

1- Assista Mais Televisão

Antes de começar, é bom você arranjar um caderno e um par de canetas. Então vista algo confortável, pule no sofá, e comece a trabalhar. Assista tudo. Assista qualquer coisa. Esta é a sua oportunidade de recuperar o atraso de seus programas gravados, ou aumentar o aluguel de DVDs para cinco por mês. Tente assistir tantos episódios de seus programas favoritos quanto possível, e até mesmo se arrastar através de alguns que você odeia. Mas não se deixe perder naquela mágica e emotiva disforia [N.T.: Inquietação, mal-estar provocado por ansiedade. (Opõe-se a euforia.)] de olhos fundos, que nós todos experimentamos depois de algumas horas na frente da TV. Se você está vendo estrelas, ou tendo dificuldade para lembrar os nomes dos seus filhos, então é hora de desligá-la. Lembre-se: este é o seu dever de casa, e o seu trabalho número um é permanecer empenhado.

Conforme você assiste, anote pontos de virada interessantes ou diálogos que pareçam especialmente engraçados ou eficazes. Faça-se perguntas, tais como: Por que eu ri dessa piada? Por que eu me senti aflito um pouco antes daquele intervalo comercial? Por que eu fiquei entediado e mudei de canal? Anote seus pensamentos. Esta será uma referência essencial enquanto você mergulha em seu próprio material e trabalha para criar situações que irão afetar o seu público das mesmas formas que você foi afetado. Ao registrar as suas respostas, você também vai obter uma compreensão de seus próprios gostos e aversões, e esta será uma ferramenta especialmente útil na escolha do gênero e do formado de seu roteiro. Então, mãos à obra! Pegue aquela pipoca, abra o seu caderno, e prepare-se para fartar-se de horas e horas de TV sem culpa!

2- Escrever Ou Não Escrever Em Especulação

Dez anos atrás, se você quisesse ser um escriba de televisão, havia apenas uma maneira de entrar no ramo. Você tinha que começar escrevendo dois ou mais episódios falsos para programas existentes, em "especulação" de compra. Então você teria que tentar botar estes roteiros nas mãos dos roteiristas-chefes do programa, e esperar que eles gostassem dele o suficiente para contratá-lo como um freelancer (ou, em casos especiais, como um dos escritores da equipe do programa). Depois de anos provando o seu valor, você poderia “estourar” por conta própria, escrevendo um roteiro ‘piloto’ para uma série original, e se este fosse escolhido, você tinha uma chance de tornar-se um ‘showrunner’ de seu próprio programa.

Aquilo era antes. Isto aqui é agora. Hoje em dia, agentes literários e executivos de desenvolvimento estão tão propensos a pedir a um escritor não testado por um roteiro de piloto quanto por um de especulação. Tem um pessoal de desenvolvimento que até prefere pilotos a roteiros de especulação, já que roteiros-piloto tendem a exibir a voz única de um novo escritor, ao invés da sua habilidade de copiar a de outra pessoa.

Entretanto, o roteiro de especulação ainda tem seu lugar, e muitos escritores novos ainda o utilizam como uma forma de comparar a sua escrita à dos profissionais, ou para exibir seus talentos em gêneros variados. Escrever um roteiro de especulação também pode ser mais fácil do que escrever o roteiro de um programa original, já que você não precisa criar os personagens nem o mundo deles. Se você fosse escrever um roteiro de especulação de Buffy – A Caça-Vampiros, por exemplo, você poderia começar logo de cara com a Buffy e o Angel trocando saliva e descansando em um túmulo sem ter de explicar que: a) Angel é um vampiro com alma, b) Buffy é uma caçadora apaixonada por um vampiro, e c) túmulos são locais perfeitamente desejáveis para esses tipos de romances. Em um roteiro de especulação, você pode supor que seus leitores já conhecem o programa, e pode entrar de cabeça e ir direto na parte boa!

Assim, a primeira decisão que você deve tomar é se vai escrever um roteiro de especulação ou um piloto original. Cada um será uma ferramenta útil para divulgar a si mesmo como escritor, então a decisão na verdade está com você. Você já pensou na situação original perfeita para How I Met Your Mother, ou quer apresentar o próximo grande programa policial para preencher o vácuo deixado por A Escuta? Ei, com 100 páginas para escrever, por que não fazer as duas coisas?

3- Conheça o Seu Programa

Se você está pensando em escrever um roteiro de especulação, comece focando-se nos programas mais novos, mais recentes e mais bem classificados dentro de um gênero que você ame. Uma sitcom [comédia de situação] hoje não é uma sitcom de 1990. Ninguém quer ler um incrível episódio novinho em folha de ALF, o ETeimoso. O seu roteiro de especulação deve ser de um programa de televisão atual ainda em produção, e, com sorte, um que estará no ar daqui a três anos, de modo que o seu roteiro irá continuar a dar a impressão de ser atual. Um programa como "Os Simpsons" é um roteiro de especulação popular, porque esse programa vai estar em produção bem depois da Chelsea Clinton ter lançado a sua candidatura presidencial. E é isso o que você quer, um programa bem-sucedido, que seja bem escrito e bem conhecido dos supostos leitores. Algumas escolhas populares no momento são 30 Rock, The Big Bang Theory, e Mad Men.

Uma vez tendo escolhido um programa, tente botar as suas mãos em um episódio escrito. O Google vai lhe servir muito bem aqui, assim como sites como dailyscript.com e hollywoodbookcity.com. Se você tem uma prima que trabalha à noite na CBS, agora seria a hora certa de lhe dar um telefonema! Faça tudo o que puder para caçar um episódio do seu programa. As idiossincrasias de formatação do seu programa devem ser reproduzidas em seu roteiro de especulação, e você vai precisar de um roteiro para saber quais são elas. Ao contrário dos roteiros de cinema, todos os programas de TV são formatados de maneiras diferentes, e você quer que o seu roteiro de especulação se pareça com um episódio real, tanto quanto que ele tenha o mesmo estilo de escrita de um (veja COMO FORMATAR UM ROTEIRO DE TV).  Modelos para muitos dos programas atuais também estão nos pacotes de softwares de roteiro, tais como Final Draft e Screenwriter, mas você ainda vai querer ver um roteiro de verdade para ter uma noção de como ele é no papel.

Se, por outro lado, você planeja escrever o seu próprio piloto, comece assistindo todos os programas dentro do mesmo gênero que estejam atualmente criando polêmica. Tome nota de como eles são estruturados, quando os intervalos comerciais chegam em um programa de meia hora versus em um programa de uma hora, e que tipos de temas e situações compõem o enredo principal. A televisão é muito parecida com a indústria da moda, e os estilos de escrita e de histórias dos novos programas podem variar radicalmente em relação à temporada anterior. Quando for apresentar uma ideia para vender para a TV, você nunca vai querer aparecer na passarela vestindo calças do MC Hammer e pochete. Tente dominar o assunto e saiba de que modo o seu piloto é semelhante e diferente dos programas atuais do gênero.

Calças-Mc-Hammer-Moda-2009

4- Conheça o Seu Público

Uma grande diferença entre escrever filmes e escrever para a TV é que, ao escrever para a tela pequena, você precisa considerar constantemente o nível de atenção de seu público. Pense nisso, os espectadores de cinema compraram as suas entradas por US$10 e estão, essencialmente, presos em seus assentos pelas próximas duas horas. Eles não podem mudar de canal. Eles não podem dar um pulo na cozinha, ou atender o telefone. Não é assim com a TV! Na realidade, muitas pessoas parecem estar à procura de um motivo para mudar de canal. Existem tantas outras opções – com certeza deve haver algo passando mais divertido do que isso.

Para certificar-se de que você está prendendo a atenção do seu público, você precisa primeiro saber quem é o seu público. E como você faz isso? Assista aos comerciais! As empresas de marketing estão gastando milhões de dólares enquanto nós falamos, certificando-se de que os anúncios certos estejam associados a programas que entreguem os produtos para os consumidores certos. Se você estiver escrevendo um roteiro de especulação, que tipos de atores aparecem nos comerciais? Quem é o seu alvo? Se você estiver escrevendo um piloto, assista aos comerciais de seus possíveis concorrentes. São eles anúncios de Doritos, ou comerciais de investimentos bancários? Eles estão vendendo detergente ou Legos? Você pode aprender muito sobre um programa sabendo quem o está assistindo.

5- Faça Logo o Pitch

Tudo certo: você escolheu seu programa para escrever em especulação, ou descobriu o seu ponto de vista para a próxima grande comédia de situação. Você indispôs a família e os vizinhos ao ficar acordado a noite toda catando reprises, e agora está pronto para a parte divertida – escrever!

Red Zinger

Hmmm. Talvez só mais um copo de chá Red Zinger, e ENTÃO ir escrever… Se você estiver tendo problemas para seguir em frente, talvez seja necessário dar um grande passo para trás, e perguntar-se sobre o que o seu episódio é realmente. Na verdade, se você não consegue resumir o seu roteiro inteiro em apenas uma ou duas frases, então você provavelmente não está pronto para começar a escrever. Na terra de Hollywood, eles chamam isso depitch‘ [a apresentação oral de sua ideia com a finalidade de vendê-la], e é isso o que os executivos de criação irão lhe pedir na viagem de elevador de quinze segundos após você ter se apresentado como um escritor de TV. "Qual é o pitch", irão dizer os gentis – e é melhor que você bote tudo pra fora antes daquela campainha tocar avisando que já é o hall de entrada!

Um bom pitch deve contar o enredo inteiro de seu piloto ou roteiro de especulação, incluindo características ou defeitos essenciais dos personagens, em menos tempo que leva para comer um mini bolinho no Starbucks. Deve ter um começo, meio e fim claros, e costuma começar com a apresentação do personagem principal:

    Um pai ausente, cuja vida é atormentada por erros…

A seguir, descreve a jornada do personagem:

    Encontra-se sendo enviado de volta no tempo a intervalos aleatórios…

E termina resumindo com um desenlace inesperado:

    Só para descobrir que ele foi enviado em uma missão para proteger o mundo, e ao longo do caminho, será dada a oportunidade de corrigir os males de seu passado.

Isto não é apenas um exercício de preparação – afiar o seu pitch irá forçá-lo a resumir o seu episódio até seus elementos centrais, e, no final das contas, você vai acabar com um roteiro melhor. Alguns escritores até mesmo começam com um ótimo pitch, então trabalham ao contrário para expandi-lo para um programa. Seja qual for a sua abordagem, certifique-se de fazer o pitch logo no início do processo – isso irá tornar a sua própria viagem muito mais agradável.

6- Que Personagem!

Televisão é um monte de coisas, mas uma coisa que ela definitivamente não é, é sutil. Nos filmes, pontos de virada importantes podem acontecer fora da tela, e personagens-chave podem passar boa parte do filme remoendo grandes decisões em relativo silêncio. Não é assim na TV! De fato, uma das principais diferenças entre os meios é o estilo bem-na-cara da televisão, onde quase nada é deixado em aberto para interpretação e pontos de virada importantes sempre acontecem na tela, bem à vista de seu público faminto. Lembre-se sempre do controle remoto de seu espectador, deitado lá na mesinha de café, acenando.

Um dos modos que os roteiristas de televisão mantêm o seu público viciado é através da criação de personagens muito fortes. Ao decidir sobre o seu elenco para um novo piloto, tente fazer cada personagem tão radicalmente diferente um do outro quanto você puder. Um ótimo exemplo disso é o programa da NBC "30 Rock". Pense nos personagens que compõem o grupo de escribas de confiança (e politicamente incorretos) de Tina Fey: Um desleixado homem-criança, um arrogante Afro-Americano com alta escolaridade, um idiota impressionista, um estéril pai de jogador de futebol, e a própria Tina Fey – uma workaholic de 42 anos sem nenhuma vida social e viciada em fast food. Só de mencionar os arquétipos, você pode ver o potencial de conflito e humor quando estas personas opostas estão presas juntas em uma sala de escrita. Adicione um chefe ao estilo Donald Trump, um office-boy que acabou de saltar do ônibus, e as personalidades conflitantes de um casal de atores de cabeça quente, e você tem uma meia hora super divertida!

Então, como você  traça uma gama escolhida a dedo de personagens bem definidos que irão carregar o seu programa por diversas temporadas de mudanças de enredos e drama envolvente? Dois truques em particular são bem utilizados por escritores experientes. Primeiro, escreva o que você conhece, mas sem as partes chatas. Jogue o seu pai, ou a sua namorada, ou a sua professora de matemática da sexta série na mistura, e veja como eles se saem ao lado de seu alienígena transmorfo ou cão falante. Segundo, pegue personagens de outros programas de TV e enfie-os no seu. Se você está procurando pelo perfeito pai trabalhador, por que não o Peter de Uma Família da Pesada? Ou o Charlie de Dois Homens e Meio? Pegar personagens emprestados pode ser uma ótima maneira de definir a dinâmica do seu elenco e de aguçar a sua visão global. E não se preocupe, conforme o seu roteiro se desenvolve, estes sequestrados irão assumir as suas próprias personalidades e tornar-se seus. Então, divirta-se! Escolha à vontade, estes truques irão tornar o desenvolvimento de personagens mais fácil, e devem expor os pontos fortes e fracos de seu elenco de apoio.

Para aqueles de vocês que estão escrevendo o próximo grande episódio de Ashes to Ashes, escrever um roteiro de especulação exige seu próprio dever de casa. Claro, uma boa parte do trabalho inicial foi feito para você, visto que qualquer programa que valha a pena escrever em especulação já deve ter uma fauna bem definida de desajustados. O seu trabalho agora é passar a conhecê-los melhor do que os escritores que deram à luz eles. Tente escrever uma página, a partir do ponto de vista de cada personagem, que discuta a vida e os conflitos de cada um deles com as outras pessoas no programa. Conhecer os seus personagens de dentro para fora é fundamental para estruturar uma boa história e diálogos. Então, faça esse trabalho! Ele será de valor inestimável na hora em você entrar de cabeça no seu roteiro.

Esteja você escrevendo um piloto ou um roteiro de especulação, uma coisa final para se ter em mente sobre os grandes personagens de televisão é que eles nunca mudam. Se você assistiu um episódio de final de temporada da HBO recentemente, pode ter notado uma rara exceção, mas esta regra continua valendo para 99,5% das vezes. Isto não é um filme – os seus personagens podem aprender, mas não deve ser permitido a eles crescer de forma significativa. O que eles descobrem em um episódio geralmente deve ser esquecido até o próximo. Personagens de TV devem ser claros e transparentes, e colocados em conflito óbvio com os outros a partir do piloto. O trabalho de um roteirista de TV é manter esta dinâmica inicial, às vezes contra todas as probabilidades. Se você estiver escrevendo um roteiro de especulação, não tente conduzir o programa para uma nova e ousada direção – permaneça fiel aos personagens do jeito que eles são, e encontre uma situação completamente nova em que suas personalidades e atitudes ainda estarão intactas ao baixar das cortinas.

7 – Castelo de Cartas

Se você compôs um esboço do argumento de seu programa e mapeou cada um de seus personagens centrais, você pode estar pensando: "e agora?" Como posso fazer todos esses incríveis personagens e esses super pontos de virada caberem dentro de um roteiro de meia hora? Estruturar um roteiro pode parecer com um castelo de cartas, mas não permita isso! Respire fundo, pegue aquele caderno e continue lendo. Em pouco tempo tudo isso irá parecer tão fácil quanto encontrar o brinde numa caixa de Cracker Jacks. [N.T.: Marca norte-americana de pipoca doce e amendoins caramelados.]

Qualquer que seja o tipo de roteiro que você esteja escrevendo, é útil pensar na sua história em termos de números de atos presos entre uma série de intervalos comerciais. A maioria dos programas também começa com um teaser curto altamente cômico ou altamente dramático, que se destaca do resto do episódio, mas também define o enredo ou o tema principal do roteiro. Muitos programas também terminam com um epílogo curto semelhante (que arremata uma piada prolongada ou um ponto de virada), chamado de tag (ponta).

Comédias de situação de meia hora tendem a se desenrolar da seguinte maneira:

    teaser—comercial—Ato I—comercial—Ato II—comercial—tag

Ao passo que programas de uma hora de duração normalmente se desdobram da seguinte forma:

    teaser—comercial—Ato I—comercial—Ato II—comercial—Ato III—comercial—Ato IV—comercial—tag

O primeiro ato de um programa de TV tende a ser maior do que os atos finais, e em programas de meia hora há geralmente de 15 a 18 cenas no episódio todo. Nos programas de uma hora de duração este número aumenta para cerca de 25. O teaser e a tag são geralmente compostos de apenas 1 a 3 cenas cada.

A regra de ouro é que uma página escrita em geral é igual a pouco menos de um minuto de tempo no ar. Assim, dramas de uma hora tendem a ter cerca de 60 a 70 páginas, e programas de meia hora de redes de TV abertas tendem a ter cerca de 40 a 50 páginas. Se esta matemática parece doida, consulte a seção COMO FORMATAR UM ROTEIRO DE TV, para aprender sobre as estranhas regras de espaçamento de certos tipos de roteiros.

Programas que são escritos para a TV a cabo (e não precisam ter pausas de intervalos comerciais) tendem a ser mais longos, mas a estrutura de atos/intervalos geralmente é tratada exatamente da mesma forma, em parte porque muitos programas de TV a cabo vão acabar sendo vendidos para outros canais.

8- Aprenda os Seus A, B, Cs

Antes de descobrir que momentos da história devem caber dentro de cada um de seus atos, será útil pensar no seu roteiro como se ele estivesse viajando por duas ou três estradas distintas ao mesmo tempo.

A sua primeira estrada é chamada de seu enredo-A, e essa é a parte do seu roteiro que abastece as ações dos personagens principais, e geralmente empurra a história para frente, como, por exemplo: Oh, não, a cidade está sob ataque – graças à Deus os Power Rangers estão aqui para lutar contra o monstro e salvar a todos nós! O seu enredo-B é aquela parte do seu roteiro que expressa as complicações e os problemas emocionais dos seus principais personagens, tangencialmente ao cenário de dia do juízo final que está se desdobrando, como, por exemplo: A vida de Carrie Bradshaw pode estar arruinada, mas espere – quem é aquele “barco salva-vidas” maravilhoso? Deixe-me namorar com ele e contar para as minhas amigas! Programas de uma hora de duração geralmente também têm um enredo-C, que se concentra nas vidas paralelas dos personagens coadjuvantes, como, por exemplo: Meadow, a filha de Tony Soprano, se rebela contra a sua família ao namorar um estudante Afro-Americano judeu em Columbia!

Cada um dos seus atos deve incluir a proporção de 60/30/10 de seus enredos-A, B e C, respectivamente. Em um programa de meia hora sem nenhum enredo-C, a relação deve ser mais perto de 60/40. Entretanto, estas são estimativas aproximadas, e você deve se sentir livre para tomar liberdades no modo como você organiza a sua história. O fundamental é manter o seu programa em movimento.

Se os A, B, e Cs são negociáveis, esta próxima regra não é: Cada ato deve terminar com um verdadeiro "gancho". Divisões de atos são a parte mais assustadora da escrita, porque é aí que você vai perder o seu público, se elas não forem planejadas com cuidado. Uma situação dramática pode ser um “gancho do enredo-A”, como quando um personagem principal acabou de ser baleado ou veio a ser demitido por aparecer nu no trabalho; ou pode ser um “gancho do enredo-B”, como quando a sua protagonista acabou de ser beijada por sua paixão de longa data, ou a sua mãe afastada apareceu sem aviso prévio. Sejam os seus ganchos baseados no enredo ou emocionais, eles sempre precisam estar lá, bem ali, no final de cada ato. Sempre organize as suas cenas de modo que os seus grandes e suculentos momentos-de-pontos-de-interrogação-piscantes caiam logo antes de seus intervalos.

9- Fale a Fala

Antes de se preocupar em como fazer os seus personagens falarem como se estivessem em um programa de TV, você precisa dar-lhes algo sobre o quê falar. Sinceramente, este é o melhor conselho sobre escrita de diálogos que você vai ouvir (obrigado, Script Frenzy!). Nunca se encontre numa situação onde você esteja tentando criar falas inteligentes, sem primeiro ter certeza do que cada um de seus personagens realmente quer. Se você conhece os seus personagens de dentro para fora (ver o nº 6) e sabe quais são seus objetivos individuais em cada cena, o seu diálogo começará a se escrever sozinho. Sério, você pode simplesmente sentar-se sobre suas mãos e vê-lo desenrolar-se na tela!

Ok, talvez não. Mas se você se lembrar do que cada um de seus personagens está tentando obter antes de entrar em cada cena, você vai descobrir que escrever diálogos é muito mais fácil do que parece. Isso não significa que eles devem vir a público e dizer isso! Ah, eles devem mentir, provocar, flertar e manipular, tal como o resto de nós. Mas saiba o que eles realmente querem sob tudo isso, mesmo que tal coisa nunca venha a acontecer.

Agora regue com algum conflito, e está pronto! O drama mais inteligente e a comédia mais espirituosa sempre surgem de situações de grande conflito, e você precisa certificar-se de que tenha uma boa dose disso em cada cena. A melhor maneira de elevar o seu conflito a um ponto de ebulição é colocar o desejo de cada um de seus personagens em conflito direto com todos os outros personagens. Agora eles têm um motivo para falarem uns com os outros, e com as suas motivações conflitantes, eles irão puxar e empurrar uns aos outros conforme ambos tentam conseguir aquilo do seu próprio jeito. Adicione algumas piadas e algumas poucas referências presunçosamente inteligentes, e você tem televisão!

Quase. Como todos os aspectos da escrita para a TV, há muito pouco espaço para a sutileza, e o seu diálogo nunca deve parecer, bem… chato. Há uma diferença real entre "diálogo" e "conversa", e, especialmente ao escrever para a televisão, os seus personagens devem ser um pouco mais afiados, mais brilhantes e mais rápidos do que a maioria de nós na vida real.

Para ilustrar, vamos pegar uma cena da primeira temporada de 30 Rock. O personagem de Tina Fey, a Liz Lemon, é atacada por seu chefe, Jack Donaghy, que fica surpreso ao descobrir que o namorado de Liz vende pagers. Na vida real, esta cena poderia se desenrolar assim:

30 Rock

Ainda uma situação engraçada, mas sem a vivacidade do bom diálogo de TV. Veja como eles lidaram com o assunto em 30 Rock:

30 Rock2

A mesma informação é transmitida, mas de uma forma muito mais contundente do que aquilo que a maioria de nós poderia inventar na hora.

Por fim, certifique-se de sempre ler as suas falas em voz alta. Você não está escrevendo um romance, estas palavras são destinadas a serem interpretadas por atores, e você pode ficar surpreso com o quão diferente o diálogo pode soar fora da sua cabeça. Se você for corajoso, convide um amigo para ler o seu roteiro para você, e simplesmente escute como o seu roteiro soa quando falado. Você pode amá-lo, ou pode querer jogar o seu laptop pela janela afora e se mudar para outro país. De qualquer maneira, você vai acabar com um roteiro mais forte!

10- O Quadro Geral

Hoje em dia, a maioria dos programas televisivos é serializada, o que significa que eles têm arcos de temporadas em que várias histórias continuam de um episódio para o outro. Se você fosse um escritor da equipe de Extras, poderia ter ficado acordado a noite toda preocupando-se em como a transformação de Andy de extra para uma estrela da comédia poderia afetar a incomparável marca de humor maldito que fez a primeira temporada deste programa ser tão bem sucedida. Este não é o seu trabalho como escritor de roteiros de especulação! O seu roteiro de especulação original deve dar a impressão de ser vagamente referente à temporada mais recente de seu programa, mas não se atole em detalhes. Se Brent LeRoy decidiu tornar-se um vegetariano em um episódio recente de Corner Gas, ele certamente pode saborear um prato de ovos e lingüiça em seu roteiro!

Pilotos são uma história diferente. O seu programa original de meia-hora mostrando uma gangue de adolescentes multi-étnicos prontos para dominar o mundo das competições de comedores profissionais deve ser coeso e fundacional, ao mesmo tempo. O seu roteiro deve ter um começo, meio e fim claros, mas também deve introduzir um paradigma que pareça atraente para as temporadas vindouras. Esse é o verdadeiro truque da escrita de pilotos – como criar um roteiro que apresente todos os seus personagens dentro de um episódio conciso, mas que também exponha um bocado de problemas complexos e imprevistos que demandem solução episódio após episódio. Sarah e John podem ter explodido o exterminador no piloto de Terminator: The Sarah Connor Chronicles, mas é a existência duradoura da Skynet que motiva o resto da temporada!

11- A Diversão Está Em…

Se você não consegue terminar esta frase, então pare de escrever, pegue a sua roupa de banho, corra para a praia (ou banheira) e dê o seu melhor salto mortal na onda que se aproxima! Escrever deve ser divertido! Claro, existem os momentos desanimados, os momentos chatos, os momentos frustrantes, e os momentos em que você quer usar o seu roteiro como lenha – mas em algum lugar bem no fundo de você, lembre-se por que escolheu fazer isso em primeiro lugar. Porque você consegue criar todo um mundo de personagens, problemas e bons momentos. Porque você é engraçado, e quer que o mundo saiba disso. Porque o seu trabalho é uma droga, e ser um roteirista de TV é muito mais excitante do que lidar com os Recursos Humanos de um banco de crédito hipotecário. Quaisquer que foram as suas razões para começar a seguir por este caminho, elas provavelmente não mudaram. Escrever é incrível. E você é incrível por querer ser um escritor. Então, chega de procrastinação! De volta ao trabalho, meu amigo! Você está quase lá, apenas noventa e nove páginas e meia para acabar…

monitor-colorido

Boa escrita pra você hoje! 😀

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4 Comentários

  1. Adorei o texto, Valéria!

    Acho que ele mostrou os pontos principais da escrita para a TV, e resumiu bem a odisséia (muito prazerosa) que é criar uma série ou apenas um episódio para a telinha.

    Os amantes e roteiristas de cinema que me perdoem, mas a verdadeira emoção e ação dessa carreira está na televisão.

    P.S.: Só para ilustrar o começo do texto onde o autor menciona “The Rural Juror” de 30 Rock, uma cena do mesmo episódio: http://www.youtube.com/watch?v=6YDyjOimInA

    Comentário por Fernando — 12/12/2010 @ 22:55

    • Oi, Fernando! =D

      Que bom que você gostou do texto, eu também achei muito legal, uma mão na roda para nós que estamos escrevendo para a TV, não é mesmo? Concordo totalmente contigo! Escrever para o cinema tem as suas emoções, mas escrever para a TV é um nível totalmente diferente!

      Eu sei que a página sobre formatação para a TV não tem muito a ver conosco, já que fala especificamente dos seriados americanos atuais, mas vou traduzi-la em breve porque acho que dá uma ideia com exemplos práticos. A gente adapta pro nosso gosto, já que eu acredito que não haja um “padrão” de roteiro de seriado brasileiro (por enquanto!! :mrgreen: )

      Eu adorei o vídeo que você indicou. Devo confessar que nunca assisti nenhum capítulo de 30 Rock, e na verdade esta foi a primeiríssima cena que eu vi! Ri demais! Tive que ler o texto pra entender o que cargas d’água a mulher estava falando, depois que eu consegui acompanhar, não consegui parar de rir! Assisti várias vezes! Valeu pela indicação, Fernando, agora vou caçar os episódios, desde a primeira temporada, pra assistir! 😀

      Um beijo grande, Fernando, e obrigadão pela visita e pela contribuição, me deixou super feliz (como sempre!! 😀 😀 😀 )
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 14/12/2010 @ 10:11

  2. Oiii Valéria ! Tudo bom ?
    Então, a porta de entrada para a TV, como está citada na Escrita Astuta Para a TV – Parte 8, é o roteiro de especulação. Então, tudo que devemos fazer seria fazer um roteiro de expeculação do nosso jeito e mandar para um produtor de Tv ?

    E, no roteiro de TV, tem que colocar o Ato ? fico perdido quanto a isto…

    Um abração!!!!

    Comentário por Igor — 16/12/2010 @ 10:57

    • Oiii, Igor! Tudo beleza, e você? 😀

      Aqui o jeito mesmo é mandar roteiros de especulação para os diretores e produtores de TV (roteiros de séries originais, de preferência, mas também podem ser de seriados nacionais, caso você queira entrar para a equipe de escrita de algum deles, por exemplo). No Brasil nós não temos aquele mercado complexo, cheio de agentes, pitches e coisas do tipo, então temos de fazer o que está ao nosso alcance.

      Do mesmo jeito que um roteiro de cinema, não escrevemos a mudança de atos no roteiro de TV (pra falar a verdade tem gente que até faz isso, mas não é o mais comum), mas eles estão lá. Só não confundir os atos da história (3 atos / começo, meio e fim / apresentação, conflito e resolução) com os 5 atos de um seriado de uma hora de duração (que são as divisões para os intervalos comerciais, onde cada final de ato deve ter um gancho). A história ainda terá os três atos “aristotélicos”, mas precisa das pausas para os patrocinadores. Faça como o autor indicou: analise seus seriados favoritos, e aqueles que sejam semelhantes em gênero e duração ao que você está escrevendo, e então tente adaptar a sua história para o mesmo esquema de minutos/mudanças de atos. Isso também lhe ajudará a se tornar um escritor melhor, você observará sutilezas que não observa quando está assistindo como um simples espectador.

      Um abração, Igor, qualquer coisa estamos aí! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 16/12/2010 @ 22:08


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