Dicas de Roteiro

28/11/2010

Eu Não Amo Tudo Isso

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:30
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Olá! O texto de hoje foi escrito pela roteirista americana, Jane Espenson, e tirado do blog dela, Jane In Progress:

McDonalds-Por Quê Tão Sério

Aqui está como NÃO contar uma piada. Há um comercial do McDonald’s passando no momento em que os clientes falam sobre situações ruins. Um homem fala de "…quando a minha bagagem foi para as Bahamas … E eu não fui." Ah, a tentativa de piada é tão dolorosa! Piadas são sobre surpresas. Qual é a surpresa na segunda metade dessa frase? Não há nenhuma. É CLARO que ele não foi. Se ele tivesse ido para as Bahamas, ele não teria falado a primeira parte daquela maneira! Ninguém diz: "A minha bagagem foi para as Bahamas e eu me diverti muito lá." Não tem sentido.

O que torna isto realmente vergonhoso, é claro, é a elipse. A pausa é um artifício de comédia muito interessante. Você só pode usá-la quando o que se segue for realmente bom. É um investimento que o escritor (ou ator) está fazendo na piada. Se produz efeito, então produz mais efeito por causa da pausa. Mas se falhar, você perde tudo. Neste anúncio específico, a pausa não é tampouco apenas uma pausa curta, mas uma longa, com o ator virando-se para olhar para baixo, para em seguida uma ABERTURA REVELAR a mudança de plano, que nos mostra que o ator está em pé em um carrossel de bagagens quase vazio e daí ele olha de volta para a câmera para o "E eu não fui." Isso é peso demasiado para qualquer piada! Especialmente para uma com o erro fatal de não ser uma piada.

Eu dou este exemplo para ilustrar o oposto do que é chamado de "jogar fora". Jogar uma piada fora geralmente refere-se à parte da performance, falar uma piada de uma forma casual, sem preparação, sem uma pausa ou outro arranjo, e sem qualquer consciência aparente de ter dito alguma coisa engraçada. Também pode se referir à forma como uma piada é dirigida (por exemplo, sem mudanças de plano). E, importante para os nossos propósitos, à forma como uma piada é escrita.

Uma maneira de ter certeza de que uma piada está “jogada fora”,  é certificar-se de que deixou aquelas reticências de fora. Você também pode usar rubricas ou direções de palco para dizer ao ator como dizer a fala: "Casualmente", "Sem pausa", ou mesmo "Jogando-a fora" pode ajudar. Já que você provavelmente está escrevendo um roteiro de especulação, destinado a ser lido, e não interpretado, você nem precisa se preocupar se vai chatear o ator que não quer que lhe digam como contar uma piada.

Eu percebo agora que é isto o que o meu showrunner em um programa chamado Monty quis dizer quando nos disse para não colocarmos a palavra mais engraçada no final da frase, mas certificar-mo-nos de que a frase continuaria depois dela. Isto me pareceu ir contra um dos princípios básicos da escrita de piadas, mas agora eu vejo o valor disso. Ele queria um engraçado casual, fácil, "jogado fora"; não uma comédia carente de rim-shots [N.T.: Rufar de tambores, geralmente três batidas para sinalizar o final de uma piada], implorando por risos ao obedecer todas as regras de comédia-faça-fácil.

Se você quer ser mais engraçado do que o McDonald’s, escreva piadas de verdade; e se você realmente quer ser elegante, “jogue-as fora”.

mcdonalds

Boa escrita pra você hoje! palhaçada

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