Dicas de Roteiro

27/11/2010

A Bíblia do Roteirista – Parte 8

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 21:52
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Continuando o subcapítulo do último post, aqui vai mais um trecho do livro The Screenwriter’s Bible, de David Trottier:

Eu Amo Escrever

A APRESENTAÇÃO DE IDÉIAS LONGA (continuação)

Personalidade

Uma coisa é certa: Se estes executivos de desenvolvimento lhe contratarem, eles irão gastar muito tempo desenvolvendo a história com você. Então, tão importante quanto as suas ideias, é a sua personalidade. Algumas reuniões são providenciadas puramente para relações públicas, e para desenvolver contatos e relacionamentos. Em todo caso, eles querem saber como é trabalhar com você. Então identifique suas qualidades antes da reunião.

Existem quatro traços de personalidade que são fundamentais para qualquer situação quando você estiver se encontrando com tipos hollywoodianos: entusiasmo, objetividade, ambição e encanto.

Entusiasmo. Você tem um tom de voz convicto? Tem paixão por seu trabalho? Você passa confiança? Acredita em suas ideias? Eu não posso superenfatizar o poder do entusiasmo. Pelo mesmo motivo, não fique tão excitado a ponto de hiperventilar e desmaiar. Eles tiram pontos por isso.

Objetividade. Você consegue separar o seu ego do seu trabalho? Você consegue ser objetivo em relação às qualidades e defeitos de seu roteiro? Isto não diminui a sua paixão. Isso significa que você pode se adaptar ao que vem mais à frente: o inferno do desenvolvimento da história. ( O inferno do desenvolvimento da história se refere ao processo de trabalhar com as observações e outros feedbacks que você irá receber enquanto desenvolve o projeto.) Você pode se surpreender pelo modo como estes profissionais vêem o seu roteiro. Esteja aberto às críticas, mas seja diplomático e firme onde importa. Se você fica na defensiva e rígido, então é difícil de se trabalhar com você (do ponto de vista deles).

Ambição. Você ama este ramo? Você quer ser um escritor em tempo integral ou quer apenas escrever um roteiro ocasional na sua cabana na floresta?

Encanto. Você é encantador? As pessoas gostam de se encontrar e falar com você? Você tem algum charme natural? Você é o oposto de chato e desesperado?

Agora, não apresente uma personalidade de fachada, ou menospreze as qualidades que você não possui; apenas apresente o seu melhor lado, concentrando-se em seus pontos fortes.

Esteja preparado

Antes da reunião, descubra o máximo que você puder sobre a companhia e os indivíduos com as quais você está se encontrando. Se você tiver um agente, ele dever ser de grande ajuda nisso.

  • Quem são eles e quais são seus cargos?
  • Qual é o propósito da reunião do ponto de vista deles?
  • Quais são seus créditos mais recentes?
  • Em quais gêneros eles estão mais interessados? Quem é o público deles?
  • Qual é o maior artista que apareceu em suas produção mais recentes?
  • Eles trabalham com orçamentos altos ou baixos?
  • O que eles estão procurando agora?

Traga qualquer coisa que você ache que eles possam querer. Se eles ainda não viram um roteiro-amostra, traga um. Se uma análise profissional já foi escrita sobre o seu roteiro por um leitor profissional, e é positiva, traga-a.

Esteja preparado para responder perguntas. Esteja preparado para continuar a apresentação de sua ideia após os dois minutos iniciais terem passado. Tenha um par de outras ideias, ou ângulos diferentes sobre a mesma ideia – por via das dúvidas. Também, prepare uma pequena biografia sobre si mesmo. Isto não é algo que você entrega a eles na forma impressa. Você quer estar preparado para quando eles lhe perguntarem o que você já fez.

Também, eles podem lhe perguntar qual é o seu elenco ideal. Esteja pronto com ideias sobre a escolha do elenco. A razão de eles poderem perguntar isso é que isso os ajuda a ter uma imagem mais clara de como você vê os seus personagens. Raramente é para propósitos de escolha de elenco.

Finalmente, ao dirigir para o encontro, permita-se ter um tempo adequado para chegar e estacionar. Leve em consideração possíveis engarrafamentos. Seja pontual.

Criatividade

Ao preparar-se para a longa apresentação de ideias, você pode levar em consideração um toque criativo. Uma pequena inovação pode fazer a sua apresentação se destacar de dezenas de outras enfadonhas que entediaram a inteligência dos produtores naquela semana. Um cliente usou bonecos de brinquedo para representar seus personagens. Ele os apresentou um a um e os espalhou pela mesa. O executivo de desenvolvimento ficou encantado.

Entretanto, utilizar objetos cenográficos geralmente não é uma boa ideia, particularmente em uma apresentação curta. Não tente se apresentar interpretando teatralmente a sua ideia, e não contrate atores para representarem a sua ideia por você. Por outro lado, não tenha medo de usar a sua voz para enfatizar. Use o senso comum e ponha a sua criatividade dentro do conteúdo da sua apresentação.

Prática

A melhor maneira de todas de se preparar para uma apresentação de ideia é convidar alguns amigos e vizinhos para a sua casa e fazer uma apresentação de sua ideia para eles. Se a história parecer clara e interessante para eles, então sinta-se encorajado. Praticar a sua apresentação na frente de pessoas de verdade irá ajudá-lo imensamente a preparar-se para a situação real. Você pode até fazer uma simulação da reunião, do começo ao fim.

Você pode estar se perguntando: `Por que eu não posso simplesmente dar aos produtores uma sinopse da história por escrito? Por que eu tenho que apresentá-la?’. Por que eles não podem “legalmente” pedir nada por escrito sem pagar por ele. Isso é porque eles são signatários do Writers Guild of America. Entretanto, alguns escritores deixam uma sinopse ou argumento na mesa após suas apresentações.

Se um executivo pede por um argumento ou resumo, eu acho que é geralmente melhor se, ao invés disso, você se oferecer para apresentar o projeto para outros produtores por ele. Isso porque você pode transmitir mais entusiasmo por seu projeto do que um executivo de desenvolvimento. Tenha em mente que se alguém adora a sua ideia, ele vai precisar apresentá-la para os maiorais ou para outras companhias produtoras ou para os estúdios. Você deve ser útil a eles.

Se você está lidando com um produtor que não é signatário do Writers Guild, então você pode dar diretamente a ele uma sinopse ou argumento e evitar completamente a apresentação. 

O final feliz

Se a sua apresentação alcançar seu objetivo, lhe será oferecido um acordo de desenvolvimento. O seu primeiro acordo de desenvolvimento pode ser de 50 a 70 mil dólares. Provavelmente ele também será um acordo em etapas, o que significa que você pode ser rifado em qualquer etapa do processo de escrita. Lhe será pago uma parcela do preço total da compra a cada etapa. Apesar de existirem muitas possibilidades, pode funcionar assim: 25% adiantados, 25% pelo argumento (primeira etapa), 25% pela primeira versão (segundo passo), 25% pelo polimento (terceiro passo). Se, eventualmente, o filme for produzido, espere outros 50 a 100 mil dólares de bônus de produção.

Durante todo o processo de escrita, você receberá observações dos produtores e executivos responsáveis, e irá vivenciar em primeira mão o que tornou-se conhecido como o inferno do desenvolvimento da história. Pelo menos você está sendo pago.

Resumo

Você está vendo um padrão aqui? Funciona assim: Você escreve dois ou três roteiros de especulação. O roteiro de especulação que melhor mostrar o seu talento torna-se um roteiro-amostra que lhe arranja um trabalho. Algumas vezes você vende aquele roteiro de especulação logo de cara. Geralmente, não. Ao invés disso, torna-se uma daquelas varinhas bifurcadas [para encontrar água], que lhe ajuda a encontrar um agente e/ou lhe arranja um ingresso para uma reunião onde você pode lutar pelo seu sustento.

Laptop

Boa escrita pra você hoje!

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8 Comentários

  1. Ei Valéria, como vai?
    Espero que bem! =)

    Essa relação frente a frente com os executivos, deve contar pontos mesmo. Eles que descobrem novos personagens diariamente lendo os roteiros, por que não iriam analisar o roteirista? Agora, que deve ser uma guerra de egos, isso deve ser hein! hehe

    Abraço. =*

    Comentário por Diego Zon — 30/11/2010 @ 15:46

    • Oi, Diego, como vai?! 😀

      Tem razão, ter que ter talento de escritor e ainda por cima de vendedor também é dureza, além de guerra de egos, é uma guerra de nervos! Haja maracujina pra gente aguentar o tranco! Rsrs! Haja coração! :mrgreen:

      Um beijo grande, Diego, obrigadão pela visita! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 02/12/2010 @ 11:51

  2. Oi, amiga!

    Este texto nos ajuda muito e também mostra que é um processo bem complicado, mas não impossível de chegar lá.

    O lance de convidar amigos e treinar é uma boa idéia. Eu já fiz isso com minha história. Contei e até cheguei a atuar para eles. Foi muito divertido! Nos divertimos e rimos à beça! Mas o final foi melhor ainda, porque eles adoraram a história e disseram que estou perdendo tempo em não colocá-la urgentemente no papel.

    Creio que eles estão mais entusiasmados do que eu!

    Está na hora disso mudar, concorda?

    Beijão e obrigada! Sempre!

    ALOHA!

    Comentário por Eve — 30/11/2010 @ 17:38

    • Oi, amiga! 😀

      Legal saber que você já fez a sua apresentação para os amigos, eu nunca tentei isso, deve ser super interessante e divertido mesmo!

      E você ainda não escreveu a sua história?! COMO ASSIM?! Tá perdendo tempo, MININA! Ter talento (escrever bem) já é uma coisa rara, ter talento e vocação (gosto pela escrita) juntos, mais ainda. Ter talento, vocação e criatividade (ideias interessantes, que todo mundo gosta), e não aproveitar, é motivo suficiente pra metade do planeta querer te bater! E com razão! Que desperdício!!!! Pode não!!

      Ainda não está com a mão na massa? Como assim?! Não perca mais nem um segundo!! Larga logo esse blog pra lá e vá botar suas ideias no papel! Elas vão te trazer muitas alegrias, e muita diversão para nós, o público! Tô aguardando ansiosa! Sério!

      Um beijo grande, amiga! ALOLHA! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 02/12/2010 @ 12:10

  3. Hum estou seguindo já o Twitter =), e eu realmente nunca mesmo perder esse contato pois está me ajudando muito no meu segundo livro =). Beijos e sucesso \o

    Comentário por Juliana Ferreira — 01/12/2010 @ 01:59

    • Oi, Juliana!

      Que legal você estar seguindo o blog pelo Twitter, eu fico super feliz que ele esteja lhe ajudando com o seu livro. Aliás, foi bom você mencionar isso, o nome do blog é Dicas de ROTEIRO, mas todas essas dicas (exceto as especificas sobre formatação) servem perfeitamente para escrever livros, aliás, é até legal utilizá-las porque o livro sairá bem “cinematográfico”, e será fácil fácil transformá-lo em filme. E hoje em dia o público leitor aprecia mais histórias assim do que aquelas que apenas se baseiam no rebuscado das palavras, sem um fio condutor. Tomara que o seu livro seja um tremendo sucesso e de fato vire um filme também!

      Um beijão, Juliana, e obrigadão pela força! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 02/12/2010 @ 12:00

  4. Olá Valéria, estou gostando muito dos seus posts, estou meio sem tempo para passar aqui TODOS os dias, mas sempre que posso venho aqui.

    Eu queria te fazer uma pergunta sobre personagens: Todos eles tem que ter um conflito pessoal ? Há personagens sem nenhum conflito ou nenhum arco? (principalmente em serie de TV).

    Abração e uma otima semana !
    Igor.

    Comentário por Igor — 05/12/2010 @ 10:33

    • Oi, Igor! 😀

      Não se preocupe em passar aqui todos os dias, passe sempre que você sentir vontade, ou quando estiver procurando uma inspiração, que já está bom demais da conta!! :mrgreen:

      Existem, sim, personagens sem conflito e sem arco, são os coadjuvantes que apenas estão lá para servir de “ouvido” para os protagonistas, para que os personagens principais não fiquem falando para as paredes do que sentem e do que querem fazer. Em séries, existem muitos desses personagens, muitas vezes eles são cômicos (quando a história permite), e não sabemos praticamente nada sobre eles. A história não os afeta, nem para o bem, nem para o mal. Eles apenas observam a situação e dão pitaco na vida dos outros personagens (às vezes eles podem ajudar ou atrapalhar um pouquinho, mas nada que ofusque o mocinho ou o vilão). Nem sempre dá tempo de colocar arco em todos os personagens, e nem seria jogo, poderia distrair a atenção do público da história principal. Então apenas preste atenção no arco dos protagonistas e do vilão (ou vilões), que já está ótimo. Por exemplo, o assistente do vilão ou a melhor amiga da mocinha, não precisa necessariamente de um arco, a não ser que você queira fazer uma série em que ela terá um papel fundamental, aí, quanto mais ela tiver influência sobre a história, mais o personagem pedirá por um arco completo.

      É isso, Igor, espero ter ajudado. Vou tentar postar em breve alguns textos interessantes sobre personagens que li há alguns dias, espero que goste. 😀
      Um abração, Igor, e uma excelente semana pra você também!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/12/2010 @ 11:16


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