Dicas de Roteiro

24/11/2010

Os Cinco Alicerces do Terror

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:15
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Olá! Aqui vai mais um texto sobre este gênero que eu aprecio tanto! O artigo foi escrito por um dos meus “professores virtuais” de roteiro favoritos, William C. Martell, e tirado do site Storylink. Para quem entende um pouco de inglês, tem uma entrevista bem interessante dele no YouTube, em que ele fala da carreira, de como começou, qual foi seu melhor e pior filme (e por quê), entre outras coisas. Um detalhe que vale a pena mencionar aqui é que ele disse que escrever roteiros é ter disciplina. Ele se compromete a escrever todo dia cinco páginas de roteiro, sejam boas, sejam lixo, necessitem de reescrita ou não, mas ele sempre escreve as cinco páginas, com ou sem vontade de escrever, para manter o hábito. Isso é super importante. Cinco páginas ou quinze minutos mágicos, o fundamental é escrever todo dia, faça chuva ou faça sol! No final das contas, é isso o que nos torna escritores.

Agora vamos ao texto dele (com mais alguns gifs animados nojentos pra animar! :mrgreen: ):

Chorar pra quê

Pergunta: "Quais elementos precisam ser incluídos ao se escrever um filme de terror?"

Resposta: O Halloween está quase aí, então eu acho que você está pensando em escrever um roteiro de terror. Recentemente, eu entreguei a primeira versão de uma dessas refilmagens de estúdio de um filme de terror de sucesso dos anos 1980, então eu tenho passado um tempo com a Fangoria e nas Convenções Monsterpalooza, e assistido a uma pilha de filmes de terror para descobrir o que os torna assustadores. Eu os reduzi a cinco elementos:

1) A PERDA DO LIVRE-ARBÍTRIO: Em O Lobisomem (e outros filmes de lobisomem) você é uma pessoa normal até que haja uma lua cheia… então você meio que apaga, e acorda tendo feito coisas terríveis. Drácula pode hipnotizar as pessoas (eis porque você não deve olhá-lo nos olhos) e depois ele te morde? Você é a vadia dele. Em O Exorcista a filha de Chris MacNeil é possuída – a criança está fora de controle. Ela até perde o controle de sua bexiga!

Olhe a maioria dos filmes de terror e você verá pessoas perdendo o controle. Nos filmes da série Premonição, não importa o que você faz, se a morte lhe quiser, ela vai te pegar. Em um filme de terror você já não controla o seu destino, a sua vida… até o Ato 3.

2) O DESCONHECIDO/INVISÍVEL: Um dos principais alicerces do terror (e isto está ligado ao medo) é que você não sabe quando ou onde a criatura vai atacar. Você não vê cenas em que as pessoas entram em uma casa velha e assustadora, e a criatura simplesmente está em pé lá – não, a criatura está escondida em algum lugar nas sombras, mas que sombra? Tubarão é assustador porque sabemos que o tubarão está lá em baixo, mas não podemos ver exatamente onde. Toda vez que você puder encontrar uma maneira de esconder o seu monstro… em algum lugar… você criará medo porque não sabemos de onde o monstro virá.

Temos medo do desconhecido. Se o assassino for um cara que você conhece, não é tão assustador quanto seria se você não tivesse idéia do que é essa coisa. Você quer que o seu assassino/monstro/fantasma faça sentido, mas não quer acabar com a graça explicando o mistério.

3) SUSPENSE: A antecipação de uma ação. Em O Poço e o Pêndulo, temos aquela lâmina oscilante que fica mais baixa a cada balanço. Começa acima do estômago de Bernard, e a cada volta fica mais próxima de estripá-lo vivo.

No suspense nós sabemos o que está vindo, e o medo cresce a partir da antecipação do que sabemos que vai acontecer. Você tem dois trens em alta velocidade indo direto um para o outro nos mesmos trilhos! Você mostra uma armadilha, e então mostra alguém andando em direção a ela, sem perceber que está prestes a pisar na armadilha. Você deve alongar o suspense – fazer com que cada passo mais próximo daquela armadilha seja mais assustador.

4) MEDO: Igual ao suspense, mas esta é a antecipação de uma "ação" desconhecida. O medo é o elemento mais importante em um roteiro de terror. Quando o grupo decide explorar a instituição mental abandonada, rumores dizem que um assassino louco ainda mora lá, e eles vagam de uma assustadora sala escura para a outra. O público não sabe em qual quarto o louco assassino está… ou o que eles podem encontrar nos outros quartos: cadáveres?

O medo cresce quando o público sabe que algo ruim pode acontecer, mas não sabe o que pode ser. Normalmente, o escritor adianta alguma coisa assustadora (como o jovem Michael Myers matando a sua irmã e o namorado dela) nas dez primeiras páginas do roteiro, para que o público comece a temer o que pode acontecer depois (quando Michael escapa e retorna para Haddonfield). Não existe uma ação/ameaça específica, como no suspense, apenas o sentimento constante de que algo ruim vai acontecer.

Você roubou meu coração

5) CHOQUE/SURPRESA: Ajuda a aumentar o medo. É quando acontece algo que não esperamos. O oposto de suspense. As pessoas estão vagando por aquela instituição mental e bam! O assassino salta e corta fora uma de suas cabeças!

Todo mundo corre, e por um tempo o assassino os persegue com um aparelho de descascar maçãs que é a sua arma-assinatura… e conforme ele se aproxima, isso cria suspense (ele poderia pegá-los). Quando eles o despistam no labirinto da instituição mental e passam a vagar em busca de uma saída, isso cria medo (não sabemos onde ele está – depois da próxima esquina?). E quando eles viram uma esquina e – zás! – um gato salta sobre eles, isso é uma surpresa… Eu chamo isto de “susto barato”. Então, depois de eles dizerem: "É só um gato", e o público ter abaixado a guarda porque foi apenas um susto falso – zás! – o assassino salta por detrás deles e usa seu descascador de maçãs para matar mais um deles… girando-o até que ele tenha retirado a sua pele em uma única tira fina!

Esses cinco elementos são os alicerces de um roteiro de terror. Medo é mais importante do que sangue e tripas e maneiras incomuns de matar adolescentes enquanto estão no acampamento. Lembre-se, se não está na página, não está na tela.

O roteirista e professor William C. Martell é o autor de Os Segredos dos Roteiros de Ação, de numerosos DVDs e da série Blue Book (20 livretos, cada um focando uma parte específica do ofício). Martell já escreveu 19 filmes que foram "descuidadamente tascados em celulóide: 3 para a HBO, 2 para o Showtime, 2 para o USA Net, e um monte de Originais Cinemax."

Olhe pra mim 

Boa escrita de terror pra você hoje! Escrevendo perigosamente

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2 Comentários

  1. Simplemente gratificante e delicioso a leitura deste post, Elucidador e magnifico. Estou feliz por fazer parte. Grato. Parabéns e muito sucesso.
    Cleyrout

    Comentário por cleyrout resende câmara — 14/12/2010 @ 10:21

    • Olá, Cleyrout, como vai? 😀

      Que bom que você gostou do texto, isso me deixa muito feliz! O bacana dessas dicas é que elas servem tanto para roteiros, quanto para livros, principalmente se sua história tem potencial de passar de livro para o cinema. As bases são as mesmas.

      Um abração, Cleyrout, e muito sucesso pra você também! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 14/12/2010 @ 11:39


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