Dicas de Roteiro

07/11/2010

A Bíblia do Roteirista – Parte 2

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:18
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Continuando a nossa série, estamos de volta com mais um trecho do livro The Screenwriter’s Bible, de David Trottier. Lembrando novamente que esta edição é antiga e muita coisa mudou desde então (especialmente o que está relacionado com tecnologia e computação):

david-trottier

EXEMPLOS DE CARTAS DE CONSULTA

Como foi mencionado, as cartas de consulta podem ser usadas para abordar qualquer profissional da indústria. Sempre consulte antes de enviar um roteiro. Tenha em mente que o propósito da consulta é obter permissão para remeter o roteiro. Você consegue isso aguçando o leitor com a sua história. Aqui estão alguns exemplos de cartas de consulta.

O Mágico de Oz

Cara Sra. Big:

Um tornado lança uma jovem garota de fazenda em Oz, uma terra mágica onde ela deve derrotar bruxas vingativas e sinistros macacos voadores para encontrar seu caminho de casa. Enquanto procura por seu caminho de volta ao Kansas, Dorothy faz amizade com um leão covarde, um espantalho cabeça-de-vento e um sentimental, embora enferrujado, homem de lata lenhador. Cada um, como Dorothy, sente-se proscrito e fora de lugar.

Eles unem forças para procurar a ajuda do Mágico de Oz, lutando contra a Bruxa Malvada do Norte ao longo do caminho; mas quando finalmente destroem a bruxa e encontram o alegado mágico, eles descobrem que a benção que cada viajante procurava já estava com eles o tempo todo.

O meu mais recente roteiro, O Mágico de Oz, é uma fantasia direcionada para a família, semelhante a Guerra Nas Estrelas. Antes de escrevê-lo, eu escrevi e produzi um programa para uma TV a cabo comunitária sobre o homem de lata lenhador, e eu tive vários contos publicados no Diário Munchkin.

Eu gostaria de enviar o roteiro completo de O Mágico de Oz para a sua análise e possível representação. Um envelope selado e endereçado está incluído para a sua resposta, ou você pode me telefonar pelo 555/555-5555.

Sinceramente,

A carta acima foi criada pela roteirista Joni Sensel para o seu boletim informativo. Ela destaca em seu comentário que ela endereçaria a carta para um indivíduo. No primeiro parágrafo, ela identifica o protagonista, seus obstáculos e objetivo. Eu gosto especialmente da última frase sobre sentir-se proscrito e fora de lugar porque isso identifica uma emoção.

O segundo parágrafo conta à agente como Dorothy supera seus obstáculos. Ele identifica os oponentes e sugere a solução. Observe que a autora contou a história, mas não incluiu o conceito. A história por si só, neste caso, já é suficiente. Ele inclui personagens, conflito, ação, emoção e tema. O gênero está implícito.

O terceiro parágrafo refere-se a GUERRA NAS ESTRELAS. Isto liga o projeto a um sucesso comprovado e avisa ao agente que Oz pode fazer muita grana. (Geralmente é melhor referir-se a um sucesso atual; isso se o fizer.) Joni também indica o gênero e lista suas qualificações.

O quarto e o quinto parágrafos dizem ao agente o que fazer, de uma forma educada (sem implorar). A referência ao envelope selado é desnecessária – o envelope estará lá para o agente ver. Inclua o seu número de telefone como um extra, mesmo se ele já estiver impresso no cabeçalho da carta. Esta carta bem escrita flui suavemente e logicamente de pormenor a pormenor. Se você utilizar o telefone para fazer a consulta, seja do mesmo modo sucinto e seguro de si.

Cama de Mentiras

Esta carta foi fornecida por Kerry Cox, antigo editor da Hollywood Scriptwriter.

Cara Sra. Agente:

Treze anos atrás, J. T. Wheeler acordou às 5:30 da manhã, tomou banho, comeu um leve desjejum, e selvagemente assassinou sua família de quatro pessoas. Ele então pulou no seu Lexus e desapareceu da face da Terra.

Ou será que não?

É esta questão que Susan Morgan, esposa do proeminente advogado Lawrence Morgan, tem de responder rápido. O fato arrepiante é que, quanto mais ela se informa, mais ela percebe que aquele banho de sangue do Wheeler não só não foi o seu primeiro… como pode muito bem não ser o último.

E ela pode estar casada com ele.

CAMA DE MENTIRAS é um suspense psicológico e um mistério sombrio com uma forte protagonista feminina, um vilão profundamente assustador, e uma série de surpresas perturbadoras que levam a um derradeiro choque no final. É também uma história sobre confiança, traição, e a fina linha que separa as duas quando segredos estão enterrados entre marido e mulher.

Eu gostaria de enviar CAMA DE MENTIRAS para a sua consideração e possível representação. Eu já escrevi profissionalmente para televisão, rádio e imprensa, incluindo créditos na TV aberta e dois livros publicados. Eu também já trabalhei bastante como conselheiro de intervenção de crises para o Interagir, um grupo sem fins lucrativos especializado em gerenciamento de crises adolescentes e conjugais.

Eu incluí um cartão postal pré-pago para a sua resposta. Muito obrigado por seu tempo e consideração.

Sinceramente,

Kerry Cox

O primeiro parágrafo – com o remate Ou será que não? – é o gancho. A próxima seção é a história, incluindo o título, o gênero, e o tema subjacente sobre confiança e segredos. No próximo vêm as qualificações. O trabalho de Kerry como um conselheiro de intervenção de crises o qualifica como um especialista no assunto da história. Seu estilo de escrita combina com o espírito da história, e faz uso eficiente dos detalhes. Se sua consulta fosse para uma comédia, ele provavelmente teria escrito uma carta com uma inclinação engraçada. Pessoalmente, eu omitiria a última frase por ser desnecessária.

Coração do Silêncio

O que se segue é uma carta de consulta que venceu um concurso. Apesar do conteúdo da carta estar bom, a carta em si precisa de uma aparada. Eu eliminaria palavras, frases e orações que senti serem desnecessárias.

Em consultas como esta, muitas coisas estão subentendidas. Por exemplo, o agente vai perceber que a escritora concluiu um roteiro de longa-metragem original – por que mais ela estaria escrevendo? A força desta carta, acredito eu, reside no intrigante gancho do conceito: Um homem [é] forçado a confrontar a sua própria divindade quando a sua finada filha o resgata do suicídio.

Original

Cara Sra. Escolhaesse,

Eu concluí recentemente um roteiro de longa-metragem original intitulado CORAÇÃO DO SILÊNCIO. Ele conta a história de um homem forçado a confrontar a sua própria divindade quando a sua finada filha o resgata do suicídio. A versão teatral desta história, intitulada GRITO DE SILÊNCIO, ganhou em 1989 o Prêmio Kumu Kahua de Dramaturgia da Universidade do Havaí. O roteiro tem 104 páginas.

CORAÇÃO DO SILÊNCIO foi analisado por um leitor profissional, Kerry Cox, que comentou: “Um roteiro inteligentemente escrito, profissional e no formato apropriado. Seus personagens, em particular o marido, são bem delineados e realísticos.” Dalene Young, uma roteirista profissional, disse que o material era “emocionante, verossímil e dramático.”

Eu também concluí uma comédia de longa-metragem original intitulada RAINHA KONG. É uma paródia de KING KONG, na qual o herói é o amor da besta fêmea. Ele possui 110 páginas. Ambos roteiros estão disponíveis para o seu pedido como cópia impressa ou em disquete em WordPerfect 5.1 para IBM.

Além de meus próprios trabalhos, eu também estou interessada em trabalhar em reescritas e colaborações. Eu sou capaz de viajar para ir a reuniões em Los Angeles.

Obrigada por sua consideração.

Aloha Pumehana,

Karen Mitura

Revisada

Cara Sra. Escolhaesse,

CORAÇÃO DO SILÊNCIO conta a história de um homem forçado a confrontar a sua própria divindade quando a sua finada filha o resgata do suicídio. A minha versão teatral desta história ganhou em 1989 o Prêmio Kumu Kahua de Dramaturgia da Universidade do Havaí.

O roteiro foi analisado por um leitor profissional, Kerry Cox, que comentou: “Um roteiro inteligentemente escrito, profissional… seus personagens, em particular o marido, são bem delineados e realísticos.” Dalene Young, uma roteirista profissional, disse que o material era “emocionante, verossímil e dramático.”

Apesar de ter muitos roteiros e ideias de histórias, eu também estou interessada em escrever por atribuição. Eu sou capaz de viajar para Los Angeles para reuniões.

Eu ligarei para o seu escritório em breve. Eu espero poder falar com você ou com seu assistente.

Aloha Pumehana,

Karen Mitura

O primeiro parágrafo da carta revisada expõe o título, dá dica do gênero, aponta o gancho do conceito, e estabelece uma das qualificações de Karen como escritora. O segundo parágrafo continua com dois avais profissionais.

Na minha revisão, eu omito a referência à RAINHA KONG, mas informei à agente que a Karen já escreveu outros roteiros. Como regra geral, eu acredito que a sua consulta deve se focar em apenas um roteiro – a sua melhor aposta – mas pode mencionar o fato de você ter escrito outros roteiros. O terceiro parágrafo também mostra a flexibilidade da Karen e responde a uma possível dúvida – ela está disponível para viajar até Los Angeles para reuniões? Eu senti que este era um ponto-chave em sua carta, porque demonstra que ela entende do negócio. Ela se colocou no lugar da agente e antecipou a dúvida dela.

O quarto parágrafo declara que ela fará o acompanhamento pelo telefone. Se esta carta for enviada por fax, o parágrafo final começaria assim: “Eu ligarei para o seu escritório hoje mais tarde [ou amanhã].”

Você notou que eu não terminei com alguma expressão agradável ou declaração sobre querer representação. Eu acredito que o agente sabe instintivamente que o escritor procura por representação. Então por que declarar o óbvio? Eu reconheço que este é um ponto discutível. A maioria dos agentes prefere cartas curtas e cativantes. A concisão da carta revisada da Karen vale a pena ser imitada.

Você pode ter notado que a carta dela não conta a história toda. O pensamento aqui é de que apenas o conceito já é forte o suficiente para extrair uma resposta positiva.

carta Teremos mais exemplos de cartas de consulta no próximo post. Boa escrita hoje, e até lá!

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