Dicas de Roteiro

02/11/2010

A Bíblia do Roteirista – Parte 1

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:54
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Olá, atendendo a pedidos, hoje começamos mais uma série. É a tradução livre de alguns capítulos do final do livro The Screenwriter’s Bible, de David Trottier, editado pela Silman-James Press de Los Angeles [“Book V – How to Sell Your Script – A Marketing Plan” / “Livro V – Como Vender o Seu Roteiro – Um Plano de Marketing”]. O livro já está na 5ª edição, mas o que eu tenho é da 3ª edição. Este livro costuma ser mais citado pelos roteiristas profissionais americanos do que os do Syd Field e do Robert McKee e é uma pena que ainda não tenha sido editado em português. Só lembrando, quando e logo que este livro for editado em nossa língua, eu retirarei este e todos os outros posts relacionados imediatamente do ar.

Os assuntos abordados nesta série serão variados, desde como escrever uma carta para um produtor e como escrever sinopses, até como escrever argumentos, que é nosso objetivo principal. Só que o autor cita alguns capítulos anteriores, então tive de voltar um pouco atrás para que as explicações dele ficassem compreensíveis. Começamos na página 234:

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A Carta de Consulta

Neste negócio, tudo começa com uma carta de consulta. É como você geralmente faz o seu primeiro contato com qualquer pessoa. Nos casos em que você telefona, o telefonema irá se assemelhar à carta de consulta em estrutura, tom e conteúdo. Eu suponho que você poderia chamá-lo de “telefonema de consulta”.

Se você quiser abordar um produtor diretamente, sem nenhum agente ou recomendação, e você tiver uma ótima ideia de história, você poderia tentar ligar para o produtor. Você pode ter que apresentar a ideia para um assistente antes. Mas você pode ser capaz de conseguir uma reunião ou pelo menos a oportunidade de apresentar a sua ideia pelo telefone. Eu me apresso em acrescentar que apresentar a ideia pelo telefone é menos desejável do que apresentá-la pessoalmente.

A carta de consulta é a versão escrita da apresentação oral de sua ideia. O seu propósito é conseguir que o destinatário peça uma cópia de seu roteiro.

Uma das regras do jogo é que você nunca, nunca deve enviar um roteiro para ninguém, a menos que ele especificamente o peça. Você consegue que eles o peçam com uma carta de consulta. Mesmo quando você responder a anúncios solicitando roteiros, sempre mande a carta de consulta antes.

Cartas de consulta devem ser digitadas e impressas em papéis de gramatura média e de cores neutras (branco, marfim, cinza etc.), e parecerem profissionais. Você não precisa de um cabeçalho timbrado, mas certifique-se de incluir o seu nome, endereço, número de telefone, e número de fax. (O seu endereço de e-mail não é crucial.) Não dê a si mesmo o título de roteirista ou escritor – é um sinal de amadorismo. O conteúdo da carta deve ser conciso, categórico e intrigante. [N.T.: Como a edição deste livro é da época em que a internet ainda não estava tão difundida como hoje em dia, este detalhe do e-mail pode ter mudado. Sem contar que quase ninguém mais usa fax.]

Não pareça excessivamente íntimo, e não diga: “Eu vou fazer um milhão de dólares”, ou “Hoje é o seu dia de sorte”. Há uma grande diferença entre auto-confiança e presunção.

A sua carta de consulta comunica cinco coisas, e estas não estão em nenhuma ordem em particular:

1. A concepção da história em uma frase ou duas. Isto é feito com uma declaração da premissa (geralmente na forma de uma pergunta tipo “e se”), uma logline (a versão da história tipo Guia de TV), ou o gancho da história (por exemplo, “policial durão torna-se professor do jardim de infância”).

2. O título e o gênero. O gancho de abertura deve indicar o gênero. Se não o fizer, você pode querer declarar o gênero diretamente.

3. Uma breve apresentação da ideia da história em termos de personagem, conflito e ação – começo, meio e fim. A história não é sobre a máfia, é sobre uma pessoa da máfia com um problema. O sumário da sua história terá um ou dois parágrafos, sendo um melhor do que dois. Mostrar é melhor do que contar. Não diga que a sua história é lotada de ação e repleta de romance. Ao invés disso, escreva a carta de consulta de tal modo que o leitor perceba isso. Dê ao leitor uma razão para acreditar.

Não provoque o agente com declarações como: “Se você quiser saber como termina, terá de ler o roteiro.” Isso não vai funcionar. Se a sua história é bem forte, mas com uma concepção fraca, abra com a sua história e esqueça a concepção. O oposto também é verdadeiro. Mas forneça informação suficiente para que o agente ou produtor peça pelo seu roteiro.

Está tudo bem usar jargões de Hollywood e frases tais como “hip with an edge” [“na moda e provocante”] – apenas certifique-se de que elas estejam em uso corrente, porém não excessivamente usadas. Ler publicações da indústria lhe ajudará a encontrar aquela provocação que faz você ficar na moda.

4. As suas qualificações. Existem muitas maneiras de qualificar a si mesmo.

  • Recomendado por alguém do ramo. Neste caso, comece a sua carta com o nome daquela pessoa.
  • Qualquer experiência relacionada a cinema.
  • Qualquer experiência profissional de escrita. Seja breve. Não faça uma lista de artigos publicados em revistas, apenas diga que você foi publicado em uma série de edições nacionais.
  • Apoiado por um profissional. Os melhores apoios são de não-compradores, tais como escritores e atores na ativa. Inclua os testemunhos deles. Não cite um produtor, porque isso levanta a questão: Se ele gostou tanto do seu roteiro, por que ele não o comprou?
  • Especialidade no assunto. Se o seu personagem é um advogado de defesa e este é o seu meio de vida, mencione isso. Eu tive uma aluna que foi uma cantora de rock por dez anos, cujo roteiro era sobre uma cantora de rock. Eu falei para ela mencionar sua experiência.
  • Um diploma de uma reconhecida faculdade de Cinema – tal como UCLA, USC, NYU, ou AFI – apesar de que isso pode não ser tão impressionante quanto uma experiência real.

Se você não tem nenhuma qualificação, omita esta parte. Se você vive fora do estado, considere mencionar que está disposto a ir a Los Angeles para reuniões. Se você tiver escrito outros roteiros, mencione este fato para que o agente ou produtor não pense que aquele roteiro que você está apresentando é o seu primeiro e único.

5. Solicite permissão para remeter o seu roteiro. Alguns escritores incluem um envelope selado e auto-endereçado, ou um cartão postal, para tornar fácil para o interessado responder. No verso do cartão postal, dê ao interessado um par de opções para selecionar. (Uma será, “Sim, me envie uma cópia do seu roteiro CARGA DE AMOR” [ou qualquer que seja o título do seu roteiro].) Digite o nome dele ou dela na parte inferior, para que você saiba de onde veio.

Alguns escritores acreditam que o envelope ou o cartão postal selado e auto-endereçado é derrotista, então eles acrescentam uma frase à carta de consulta dizendo que irão fazer o acompanhamento em alguns dias. Se você mandou a sua carta de consulta por fax, termine com: “Eu irei telefonar em um dia ou dois”, já que você não pode mandar para eles um envelope selado por fax. Quando você ligar, peça ao assistente do agente ou do produtor permissão para enviar o roteiro a eles. Não se humilhe.

Você dever mandar a sua carta de consulta por fax ou por e-mail? Apesar de muitos escritores terem tido sucesso utilizando o fax, a minha recomendação é enviar a sua carta de consulta pelo correio na primeira vez que você estiver contatando alguém. Inclua um cartão postal. Em umas duas semanas, quando você fizer o acompanhamento por telefone, se eles não conseguirem encontrar a carta original, ofereça mandar uma duplicata por fax naquele exato momento.

Se alguém lhe diz que eles não aceitam manuscritos de pessoas que não conhecem, então peça a eles a indicação de um agente ou produtor que aceite. Você também poderia perguntar: “Posso ligar de volta em alguns meses para ver se alguma coisa mudou?” Ou então faça uso de seus poderes de persuasão para conseguir que eles apenas ouçam a sua ideia.

Não comece a sua carta com longas declarações sobre procurar por representação; eles sabem que você procura por representação. E não a termine com longas expressões de gratidão por sua consideração e tempo, ou dizendo o quanto você está esperando ansiosamente pela resposta deles. Eles sabem que você está grato e o quanto você quer a resposta deles. Estas expressões apenas ocupam espaço na carta e não lhe ajudam a conseguir uma resposta positiva.

Não envie o seu roteiro com uma carta de consulta. Não envie um argumento para um agente, a menos que seja solicitado. Um produtor, por outro lado, pode pedir um. Lembre-se, mais tipos hollywoodianos estarão interessados nos seus serviços (a sua habilidade de escrever) do que no seu produto (o seu roteiro).

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“Então o editor teve a coragem de me dizer que a minha carta de consulta não era profissional,

dá pra acreditar? Depois de todo o dinheiro que eu gastei contratando um palhaço PROFISSIONAL!”

Amanhã voltamos com exemplos de cartas de consulta. Boa escrita pra você hoje, e até lá! 😀

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3 Comentários

  1. Olá, Valéria!

    Legal esse lance de “Carta de Consulta”.

    Sabe, eu já tinha pensando nisso, mas tipo um “e-mail de apresentação”, vamos dizer assim.

    Sem querer desanimar, mas cada dia eu me convenço do quanto é complicado conseguir, pelo menos, um “olá” desse povo cinematográfico.

    Essa semana, li uma frase que gostaria de compartilhar com todos.

    Na verdade, é um trecho da música “Mais uma Vez” de Renato Russo e Flávio Venturini. Diz assim:

    ‎”Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem ou que seus planos nunca vão dar certo ou que você nunca vai ser alguém. Quem acredita sempre alcança!”

    Bom, amiga, eu não estou numa fase muito legal e essa música me fez levantar (um pouquinho) a cabeça!

    Quem sabe ajude a outros também.

    Saudades, viu?

    Beijão, amiga!

    Eve.

    Comentário por Eve — 05/11/2010 @ 12:59

  2. Ops…

    “Sabe, eu já havia pensado nisso…”

    É isso! 😉

    Bjs.

    Comentário por Eve — 05/11/2010 @ 13:02

    • Oi, Eve!

      Eu fico triste de saber que você não anda numa fase boa, mas entendo completamente porque, na verdade, somos duas. Eu também gosto muito da letra dessa música, o interessante é que ela foi encontrada numa gaveta na casa do Renato Russo, um bom tempo depois do falecimento dele. Ele deixou uma bela e inspiradora mensagem de herança, não é mesmo?

      Um grande abraço, amiga (cheio de saudades também), torcendo para que tudo melhore para todos nós, que os caminhos se abram e que a vida seja sempre cheia de recompensas, em todos os sentidos! Beijos! Um ótimo fim de semana procê! 😀
      ALOHA!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/11/2010 @ 07:50


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