Dicas de Roteiro

24/10/2010

Escrita Astuta Para a TV – Parte 11

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:09
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Oi! Aqui vai a antepenúltima parte de nossa série baseada no livro de Alex Epstein, Crafty TV Writing, publicado em seu site, Crafty Screenwriting:

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Capítulo 9: Subindo na Cadeia Alimentar

Editores de história

Não há nenhuma diferença qualitativa entre as descrições de trabalho de um editor de história e as de um co-produtor executivo. Ambos escrevem roteiros. Ambos reescrevem roteiros. Ambos dividem a história. Só que um está acima do outro. Um editor de história pode acabar reescrevendo um roteiro de um co-produtor executivo, mas é muito mais provável que o co-produtor executivo faça a análise final do roteiro do editor de história; e, claro, o showrunner reescreve os de todos, se o tempo permitir.

Como qualquer cargo, diferentes cargos de escrita possuem diferentes protocolos. Alguns são igualitários. Os créditos significam pouco mais do que quem é melhor pago. Outros são hierárquicos: editores de história subalternos devem manter suas bocas fechadas na sala, a menos que o editor executivo de história peça a sua opinião. Marc Abrams (The Bernie Mac Show):

Conforme você passa de programa para programa, aprende que cada um tem a sua própria temperatura e a sua própria etiqueta. Você reconhece o seu papel naquele programa específico. Alguns showrunners encorajam os escritores de nível inferior a lançarem idéias, outros não. Alguns querem idéias bem pensadas antes de serem apresentadas, outros gostam de ouvir o cerne de uma idéia que possa ser expandido.

Um bom editor de história é um jogador de equipe. Apesar de que você precisa ter os seus roteiros feitos a tempo, também precisa fazer a sua parte para certificar-se de que a equipe de escrita como um todo continue produzindo os roteiros com tranquilidade. Isso pode significar ajudar outro escritor a re-dividir uma história, ou fazer o brainstorm de uma cena com a qual ele esteja tendo dificuldades para escrever. Às vezes, para ajudar um escritor a cumprir um prazo, você vai escrever um ato, ou uma história B. Quando um roteiro está seriamente atrasado, todo mundo pode escrever um ato – isso chama-se "fazer suruba" com um roteiro.

Sempre que você não estiver ocupado – todos os seus próprios roteiros estão prontos ou à espera de comentários – você deve ficar criando novos lances de história para os últimos episódios. Uma temporada de treze episódios pode ser escolhida para continuar, e de repente há a necessidade de dezoito novas histórias. Melinda Hsu:

E você deve sempre, sempre se relacionar bem e fazer mais do que a sua parte. Dê às outras pessoas o crédito pelas idéias que elas tiveram; agradeça às pessoas por sua ajuda; permaneça no escritório até que as pessoas de nível superior ao seu saiam no final do expediente; esteja na sua mesa mesmo que nada de especial esteja acontecendo; não fale pelas costas das pessoas; não seja exigente; não seja louco ou arrogante ou desorganizado ou lento ou difícil de se trabalhar. Não perca prazos, não importa o quão compreensivos os seus colegas e patrões pareçam ser.

Ser um jogador de equipe aplica-se não apenas àqueles projetos nos quais você trabalha, mas como você trata as suas próprias ideias. Um bom jogador de basquete passa a bola para a pessoa que tem a melhor chance de acertar a cesta; ele só vai lançar para a cesta se tiver a melhor chance. Um bom editor de história ajuda a história a ir na direção que parece ser a melhor para ela. Se a ideia for sua, ótimo. Se ideia de alguém funcionar melhor, vá com a dele. Melinda Hsu:

Você quer manter a conversa em movimento e as idéias fluindo, mas não pode simplesmente deixar escapar tudo o que aparece em sua cabeça porque você precisa respeitar a direção na qual a história já está se movendo (a menos que você tenha uma idéia incrivelmente genial). E mesmo caso você tenha uma idéia genial e ela seja rejeitada, você tem que imediatamente deixá-la de lado e não levar para o lado pessoal. Algumas das piores coisas que se pode fazer em uma sala, são:

a) permanecer irremovivelmente fixado em uma única idéia,

b) não sugerir nem uma única ideia, e

c) fracassar em acompanhar a discussão – por exemplo, esquecer as idéias descartadas que já foram levantadas, não seguir as reviravoltas da história que os outros escritores estão propondo, não pensar rápido o suficiente e ter que ter coisas repetidas e re-explicadas para o seu benefício.

É uma habilidade importante saber quando não dizer nada, mesmo que você fizesse diferente se estivesse no comando; e saber como alcançar o resto apenas escutando, quando você perceber que não entendeu muito bem a última reviravolta na história que foi proposta.

Como em qualquer cargo, mesmo em uma situação igualitária, é preciso lembrar quem está trabalhando para quem. Eu perguntei a Paul Guyot qual é o maior erro que os editores de história tendem a fazer no trabalho:

Pensar que sabem mais do que os produtores executivos. Não, eu retiro isso. É abrir a boca e dizer que sabem mais do que os produtores executivos. Você pode ser um editor de história ou mesmo um escritor de equipe, e pode muito bem saber muito mais do que o produtor executivo. Mas mantenha a sua boca fechada. É o programa dele, não o seu. Cale a boca e faça o seu trabalho.

Chris Abbott reforça essa emoção, advertindo contra "não reverenciar o suficiente o produtor executivo." E Kay Reindl (Twilight Zone, Millennium):

Embora um showrunner possa insistir que todos na sala têm voz igual, um escritor de equipe que sempre faz comentários não solicitados para alguém acima dele é considerado problema. Você pode ser o escritor mais brilhante de todos os tempos, mas numa equipe você ainda é um escritor-bebê e está lá para aprender. Ninguém gosta de um escritor de equipe atrevido! Eu já trabalhei com escritores de equipe ansiosos que faziam um ótimo trabalho e aprendiam muito, e escritores de equipe que realmente precisavam parar de falar. Então, apenas lembre que você está ali para aprender tanto como se faz as coisas direito quanto como não se faz as coisas.

Não é uma má idéia de vez em quando checar com o seu chefe, para ver se há algo que você poderia estar fazendo a mais ou a menos. Só porque alguém está num cargo superior ao seu, isso não significa que ele se sinta confortável criticando você. Eles podem não dizer nada até que aquilo se torne um problema. Não deixe chegar até esse ponto. Torne fácil para eles criticarem. Peça que eles o façam.

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Boa escrita pra você hoje! 😀

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3 Comentários

  1. Valéria,

    Chegou um momento que tenho que te perguntar algo. Uma opinião sua, na verdade. Não temos um mercado aberto para seriados, certo? Bom, pelo menos não é como nos Estados Unidos que tem agentes literários às pencas (suficientes ao menos para conseguirmos errar na escolha) e eles nos levarem para dentro de alguma produção. Aqui é tudo muito fechado. Quase uma máfia da televisão.

    Eu acredito que a saída desse problema, e entrada para os nossos projetos na TV, seria a TV a cabo que começa agora a querer produzir conteúdo original no Brasil — na América Latina isso começou há um tempo.

    Já li que nos Estados Unidos conseguir um bom agente é tão disputado, que é mais fácil uma produtora ler seu roteiro do que um agente literário. Como aqui no Brasil eu nunca ouvi falar em agentes literários para a TV, seria essa a solução para nós que sonhamos em ter uma obra produzida para a TV? Conseguir com que uma produtora independente se interesse pelo projeto e daí eles levarem para algum canal pago?

    Meu plano até o momento é esse: escrever um original (afinal, para O QUÊ vamos escrever um roteiro de especulação se não tem produto no mercado, muito menos disposição das emissoras para gente nova?) e oferecer para uma produtora e daí chegar a uma emissora PAGA. Porque cá entre nós, o povo brasileiro e muito tradicional (para não falar careta e chato) e logo as emissoras abertas precisam seguir esse padrão, e inovar em uma emissora aberta com uma série tipo ALIAS, por exemplo (não é o caso da minha série), acredito que NUNCA ira acontecer no Brasil.

    Gostaria de saber o que acha dessa estratégia e se acha que seria a melhor opção para nós aspirantes a roteiristas.

    Abraços,

    Fernando.

    Comentário por Fernando — 24/10/2010 @ 17:19

    • Olá, Fernando! 😀

      Você está certíssimo. No Brasil não temos essa tradição de agentes literários especializados em TV (nem em Cinema, pra falar a verdade). E não tem mesmo lógica fazer um roteiro de especulação de algum seriado já existente, a não ser que a pessoa queira muito trabalhar na equipe de escrita de A Grande Família ou do SOS Emergência, por exemplo. Mandar roteiros para produtoras independentes é uma ótima pedida, não apenas para acabar sendo produzido na TV a cabo, mas na TV aberta também (muitas produtoras independentes co-produzem com as maiores redes televisivas) e, atualmente, até para a internet. Existem novos seriados serem feitos especialmente para a internet aqui no Brasil, e acredito que isso ainda vai virar uma febre. No Japão tem uma outra febre curiosa que poderia ser interessante para nós: os romances (livros) divulgados em capítulos curtos através do Twitter. Muitos são sucessos estrondosos que acabam sendo comprados para virarem filmes de longa-metragem e doramas (seriados dramáticos em capítulos). É o uso criativo de novas tecnologias. Algumas pessoas já conseguem fazer sucesso escrevendo seus textos em blogs, e depois transformando-os em livros. A internet acaba sendo o trampolim para quem não tem acesso a este ramo fechadíssimo.

      O importante é a gente tentar tudo o que puder, o que dá certo para uns, não dá certo para outros, e a gente só vai saber o que dá certo pra gente tentando.

      A diferença da TV aberta para a TV paga é que a TV aberta tem investido muito mais em séries novas, mas está fechada com seus escritores estabelecidos. A TV paga pode ousar mais, mas tem muito enlatado vindo do exterior, a oferta é imensa e barata, e muitas vezes ela pode não ver muita vantagem em produzir muito conteúdo nacional. Fica caro e não tem tanta garantia de retorno do que comprar algo que já fez sucesso no exterior. Ambas as TVs têm seus prós e seus contras, por isso que eu acho que precisamos mandar nosso trabalho para todas elas, podemos até nos surpreender, quem sabe?

      É isso, Fernando, é claro que essas são apenas as minhas opiniões, talvez eu esteja redondamente enganada, mas espero ter ajudado em algo!

      Um abração, Fernando! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/10/2010 @ 09:48

      • Obrigado, Valéria!

        Concordo com você também. Muito obrigado pela ajuda! Acho que temos que ouvir (ou ler) as pessoas para aprender, logo já aprendi um bocado com suas opiniões.

        Até mais!

        Comentário por Fernando — 26/10/2010 @ 10:23


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