Dicas de Roteiro

01/10/2010

Escrita Astuta Para a TV – Parte 6

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:12
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Olá! Depois de uma pausa involuntária, voltamos para continuar a nossa série de textos tirados do livro Crafty TV Writing, do roteirista Alex Epstein, postados originalmente no site dele, Crafty Screenwriting:

TV_laranja

Capítulo 5: Trazendo a Comicidade

Justaposição

Surpreender as expectativas do seu público com um non sequitur não é engraçado. [N.T.: Um non sequitur é um argumento no qual a conclusão não segue as premissas. É uma falácia lógica. Entretanto, é usualmente utilizado para classificar um argumento onde a conclusão claramente nunca segue as premissas. Devido a ser uma falácia muito geral, tende a ter mais de uma classificação.] Você tem que ter um toque cômico. Isso é a justaposição de duas coisas que o público não espera que venham juntas, mas que têm um ponto de referência que permite que o escritor faça uma conexão entre elas. O que torna a justaposição engraçada é que não supõe-se que ela se encaixe, mas meio que ela quase o faz.

Como Kevin Bleyer (Politically Incorrect) diz: "…. muito da comédia é contrastar duas coisas improváveis e ampliar a metáfora além do aspecto prático."

Você pode fazer uma criança de um ano de idade rir ao colocar um copo de medição em sua cabeça, feito um chapéu. Ela sabe que um copo de medição não é um chapéu. Mas ele meio que se parece com um chapéu, por isso é engraçado. Colocar macarrão na sua cabeça não vai nem chegar perto da mesma risada, porque macarrão não se parece com chapéu. Embora se pareça com cabelo. Você pode tentar isso por conta própria, como um experimento, se você se esquecer de usar a contracepção.

Jogo de palavras é justaposição a nível linguístico. Um trocadilho é usar o som de uma palavra para justapô-la com algo que ela não significa. Como o meu avô Sam disse depois que seus amigos o trancaram em um armário até ele prometer nunca mais falar outro trocadilho: "mas, por favor, abram a porta." [N.T.: Não traduzi este trocadilho. Trocadilhos são uma das coisas que mais se perdem na tradução de filmes, por isso, se você quer que seu filme seja um sucesso universal, é aconselhável evitá-los. A frase original dizia: : “but please o-pun the door.” Sam trocou open (abrir) por o-pun, de som similar, sendo “pun”, “trocadilho” em inglês].

As melhores justaposições, como as melhores metáforas, significam alguma coisa. A estranha justaposição lança luz sobre o conteúdo original. Na metáfora, o "teor" é o conteúdo; o "veículo" é ao que o conteúdo está sendo comparado. Nas melhores justaposições, sejam metafóricas ou cômicas, o veículo lhe diz algo sobre o teor. O trocadilho do meu avô não iluminou a expressão "abrir a porta" de nenhuma forma. É por isso que seus amigos o jogaram na baía Sheepshead.

Trocadilhos raramente são engraçados na tela. Mas uma gag que geralmente funciona é usar uma retórica familiar numa situação errada: Essa gag ocorre quando os personagens estão falando sobre uma coisa, mas o diálogo parece ser proveniente de um outro tipo de cena. Em Friends, "Aquela Com o Leite Materno", Monica foi às compras com a nova namorada de Ross, Julie, escondida de Rachel. Rachel se sente traída.

Friends

O conteúdo pode ser fazer compras, mas os clichês que as garotas estão usando vêm de adultério. O que torna a cena tão notável é que, tanto para a Rachel quanto para a Monica, fazer compras é uma atividade tão excitante quanto fazer sexo, portanto a Monica fazer compras com a Julie, é como trair a Raquel com ela. Se tivesse sido o Joey quem passou algum tempo com a Julie, Rachel teria tido a mesma queixa básica – o mesmo teor – mas sem o toque cômico – o veículo.

Note que o que faz esta gag funcionar é que a cena está completamente comprometida com a retórica de adultério. Courteney Cox e Jennifer Aniston interpretam a cena até o fim, Aniston se comportando em todos os sentidos como a amante traída, Cox pedindo desculpas e minimizando o ato exatamente do jeito envergonhado que um traidor faria. Se a cena usasse apenas um ou dois clichês de adultério, ou se Cox interpretasse a cena menos culpada, ou Aniston, menos traída, ela não seria tão engraçada.

Outra piada típica é o "Squiggy", também conhecido como o "Olá, piada." É quando a resposta a uma pergunta retórica é fornecida pela entrada de um outro personagem:

Squiggy

O compromisso está na primeira linha, onde esperamos que a resposta seja “ninguém”. A justaposição – e a surpresa – ocorre quando Squiggy aparece e nós percebemos que sim, realmente existe alguém que faria aquilo. Idem para "o vestido vermelho", também conhecido como “o corte engraçado” ou “o corte de Gilligan”, quando um personagem afirma que ele nunca faria algo, e então corta para ele fazendo aquilo:

Gilligan

Gilligan fecha-se em sua posição e em seguida é surpreendido, sob a forma de uma justaposição cômica: um cara pateta usando um vestido vermelho.

Boa escrita pra você hoje! 😀

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