Dicas de Roteiro

07/09/2010

Escrita Astuta Para a TV – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 20:11
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Olá! Estamos de volta com mais um subcapítulo do livro Crafty TV Writing do roteirista Alex Epstein, tirado do site dele, Crafty Screenwriting:

Menino vendo TV

Capítulo 4: Escrita Ruim e Como Consertá-la (Ou Pelo Menos Se Safar)

Puxar Versus Empurrar

A chave para contar uma boa história, seja na frente de uma fogueira ou nas telas, é atrair o seu público para a história. Quando o seu público está totalmente envolvido na história, ele está dando vida aos seus personagens. Eles estão preenchendo tudo o que acontece entre os momentos que você está mostrando na tela. Eles estão antecipando o que vai acontecer a seguir. Eles estão torcendo por aquilo que esperam que aconteça, ou torcendo contra o que temem que vá acontecer.

Empurrar é dar ao público mais história do que eles podem absorver. Se você está empurrando a história para eles, você não está puxando-os para a história. Você os puxa ao dar-lhes motivos para querer mais história do que você lhes deu até agora.

É a diferença entre uma palestra e uma conversa. Uma palestra pode transmitir informações mais completas do que uma conversa, mas você frequentemente capta mais informação de uma conversa, porque está ativamente engajado na mesma. Mais importante, você ainda capta uma reação emocional de uma conversa. É por isso que nenhum discurso está completo sem perguntas e respostas. Se não há nenhum modo de participar da história, é difícil se preocupar com o que acontece.

Em uma história clássica de detetive, você quer puxar o público para dentro da história através da criação de perguntas que o público irá adotar como suas. Uma vez que eles tenham perguntas, o detetive encontra as respostas. Você nunca dá uma resposta até ter determinado adequadamente a questão, para que o público esteja lá com o detetive, tentando resolver o enigma. Se o detetive (ou a câmera) está descobrindo pistas mais rápido do que o público pode fazer perguntas, o público é reduzido a um passageiro, e está pensando: "Acorde-me quando chegarmos lá."

Se você puxá-los, eles irão se puxar para dentro. Se você empurrá-los, eles vão se empurrar para fora.

O mesmo é verdadeiro para uma história emocional. Queremos a questão antes de obtermos a resposta. Irá Ross se atrever a beijar Rachel? Irá  Rachel estapeá-lo se ele o fizer? Se não soubermos o que está em jogo – o que devemos aguardar ou temer – então, quando acontecer, não teremos nenhuma participação no resultado.

Em um drama, você quer que o público torça para que o personagem principal chegue emocionalmente a algum lugar. Eles deveriam sentir a tensão dramática e querê-la liberada. Se o drama é resolvido mais rápido do que a construção da tensão, você está apenas empurrando acontecimentos dramáticos para a platéia.

Empurrar geralmente torna-se óbvio só depois de você ter escrito um primeiro rascunho.

Parte disso é apenas ritmo. Em um filme de terror, todos nós amamos o momento em que o personagem faz uma pausa no lado de fora da casa mal-assombrada, perguntando-se se entra ou não. Esse é o momento em que gritamos: "Não entre na casa!" Se você mostra o personagem saindo do carro e então corta para o momento em que ele de fato abre a porta da frente – se você perde o momento de decidir – a história é a mesma, mas você está apenas empurrando a história para o público. É a pausa que cria o momento.

Deixe as suas cenas respirarem. Dê aos seus personagens tempo para refletirem, e ponderarem, e fazerem pausas. Dê-lhes tempo para absorver os choques emocionais, que também é o momento para começarmos a pensar como eles vão reagir. Não avance para o próximo beat antes de ter dado aos personagens, e ao público, o tempo para absorver o atual.

Às vezes, quando uma cena dá a sensação de ser lenta demais, o problema real é o oposto. Você está indo rápido demais. Você não está deixando os espectadores absorverem a emoção da cena. Então, eles se envolveram menos nela. Já que eles não se importam, estão entediados. Eles querem que você passe para algo mais interessante. A cena parece lenta. Mas se você desacelera a cena e a deixa respirar, ela passa a sensação de ser mais significativa e mais profunda, e o público não estará tão ansioso para seguir em frente. Eles estarão felizes de permanecer na cena. Ela parece estar no ritmo certo.

Reduzir o ritmo pode ser um pouco difícil quando você estabeleceu um cronômetro na ação. Quem tem tempo para parar e conversar quando uma bomba está para explodir? Se o que está em jogo é a destruição do mundo, quando haverá tempo para o herói fazer uma pausa e ser humano?

Os roteiristas normalmente camuflam o problema, e ficamos felizes por eles o fazerem. Há reuniões lacrimosas em todos os suspenses, mesmo quando cada segundo conta. Soldados em uma terra de ninguém irão parar para abraçar seu companheiro morrendo, enquanto as balas estão assobiando e eles deveriam mergulhar para se protegerem. Ainda em 24 Horas, onde cada minuto é levado em conta, e milhões de vidas estão literalmente em jogo, os personagens tiram um tempo para entregarem-se às suas emoções.

Melhor do que camuflar o problema, prenda os seus personagens em algum lugar por um tempinho. Se eles estiverem em um carro a caminho de um destino, eles têm tempo para conversar, e se emocionar, porque já estão fazendo tudo o que podem. Se estiverem presos em uma gaiola ou um elevador, e não puderem sair até que alguém venha até eles, eles podem aproveitar o momento e se envolverem emocionalmente: chorar, ou enfurecer-se, ou reconciliar-se, ou acusar. Eles também têm tempo, se estiverem se escondendo. Então eles têm que se emocionar em silêncio, o que pode ser ainda mais eficaz.

Ou, segure aquele pedaço crucial de informação que irá enviá-los em sua missão de vida ou morte, até eles terem tido a sua cena dramática. O público pode saber que os personagens estão fora do tempo, mas não deixe que os personagens descubram isso até terem tido a oportunidade de absorverem o impacto emocional dos eventos pelos quais já passaram.

O público pode saber mais do que o herói. Isso automaticamente estabelece uma boa tensão. O público quer contar ao herói o que ele não sabe – "cuidado, ele tem uma faca!" e isso os atrai para a história. Mas o herói nunca pode saber substancialmente mais do que o público. Se há algo que o herói sabe que nós precisamos saber a fim de apreciar a enrascada em que ele está, então conte-nos o mais rápido possível e, certamente, antes que a enrascada se torne urgente. Podemos estar envolvidos na história se o herói não souber o que está acontecendo – como ele, nós estaremos envolvidos no processo de descobrir isso. Mas não podemos estar envolvidos na história se ele sabe o que está acontecendo, mas nós não.

Na música dançante africana, os bateristas tamborilam tudo, menos o ritmo; eles deixam o público preenchê-lo por si mesmos com seus pés. Deixe espaço para o público participar da história. Histórias de detetives são todas sobre as perguntas, e não sobre o resultado. Uma vez que o resultado saia, a história termina, enfim. Histórias dramáticas são todas sobre a luta, não sobre a decisão. Não resolva os seus problemas dramáticos até estar pronto para levantar novas questões dramáticas. Deve sempre haver alguma coisa para puxar o espectador para a história.

puxar pelos cabelos

Ah, não resisti, tive que colocar este cartoon! 😆 Boa escrita pra você hoje! :mrgreen:

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2 Comentários

  1. Meu, muito, muito dez esses extratos desse livro desse Epstein. Ele consegue dar a questões (técnicas) essenciais uma deliciosa leitura.

    (Deixei há muito de tecer comentário, mas não nunca deixei de ficar de olho, viu, Valéria? rs.)

    Comentário por Cícero Soares — 25/09/2010 @ 22:50

    • Olá, Cícero, que legal ver você de novo por aqui! 😀 😀 😀

      Eu também gostei muito do texto do Epstein, ele explica mesmo, sem querer esconder o jogo. Por isso vou também traduzir os trechos que ele disponibilizou do outro livro dele, sobre roteiros de cinema. Eu estou doida pra comprá-los, mas atualmente estou sem condições ($$$). Snif!

      Mas, enquanto isso, a gente vai ficando com esses interessantes trechos, eles já são um ótimo material de estudo.

      Obrigadão, Cícero, por continuar nos acompanhando, eu prezo muito sua companhia! Um beijão, e obrigada pela mensagem! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 27/09/2010 @ 10:40


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