Dicas de Roteiro

06/09/2010

Quem te viu, quem te vê

Filed under: Direção,Produção,Roteiro — valeriaolivetti @ 11:43
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O post de hoje não é uma tradução, mas uma transcrição de uma coluna da Revista O Globo do dia 25 de julho de 2010 (página 40), onde a colunista convidada, a cineasta Sandra Werneck* fala sobre a situação atual do cinema brasileiro. Muito importante pra gente meditar e refletir, pois o futuro do nosso cinema vai depender das soluções que esta e as próximas gerações encontrarem para estes problemas. O título do post é o título original da coluna. Vamos a ela:

sonhos roubados set curicica

Ao terminar um filme, todo diretor brasileiro inevitavelmente se pergunta: onde será exibido meu trabalho?

Nos Estados Unidos, segunda indústria cinematográfica do mundo, os roteiros nascem atrelados à produção e à distribuição. Ninguém faz filmes para sessões de cinemateca.

Nosso cinema alcançou qualidade internacional. Este ano, há uma previsão de 80 novos títulos. Será que esses filmes terão espaço no circuito exibidor? Os distribuidores vivem atrelados ao cinema americano e seus blockbusters. O trinômio produção-distribuição-exibição faz de Hollywood a segunda meca do cinema, superada apenas pela Índia. Mas, para nós, é ainda o maior, uma vez que produções indianas não têm penetração no Brasil. Nesse aspecto, a França é o único país que equilibra o número de espectadores de filmes franceses com o de filmes americanos.

O interesse do exibidor é focado em filmes de sucesso. Ora, um blockbuster não chega ao exibidor de forma isolada, mas como parte de um pacotão que engloba uma dúzia de produções de segunda linha. Não é por coincidência que filmes oscarizados garantem boa bilheteria: nosso público compra incondicionalmente os valores da sociedade americana.

Agora começamos a compreender a realidade que aflige a nós, diretores (das chamadas produções independentes até os filmes de maior porte): não há lugar em nosso mercado exibidor para o cinema brasileiro. O espaço deixado pelos blockbusters não passa de umas poucas semanas ao ano. Temos atualmente dois ou três blockbusters, cada um com 400, 500 cópias, ocupando a maioria das salas. Da década de 60 para cá, o cinema americano foi jogando para escanteio a produção dos demais países. Hoje em dia, filmes de outras nacionalidades subsistem apenas em circuitos alternativos, onde, por sinal, tem lugar outra guerra: entre as produções brasileiras e as estrangeiras não americanas. Uma vez que temos cerca de duas mil salas, o que sobra para o cinema nacional (e o do resto do mundo) é irrisório. É por isso que filmes brasileiros não permanecem em cartaz por muito tempo: ocupam apenas uma sessão diária em um reduzido número de salas.

Como se não bastasse, é comum o exibidor alternativo operar também como distribuidor. Ou seja: frequenta festivais internacionais (ou organiza festivais aqui), compra títulos não americanos e força o cinema nacional a disputar o já reduzido espaço alternativo com o cinema argentino, o italiano e outros. Uma parcela expressiva de novos valores do cinema brasileiro permanece desconhecida do público, restando-lhe apenas o destino melancólico das prateleiras de cinemateca.

O cinema nacional, porta-voz da nossa diversidade, reflete a abertura que nos caracteriza como nação. Por isso, o primado da identidade brasileira deve ser garantido por incentivos capazes de refletir, estimular e preservar nossos valores.

Olho para o futuro com uma preocupação maior: será que o tipo de público hoje em formação em nossas salas reflete nossos valores, nossa cultura e nossas aspirações? Desta resposta depende a sobrevivência do cinema nacional como indústria e manifestação da cultura brasileira.

*Sandra Werneck é cineasta e dirigiu longas como “Pequeno dicionário amoroso”, “Amores possíveis” e “Sonhos roubados”

sandra_werneck

Salve o cinema nacional!

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4 Comentários

  1. Oi Valéia.
    Tudo bem?
    Muito interessante o que a cineasta Sandra Werneck diz a respeito do cinema brasileiro.
    Temo pessoas extremamente capacitadas a fazer filmes tão bom quanto os que saem da “globo produções”, porém o investimento na cultura brasileira é tão inexistente, que o que nos resta é comprar e “viver” da cultura americana.
    Enquanto isso, vamos aqui estudando, escrevendo, criando e lutando para um melhor investimento e valorização aos profissionais de cinema do Brasil.

    Bjo.
    (passagem diária no site obrigatória 😉

    Comentário por Ana CaTrin — 26/09/2010 @ 11:24

    • Oi, Ana! Como vai?

      As coisas por aqui estão se acomodando aos poucos, ainda bem, né?

      Eu também gostei muito do texto da Sandra, me fez abrir o olho sobre a transformação do ponto de vista do público atual, e se não fizermos algo urgente, vamos nos esquecer completamente a nossa cultura e modo de pensar e agir, para adotar a cultura e o pensamento americanos. Isso é muito triste, nossa cultura é riquíssima, seria uma perda imensa para nós e para o resto do mundo, sem dúvida.

      Eu vou passar a postar algumas transcrições de revistas e jornais sobre a situação do cinema brasileiro e latino-americano em geral, para ficarmos por dentro, é importante saber o que anda acontecendo nesse meio.

      Obrigada, Ana, por estar nos acompanhando diariamente, isso me dá uma alegria e uma felicidade danadas! Eu estou lutando para escrever todo dia, mas às vezes a vida não coopera, tirando todo o nosso tempo livre! Mas, aos poucos, a gente chega lá! 😀

      Um beijão, Ana, e obrigada pela mensagem!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 27/09/2010 @ 10:49

  2. Oi Valéria,
    saiba que realmente este site esta me ajudando e muito a realizar um sonho..de ser roteirista / trabalhar com cinema! E vou ser!!!!
    Estou agora trabalhando com produção editorial. E graças a este site tive autonomia de ir atrás de um emprego que está me ajudando a abrir a mente mais ainda para a escrita.

    Quando a idéia é boa e a vontade ajuda, a vida segue seu rumo e os sonhes simplesmente se realizam.

    Muita paz!
    Criatividade e portas abertas, é o que desejo a todos que por aqui passam.

    Bjo.

    Comentário por Ana CaTrin — 03/10/2010 @ 16:49

    • Oi, Ana!

      Puxa, você agora me deixou emocionada! Suas palavras me tocaram fundo, obrigada!!

      Fico aqui, sem palavras, apenas reforçando as suas, desejando também a todos muita criatividade e portas abertas. E sucesso! Muito sucesso!!

      Obrigadão, Ana, por sua gentileza e pela força que sempre me dá, isso não tem preço!

      Um beijo grande,
      Valéria Olivetti (explodindo de emoção!)

      Comentário por valeriaolivetti — 04/10/2010 @ 10:37


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