Dicas de Roteiro

02/09/2010

Escrita Astuta Para a TV – Parte 2

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:20
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Aqui vai a segunda parte desta série, escrita pelo roteirista Alex Epstein, e tirada do site dele, Crafty Screenwriting:

television (1)

 

Capítulo Um: A Estrutura Oculta de Uma Série de TV

Uma “Fantasia Atraente”

Se um gancho nos faz assistir, o que nos mantém assistindo?

Nós assistimos alguns programas porque os personagens estão em uma situação na qual gostaríamos de estar. Em The O.C. – Um Estranho No Paraíso, os personagens têm problemas pessoais com que todos nós podemos nos identificar (romance, família, dinheiro), mas eles são jovens e magros e bonitos, e vivem em casas espetaculares sob o sol do sul da Califórnia. A maioria de nós tem os problemas sem as casas espetaculares e o sol. Nós sentimos que poderíamos ser eles; e, ao assistir o programa, nós conseguimos entrar em suas vidas. Como Rich Lee, criador de Dallas, disse: "As pessoas estão assistindo isso, dizendo:`Viu, eles também têm problemas, independente de quanto dinheiro tenham.’”

Em Sex and the City, quatro mulheres de trinta e tantos anos conseguem viver nas partes mais glamorosas da cidade mais glamorosa do mundo. Elas vestem roupas fabulosas e têm apartamentos fabulosos. (Na TV, todo mundo em Nova York tem um apartamento fabuloso, mesmo se eles trabalham em uma cafeteria.) Elas não só têm tempo para sair e tomar desjejum, jantar e ir a festas umas com as outras várias vezes por semana, como todas gostam umas das outras o suficiente para fazerem isso. Alguém com mais de vinte anos realmente tem amigos assim? Bem que gostaríamos… e ao assistir, nós entramos em seu mundo, e elas se tornam nossas amigas também.

Em Happy Days, os personagens vivem na lembrança mais simples e mais feliz dos anos de 1950.

A atração pode ser porque as vidas dos personagens dão a sensação de serem mais importantes do que as nossas. Em E.R. – Plantão Médico, os personagens salvam vidas; em Homicide, os personagens capturam assassinos. Como nós, eles se preocupam em pagar o aluguel, e se apaixonam. Mas seus trabalhos são imediatamente, visceralmente urgentes. Nós conseguimos sair de nossas vidas e entrar nas deles.

Estas são as fantasias que nos atraem para os mundos destes programas. O que quer que nos mantenha voltando para passar o tempo no mundo do programa é o que eu chamo de "fantasia atraente" do programa.

Um programa também pode ter uma “fantasia negativa”. Os personagens estão lidando com problemas como os que enfrentamos, mas piores.

Nós assistimos Família Soprano, porque a nossa família é assim mesmo, mas pelo menos ninguém vai ser apagado pela máfia.

Assistimos Oz porque pelo menos nós não vivemos em uma ala de segurança máxima, onde podemos ser esfaqueados até a morte com uma colher. Nós podemos sair a qualquer momento que quisermos.

Nós assistimos Lost porque é emocionante pensar sobre estar preso em uma misteriosa e perigosa ilha deserta, contanto que você saiba que pode mudar de canal a qualquer momento, e que o bicho não está realmente indo perseguir você.

Comédia é geralmente baseada em uma fantasia negativa. Nós assistimos Seinfeld porque Jerry e seus amigos são iguaizinhos a nós, só que ainda mais superficiais e egoístas. Em All in the Family, Archie Bunker é um caipira intolerante pior do que os pais da maioria das pessoas, e Edith é muito mais cabeça de vento. Everybody Hates Chris é sobre o quão ruim era crescer sendo Chris Rock. Se pudermos ver a comédia nas vidas de outras pessoas, podemos rir de nossas próprias.

Programas frequentemente têm tanto fantasias atraentes quanto negativas. Em Buffy: A Caça-Vampiros, os personagens geralmente estão em perigo mortal imediato, mas também têm habilidades e poderes que não temos. A fantasia atraente é que Buffy consegue salvar o mundo; a fantasia negativa é que ela tem que fazer isso. Em Miami Vice a fantasia negativa é que os policiais estão contra criminosos arrogantes e violentos cheios de dinheiro de drogas; a fantasia atraente é que eles conseguem usar roupas realmente maneiras e viver em Miami.

O que ambas as fantasias têm em comum é que tudo na TV é emocionante. TV é tempo comprimido – a vida sem as partes chatas. Tentar conseguir uma promoção no seu próprio trabalho pode envolver anos de trabalho e politicagem, a maior parte irritante e enfadonha. Não há trabalho monótono na TV. Em O Aprendiz, dentro de uma dúzia de horas alguém vai ganhar o emprego e o resto vai ser demitido. Gratificação imediata – para os telespectadores, de qualquer maneira.

Você não pode realmente escolher se quer ter uma fantasia atraente ou uma negativa. Isso é inerente à premissa. Mas entender o que é a fantasia atraente de um programa lhe permite entregar as mercadorias para aquele programa. Se você estiver escrevendo um episódio de um programa como The O.C. – Um Estranho No Paraíso, Barrados No Baile, Miami Vice ou The Fresh Prince of Bel Air, lembre-se de que as pessoas estão assistindo, pelo menos parcialmente, porque é ambientado numa comunidade na qual a maioria dos Estados Unidos gostaria de viver, com personagens que nunca têm de se preocupar com o aluguel. Se você não está vendendo essa fantasia, não está entregando as mercadorias.

Boa escrita pra você hoje!

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2 Comentários

  1. Valéria, queria perguntar uma coisa:

    Você já escreveu um roteiro de um filme não é ? Se sim, você alguma vez já se inspirou em alguém personagem que já chegou a sentir como ele(a) e ter as mesmas dores do que ele ou ela tem ?

    Porque, tipo, eu AMOOO meus personagens e as vezes, me sinto muito ruim em colocar eles no fogo…

    Não ter conflito atrapalha com a serie ?

    Beijão !

    Comentário por Igor — 15/09/2010 @ 18:31

    • Oi, Igor! 😀

      Sim, e sei bem como você está se sentindo! Isso é super normal, e acontece não só quando a gente escreve, mas também quando assistimos filmes e seriados em que nos identificamos muito com alguns personagens. Quando o trabalho do roteirista é bem feito, ficamos na pontinha da cadeira, torcendo: “Tomara que o plano dele dê certo, tomara que não descubram seu disfarce, tomara que a mocinha acredite nele, tomara…” e por aí vai, mas o trabalho do roteirista é fazer com que o plano NÃO dê certo, que o disfarce SEJA descoberto, que a mocinha NÃO acredite nele e assim por diante. Pelo menos até o terceiro ato, é claro, quando o(s) protagonista(s) dão uma virada na história a seu favor, mesmo que eles não sobrevivam no final, a sua jornada, aquilo que eles precisavam fazer, deve ser completada nesta fase. É uma tortura, eu admito, mas eu me consolo pensando que no fim tudo aquilo será para o bem deles! 😆

      E uma história sem conflito, bem… é a morte! Da história, é claro. Ninguém vai querer assistí-la! Quanto mais conflitos você tiver, e mais difíceis de solucionar, e soluções mais criativas para sair deles você tiver, mais as pessoas (você inclusive) amarão aqueles personagens! E a história permanecerá com elas por muitos e muitos anos, não importa se é um filme, um seriado ou uma história da carochinha! Aquilo passa a fazer parte da vida das pessoas, e isso é que é o mais emocionante de ser roteirista. Eu tenho memórias de séries e filmes que assisti há mais de vinte anos, e sempre lembro com carinho deles. Eu penso nos escritores que os criaram e os invejo por terem feito algo tão significativo. E desejo do fundo do coração poder ser capaz de fazer o mesmo para outros espectadores, tocar fundo outras pessoas da mesma maneira. Por isso, não se preocupe com o bem estar de seus personagens, eles estão passando por aquele perrengue todo por um bem maior! 😀 E eu desejo que os seus personagens (e os meus também!) sofram MUUUUUUUUITO!! 😆

      É isso, Igor, amanhã teremos mais! 😀 Um beijão e até lá! 😉
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/09/2010 @ 18:53


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