Dicas de Roteiro

27/07/2010

Como Escrever Um Musical – Parte 2

Filed under: Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 11:26
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Olá! Voltamos hoje com o texto do autor e professor John Kenrick, tirado do site Musicals101.

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Necessidade Compulsiva

Se você for escrever um musical, você estará tentando oferecer ao público uma história. O que torna um musical atraente, o que controla o interesse do público? A música? Ah, por favor! Um musical deve ter personagens que precisem ou queiram algo desesperadamente, e essa necessidade deve esbarrar em um obstáculo igualmente poderoso. O conflito resultante força estes personagens a darem tudo de si, a arriscarem tudo – e é por isso que o público se sente compelido a ver como estas histórias terminam. Todos os livros musicais [N.T.: termo em inglês que é sinônimo de peça musical] de sucesso envolvem personagens que têm algo ou alguém por quem eles estão dispostos a arriscar tudo. Alguns exemplos:

  • Rent oferece um pequeno exército de personagens que estão dispostos a enfrentar a pobreza miserável na busca de seus sonhos criativos.
  • Em Eles e Elas, cada personagem principal está finalmente disposto a redefinir radicalmente a sua vida a fim de se casar com a pessoa que ama.
  • Sweeney Todd não se deterá por nada para matar aqueles que o enviaram para a prisão baseados numa acusação forjada. O público fica fascinado ao ver a necessidade de vingança de Todd consumir tudo o que ele um dia amou.
  • Cantando na Chuva tem a estrela de cinema Don Lockwood simultaneamente tentando salvar a sua carreira nas telas e conquistar o amor de Kathy Seldin, a garota que ele ama.
  • Em O Mágico de Oz, a talentosa bruxa Elphaba está disposta a abandonar seus sonhos de sucesso respeitável, a fim de defender o que acredita ser o certo.

Como você sabe se a sua história é atraente? Bem, o quão compelido você está para contá-la? Você se importa profundamente com ela, tão profundamente que necessita contar esta história, ou morrer? Acredite ou não, esse é um sinal muito bom. Se você está escrevendo porque acha que tem um tema quente que os outros irão especialmente gostar, por favor verifique duas vezes os seus motivos. É impossível julgar antecipadamente o que os críticos e o público vão aplaudir – todos os maiores talentos já calcularam mal uma vez ou outra. A sua melhor aposta é sempre escolher o material com que você se importe profundamente, a história e os personagens nos quais você acredita.

Moss Hart disse uma vez a Alan Jay Lerner que ninguém sabe o segredo para escrever um musical de sucesso… mas o segredo para escrever um fracasso é "dizer sim quando você quer dizer não."

Essas são as palavras mais verdadeiras já ditas sobre musicais! Se cada fibra do seu ser diz: "Sim!" para um projeto em potencial, isso aumenta as chances de que outros se importem com ele também.

Sobre O Que É Isso Tudo?

Quando Jerome Robbins concordou em dirigir o Violinista no Telhado original, ele fez aos autores uma pergunta crucial: “Sobre o que é o seu espetáculo?” Eles responderam que era sobre um leiteiro judeu russo e sua família, e Robbins disse-lhes para pensar outra vez. Ele queria saber sobre o que realmente era o espetáculo em seu cerne emocional – qual era a principal força interna que iria conduzir a ação e tocar o público tanto intelectual quanto emocionalmente? (Muitos acadêmicos chamam este cerne de a premissa de uma história.) Eventualmente, os autores perceberam que o espetáculo era realmente sobre a importância da família e da tradição, e sobre o que acontece quando um modo de vida enfrenta a extinção. Isto não só lhes deu a idéia para um magnífico número de abertura ("Tradição") – como também deu, ao que poderia ter sido um espetáculo muito paroquial, um irresistível apelo universal. É por isso que a fábula de Tevya, o leiteiro judeu russo, emocionou espectadores do mundo todo.

Ao escrever um musical, você deve, eventualmente, descobrir a sua premissa, sobre o que realmente é o seu espetáculo em seu cerne. Então você deve certificar-se de que cada elemento do seu material sirva a essa premissa – cada personagem, cada cena, cada fala, cada canção. Qualquer coisa que não sirva à premissa é irrelevante e deve ser cortada. Isso pode soar cruel, mas é o segredo para se construir um espetáculo bom de verdade.

Uma boa premissa dá ao seu projeto musical um apelo abrangente (se não universal). Isto não significa que você deve limitar-se a personagens comuns enfrentando desafios comuns – longe disso! Por exemplo, Sweeney Todd conta a história de um barbeiro vitoriano em ação para matar os vilões que roubaram a sua amada esposa e enviaram-no para apodrecer na prisão sob falsas acusações. Mas, em sua essência, o espetáculo é realmente sobre o terrível preço de vingança, como o ressentimento do passado pode custar tudo – o nosso passado, o nosso presente e até mesmo o nosso futuro. Esta premissa faz da história de Sweeney a história da platéia.

Hoje, até mesmo um teatro de revista pode ter uma premissa. When Pigs Fly era um conjunto de canções e paródias hilariantes construídas em torno da obsessão de um homem gay em ter sucesso no teatro – apesar da advertência de todos de que ele teria sucesso somente "quando os porcos voassem". [N.T.: No Brasil se diz “No dia de São Nunca”.] Mas a premissa do espetáculo era de que, quanto mais escandaloso ou exagerado fosse um sonho, mais valeria a pena persegui-lo. Esse tema ressoou entre os gays e os heterossexuais da mesma forma, e When Pigs Fly desfrutou de uma longa e rentável carreira off-Broadway.

Boa escrita musical para você hoje! 😀

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