Dicas de Roteiro

26/07/2010

Como Escrever Um Musical – Parte 1

Filed under: Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 11:31
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Este texto eu estava devendo há um tempão, pra um monte de gente. Eu o tirei do site Musicals101, e foi escrito pelo autor e professor de História dos Teatros Musicais da Universidade de Nova York, John Kenrick. Como o texto original é meio longo, eu o dividi em seis partes. Tem ainda outros textos, neste mesmo site, que explicam o processo de se escrever e produzir um musical da Broadway, desde a ideia original até a estreia, passando por como escolher o elenco e como levantar fundos para produzi-lo. São textos muito interessantes e importantes, que traduzirei depois que postar outros textos que já havia prometido antes.

Música

A Má Notícia

Você já reparou que quase todos os livros sobre como escrever canções, letras ou musicais são escritos por professores, e não por profissionais na ativa? Escritores, compositores e letristas verdadeiros raramente tentam explicar como eles criam, porque o processo criativo é único – o que funciona para qualquer um deles pode não funcionar para mais ninguém. Os professores podem oferecer teoria e análise da forma, mas isso não traz luz alguma sobre o ato da criação artística.

Então vamos deixar isso claro logo de cara – ninguém pode lhe dizer como criar! Um profissional experiente pode oferecer indicadores, e as pessoas com um amplo conhecimento do gênero podem dizer-lhe quais as formas e abordagens têm funcionado até agora, mas a má notícia é que ninguém pode lhe dar um método ou um guia para a criação de um musical.

Para ver o quão intensamente o processo criativo é pessoal, vamos comparar as abordagens usadas por quatro grandes letristas/libretistas:

  • William S. Gilbert escreveu todos os seus projetos em caros diários encadernados em couro, conservando toda idéia e linha excluída para possível uso no futuro. Estes cadernos meticulosos ainda estão preservados depois de mais de um século, proporcionando uma mina de ouro para os pesquisadores. Gilbert sempre escrevia uma versão completa do livro e da letra de uma nova ópera cômica antes de apresentar qualquer coisa ao compositor Arthur Sullivan – então, conforme Sullivan compunha, Gilbert fazia as revisões, quando necessárias. Os ensaios geralmente levavam a mais revisões, e o material podia ser editado ou até mesmo reescrito baseado nas reações do público.
  • Quando o letrista Larry Hart trabalhava com o compositor Richard Rodgers, eles discutiam detalhadamente um projeto em potencial (frequentemente colaborando com um co-libretista, tal como Herb Fields), decidindo onde as canções ficariam, quais personagens iriam cantá-las, e o que cada canção poderia fazer para desenvolver os personagens e o enredo. Então Hart normalmente esperava Rodgers compor as melodias. Hart escutava uma nova melodia uma ou duas vezes, e então escrevia apressadamente as letras com uma velocidade incrível, rabiscando em qualquer pedaço de papel disponível – às vezes apenas preenchendo o espaço livre em um anúncio de revista. O libreto seria reescrito durante as semanas finais de ensaio, e era sujeito a grandes revisões bem até a sua noite de estréia na Broadway.
  • Oscar Hammerstein II também trabalhou com Rodgers, mas em suas colaborações o livro e as letras eram geralmente escritos em primeiro lugar. Após os dois homens discutirem a intenção dramática de uma canção em potencial, Hammerstein se retirava para a sua fazenda na Pensilvânia, onde ele se enroscava em uma cadeira e trabalhava em cada letra por dias ou semanas de cada vez, ordenadamente organizando as suas idéias em cadernos, e então digitando-as. Embora as primeiras versões dos roteiros fossem terminadas muito antes do primeiro ensaio, elas eram objetos de uma ampla revisão durante os testes de elenco preliminares da Broadway.
  • O hábito de Alan Jay Lerner de voar por meio mundo para evitar compromissos de escrita frequentemente deixou seus colaboradores em um frustrante estado de limbo, às vezes por meses a fio. Lerner estava tão arrasado por causa dos nervos que ele usava luvas brancas de algodão para evitar mastigar seus dedos em carne viva enquanto trabalhava em um novo projeto. Os livros e as letras de seus musicais eram geralmente concluídos durante a alta pressão dos testes de elenco, acrescentando uma tensão enorme ao processo. (Depois de criar My Fair Lady, Lerner teve um pesadelo recorrente sobre um grupo de amigos que entram em um quarto de hotel para perguntar o que ele tinha escrito depois de vários dias trancado ali dentro. Cercado por montes de páginas amarrotadas, Lerner sonhou que ele levantava uma folha e lia: “Loverly, loverly, loverly, loverly” [N.T.: Loverly significa ‘amoroso’] – quando então os seus amigos o carregavam para um asilo.)

Cada um destes homens teve a sua quota de sucessos e fracassos, de modo que é impossível definir um método como certo ou errado. Cada escritor, compositor ou grupo de colaboração deve descobrir (geralmente por tentativa e erro) o que funciona melhor para eles. A questão é que eles passam pelo inferno da criação – não importa o quão desconfortável ou assustador esse inferno possa ser.

Boa escrita musical para você hoje! E não coma seus dedos! Existem petiscos mais gostosos! :mrgreen:

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2 Comentários

  1. Então, achei este texto muito interessante.

    Eu, praticamente, sou assim, vejo uma folha de caderno, ou pego meu caderno mesmo de escola na hora do intervalo e começo a escrever musicas com melodias na minha cabeça. Vamos dizer, eu “componho automaticamente”. Muitas vezes, sobre algumas coisas que eu passei no passado. Na minha lista de séries que eu criei tem um músical.

    Estou ancioso para o proximo post. Prometo que não vou comer os dedos, além do mais, este blog é cheio de coisas que me interessam… Quer dizer, TUDO aqui me interessa.

    Comentário por Igor — 06/09/2010 @ 14:20

    • Oi, Igor!

      Que bom que você gostou do texto e esteja gostando dos textos do blog, fico super feliz com isso! 😀 E fico mais feliz ainda que você não vá comer seus dedos! 😆

      Muito bacana você compor músicas originais! Se você compõe só a letra, ou só a melodia, vê se arranja alguém para escrever em parceria contigo, que complemente o seu trabalho. Pode ser muito recompensador. Se você já escreve os dois, o que tá esperando? Registra e bota essas músicas no YouTube, MySpace e o escambau a quatro! Nem perde tempo! A internet abriu portas que há poucos anos nem existiam. Muita gente que não tinha chance nenhuma de mostrar seu trabalho agora é estrela na rede. No futuro você ainda poderá criar muitas outras músicas para seus seriados. Agora você já pode ir usando as músicas prontas para lhe abrir portas, não acha?

      Bem, esta semana ainda teremos muito mais coisas sobre musicais. Tomara que isso lhe inspire a escrever mais ainda! 🙂
      Um beijo grande, Igor, e até mais!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/09/2010 @ 18:32


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