Dicas de Roteiro

25/07/2010

Feedback: Como Falar Sobre as Coisas Ruins

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 21:45
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Hoje temos a última parte de nossa série sobre feedback, escrita pelo roteirista Jacob Krueger para o blog dele, Write Your Screenplay. O autor vende o peixe dele no final e eu traduzi esta parte também, caso alguém esteja interessado em fazer o curso.

Polegar para cima e para baixo

É um simples fato. Os escritores não gostam da maior parte do que escrevem.

E eles não gostam da maioria do que lêem, tampouco.

Escritores podem ser como cães de caça raivosos, prontos para farejar qualquer falha em um roteiro logo de cara.

Isso não é culpa sua. Incontáveis anos de professores de português, grupos de escrita, livros de roteirismo e professores de redação bem-intencionados treinaram você para abordar um projeto deste jeito.

O problema é que, quando se trata do processo criativo da escrita, todo essa farejação ao redor não ajuda necessariamente.

De fato, se você está na posição de quem recebe esse tipo de feedback, provavelmente sabe como é a sensação de ser o pássaro nas garras do cão de caça.

Não exatamente inspirador.

Como Falar Sobre as Coisas Ruins

Seja o projeto uma obra de arte totalmente desenvolvida, ou um pequeno roteiro-bebê que precisa de um pouco de cuidado e amor delicado, as chances são de que, sem fazer esforço nenhum, você pode descobrir cerca de 1001 coisas diferentes que gostaria de mudar.

Mas se você quiser realmente fazer a diferença, as suas observações irão precisar de um contexto.

Por mais contra-intuitivo que possa parecer, o primeiro passo para falar sobre as coisas ruins é começar pensando nas coisas boas.

Ao identificar o que já funciona em um roteiro, você dá ao escritor um contexto para entender a sua crítica, e uma base em torno da qual ele possa construir a revisão.

Qual é o coração da cena? Qual é a estrutura sobre a qual pode ser construída ou ampliada? Quais temas surgem para você? O que você acha particularmente interessante, mesmo se ainda não estiver plenamente desenvolvido?
Qual é a intenção subjacente da cena? E como é que o escritor parece estar realizando essa intenção?

Sobrecarregue a Sua Revisão

Um dos motivos das primeiras versões se parecerem com primeiras versões é porque, como escritores, nós muitas vezes ainda não descobrimos sobre o que as cenas realmente SÃO.

Isso porque, como escritor, o nosso subconsciente está trabalhando em seu próprio conjunto de intenções, das quais podemos ou não ter consciência enquanto escrevemos. Com frequência, uma cena que falha em alcançar as nossas intenções conscientes tem o potencial para ser um grande sucesso de maneiras que nunca sequer imaginamos.

Uma vez que você tenha uma forte percepção do que um roteiro está efetivamente realizando, é fácil ver onde ele está falhando.

As suas intenções conscientes e inconscientes estão vivendo em harmonia umas com as outras, ou estão lutando por atenção? Existem aspectos que não se encaixam nas linhas gerais da cena, ou que minam aquilo que torna a cena particularmente interessante? Existem elementos que parecem chatos ou clichês e que poderiam ser abordados sob um novo ângulo ou serem um pouco ajustados?

Neste contexto, identificar os elementos que não funcionam pode se tornar tão emocionante quanto identificar aqueles que funcionam, dando-lhe um caminho claro e estimulante para a sua revisão, não por fornecer as respostas, mas por fornecer as perguntas que lhe inspirem descobrir a respostas por si mesmo.

Só o Começo

Uma das coisas que eu amo em relação às minhas aulas de roteiro é a forma como este tipo de feedback promove uma comunidade de escrita que cresce junto, criativamente. Invariavelmente, conforme os estudantes melhoram em dar feedback aos seus colegas, a sua própria escrita melhora a uma taxa exponencial.

Isso porque, ao aprender a dar um bom feedback aos outros escritores, você também descobre novas formas de dar feedback a si mesmo.

Desenvolva estas habilidades como um escritor principiante, e você não só vai ficar muito mais feliz com a sua escrita, como também estará bem servido na sua carreira profissional, conforme você lida com produtores, diretores, atores e outros indivíduos bem-intencionados que não foram necessariamente treinados em como dar um feedback que realmente ajude.

Participe da Comunidade

Se você está procurando o tipo de comunidade que promove a sua escrita desta forma, eu lhe convido para conferir uma das minhas próximas aulas de roteiro.

 Do_Me_Feedback

“Aqui! Faça [o feedback] pra mim!”

Boa escrita pra você hoje!

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2 Comentários

  1. Então, este texto ficou bem legalsobre o feedback. Muitas vezes fico muito vibrado em escrever algo bom.

    Eu estou escrevendo uma série de Tv, já a reescrevi várias vezes, só que nunca do mesmo jeito. Sempre acho que é bom ter de escrever até o ruim que melhora a sua experiencia como escritor. Até hoje não vejo semelhança entre ambos. São muito perfeccionistas. Acho que tudo está no ser-humano. Eu, como um “escritor muito muito amador”, já que tenho 14 anos, ainda não sei muitas coisas. Mas, Valéria, eu queria saber de uma coisa:

    Eu enviei várias cartas para produtores, e quero saber se da minha idade, é bom escrever cartas ? Porque acho que muitas vezes eles não levam a sério.

    Obrigado.
    Atenciosamente. Igor.

    Ps: Muito obrigado por ter respondido a pergunta. Estou lendo seus posts antigos de como escrever para atores e entre outros isto tem me inspirado muito.

    Mais uma vez obrigado, e uma otima semana para você !

    Comentário por Igor — 06/09/2010 @ 11:14

    • Olá, Igor, que bom falar de novo com você!

      Saber o que quer fazer na vida na sua idade é algo magnífico, fico feliz que tenha encontrado a sua vocação tão cedo! Acho que o seu momento agora é de estudo e prática, aproveite que você tem tempo, a mente fresca e condições para fazer isto, porque mais tarde sua vida entrará na roda-viva de vestibulares e empregos e talvez você não tenha a mesma tranquilidade de agora.

      Não adianta mandar cartas para produtores com a sua idade, não por preconceito deles, mas pela lei. Trabalho infantil é crime, e você só poderá assinar um contrato a partir dos 16 anos, e, pelo que eu saiba, só com a autorização de seus pais. Apenas aos 18 anos você terá a maioridade civil e penal. Portanto, a minha sugestão é essa: aproveite bem este tempo para aprimorar a sua escrita, com calma e disciplina. Eu mesma levei décadas para isso (ah, não se preocupe, não acho que você levará tanto tempo, não! 😉 😆 ) e até hoje estou aprendendo. Mas quando leio os meus textos antigos, percebo o quanto evoluí. Aproveite, que esses quatro anos voam!!

      Uma opção, caso não queira esperar, é utilizar seu pai ou sua mãe como ‘testa de ferro’, ou seja, eles assinariam o seu roteiro e venderiam como se fosse deles. Mas, qual seria a graça disso?! Tem também a possibilidade de você mesmo assiná-lo, mas isso envolveria um advogado e talvez um processo na justiça, e eu estou por fora dessas leis. Afinal de contas, se existem atores-mirins, por que não pode haver roteiristas-mirins?

      De qualquer modo, desejo boa sorte pra você neste processo, e que você esteja agora dando os primeiros passos rumo a uma carreira de muito sucesso!
      Um abração, Igor, uma ótima semana pra você também, e até a próxima! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/09/2010 @ 14:10


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