Dicas de Roteiro

13/07/2010

Roteirismo – A Abordagem da Seqüência

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:20
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Olá! Voltamos hoje com a crítica do livro Screenwriting: The Sequence Approach, de Paul Joseph Gulino, publicado pela Continuum International Publishing Group Inc. O texto foi escrito por Jack Brislee para o site The Story Department. O livro está disponível para ler de graça pelo Google Books.

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Gulino Paul é Professor Associado de Roteiro da Universidade de Chapman, na Califórnia. Ele é um roteirista e dramaturgo com trabalhos já produzidos.

ORIGENS

O método da seqüência nos leva de volta a 1897, e ao advento da projeção. Raramente os filmes se estendiam para além de um rolo, e tinham de 10 a 15 minutos de duração. Conforme os cinemas adquiriam um segundo projetor, filmes mais longos podiam ser exibidos quase sem interrupção, mas os manuais de roteiro escritos antes da Primeira Guerra Mundial aconselhavam aos escritores estruturarem seus trabalhos em torno da divisão das bobinas.

Esta estrutura persistiu até a década de 1950, com as seqüências identificadas pelas letras A, B, C, D, etc.

Gulino não nos diz por que a abordagem da seqüência à escrita terminou, mas ele nos diz por que acredita que ela deva ser recuperada. “…o seqüenciamento ajuda os escritores a criarem mecanismos dinâmicos e dramáticos que impulsionem as suas histórias para frente. E, ao contrário de outras abordagens populares de roteirismo, o método da seqüência se concentra no modo como o público irá sentir a história e no que o escritor pode fazer para tornar aquela história melhor.”

Qualquer método de roteirismo que torne a tarefa do escritor mais fácil e que concentre-se na experiência do público, vale a pena ser examinado.

OITO SEQÜÊNCIAS

Um típico filme de duas horas, Gulino nos diz, é composto por oito seqüências – duas no primeiro ato, quatro no segundo e duas no terceiro. Cada seqüência é um curta-metragem que espelha a estrutura de um filme completo.

Mas enquanto os filmes completos têm conflitos e problemas que são resolvidos no final, as seqüências têm conflitos e problemas que são apenas parcialmente resolvidos. Porque são apenas parcialmente resolvidos, eles prendem a atenção do leitor e do telespectador.

De acordo com a E. M. Forster, uma história “…tem apenas um mérito: o de fazer o público querer saber o que acontece em seguida. E, do mesmo modo, ela pode ter apenas um defeito: o de fazer o público não querer saber o que acontece em seguida.” (Aspectos do Romance, 1917)

FERRAMENTAS DE ANTECIPAÇÃO

Gulino não nos diz apenas para manter a platéia envolvida. Ele nos mostra como isso é feito com quatro ferramentas. Elas são, em ordem crescente de importância, a telegrafia (e a telegrafia reversa), a causa pendente, a ironia dramática e a tensão dramática (particularmente perseguições e fugas).

Outras ferramentas são discutidas durante a sua análise de onze roteiros.

O método de Gulino torna mais fácil escrever roteiros. Em vez de encarar uma folha de papel em branco perguntando-se como preenchê-la 120 vezes, um roteirista tem apenas que criar um mini-filme de 10 a 15 minutos para estar no rumo em direção a um roteiro completo.

QUESTÕES REMANESCENTES

O livro é uma excelente introdução à arte do seqüenciamento, mas não responde a todas as perguntas. Por que o seqüenciamento perdeu a sua popularidade, por exemplo. Será que o “Roteiro” de Syd Field, com seus três atos e múltiplos pontos de virada expulsou a arte do seqüenciamento? O seqüenciamento foi visto como um dispositivo que dividia um filme, ao invés de enfatizar o seu todo? E por que, se o seqüenciamento é um instrumento tão bom, os roteiristas tentam esconder esta estrutura?

Muito poucos filmes utilizam títulos de capítulos, mas eu acho esses títulos bastante satisfatórios. Golpe de Mestre (The Sting, 1973), Uma Janela Para o Amor (A Room with a View, 1986) e, mais recentemente, 500 Dias Com Ela (500 Days of Summer, 20) usam títulos de capítulos para identificar as seqüências. Em 500 Dias Com Ela esta técnica foi essencial, pois o filme salta para frente e para trás no tempo e sem os títulos dos capítulos o público não saberia o estado atual do relacionamento de Tom e Summer.

SEQÜENCIANDO O DVD

Isso me leva a outra vantagem do seqüenciamento – uma esquecida por Gulino. A maioria das pessoas não vê os filmes nos cinemas. Elas os vêem na privacidade de suas próprias casas, com a vantagem dos controles remotos que permitem que o espectador pause, volte e avance. A maioria dos espectadores programam as suas pausas de comida, bebida e banheiro de forma que coincidam com o fim de uma seqüência, e o roteirista que tem isso em mente vai produzir uma experiência visual mais confortável.

É interessante notar que a divisão dos filmes de 100 anos atrás era ditada pelo tamanho da bobina, mas agora ela é ditada pela fraqueza da bexiga. Isso é progresso.

DURAÇÃO DA SEQÜÊNCIA

Enquanto Gulino sugere que as seqüências têm geralmente de 10 a 15 minutos, ultimamente têm havido uma tendência em direção a seqüências muito mais curtas.

Diretores que começaram suas carreiras com clipes da MTV muitas vezes se iludem acreditando que podem criar um filme de longa-metragem. O resultado tem sido uma série de filmes com cenas e seqüências muito curtas, tal como O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007). Na minha opinião, a maioria destes filmes são insatisfatórios. Eles não permitem que o público seja atraído para a história.

O público está preparado para suspender a descrença até certa medida, mas as súbitas e repetidas mudanças de personagem e de locação são chocantes e servem para lembrar ao público que ele está apenas assistindo a um filme.

ONZE ANÁLISES

Gulino ilustra seus argumentos com a análise de onze roteiros. Ao contrário de muitos escritores, ele não escolheu filmes que se encaixassem exatamente em sua tese. Cinco de seus exemplos não têm a estrutura de oito seqüências sugerida: Lawrence da Arábia (16), O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (12), Intriga Internacional e Um Estranho no Ninho (9) e A Primeira Noite de Um Homem (7). Um que de fato se encaixa é o Força Aérea Um, escrito por Andrew Marlowe, que estudou com Frank Daniel, um fervoroso defensor de seqüenciamento e mentor de Gulino.

Os exemplos ilustram o drama subjacente de cada seqüência e a relação com o drama do filme como um todo. Notei que um blogueiro criticou o Gulino por oferecer apenas 19 páginas de teoria, e 205 páginas de exemplos, mas ele obviamente deixou passar as pérolas de sabedoria que residem em cada um dos exemplos.

CONCLUSÃO

Screenwriting: The Sequence Approach é um dos melhores livros disponíveis sobre estrutura roteiro. Ele simplifica o processo de escrita e enfatiza o drama subjacente de cada seqüência e a sua relação com o roteiro como um todo. É uma leitura essencial para roteiristas, tanto novatos quanto experientes.

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No próximo post continuamos com a terceira parte de nossa série. Boa escrita hoje pra você! 😀

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1 Comentário

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Cipriano, Valeria Olivetti. Valeria Olivetti said: Roteirismo – A Abordagem da Seqüência: http://wp.me/pJ8ar-U3 […]

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