Dicas de Roteiro

11/07/2010

Tipos de Estrutura de Roteiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:35
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Olá, pessoal! Hoje eu estou dando uma pequena pausa na nossa série para responder uma dúvida que surgiu com o último post: O que significam as estruturas em 4, 5, 7 e 9 atos, a jornada do herói, o seqüenciamento, o salto-da-rã e o círculo de história Navajo. Dedico este post ao Fábio, que mandou a pergunta. 😉

dúvida

Esse negócio de estrutura parece muito complicado, mas na verdade é bem simples. Vamos primeiro falar sobre a jornada do herói. Eu já fiz um post sobre isso no dia 19/01/2010, chamado A Jornada do Herói, onde temos um resumo do que se trata. Para maiores explicações, eu citei dois livros, mas ainda há mais um, para quem se interessar: A Jornada do Herói – Vida e Obra de Joseph Campbell, de Phil Cousineau, Agora Editora. Este livro é uma coleção de entrevistas e palestras de Campbell, onde ele fala muito de sua obra. Vale a pena uma lida. E saiu um novo livro que eu ainda não comprei, chamado A Jornada do Herói – A Estrutura Narrativa Mítica Na Construção de Histórias de Vida Em Jornalismo, de Monica Martinez, Editora Annablume. Ele é voltado para o jornalismo, mas acredito que sirva também para nós, roteiristas. Se você já leu, conte pra gente se gostou! 😀

Para explicar o círculo de história Navajo, vou traduzir um pequeno trecho do livro Raindance Writer’s Lab – Write + Sell The Hot Screenplay, de Elliot Grove, Editora Focal Press:

“Esta técnica nasceu a partir da tradição oral de contar histórias praticada até hoje pelos Navajo. Toda noite os homens se sentam em torno do fogo e relatam as suas versões dos acontecimentos do dia. Talvez um deles estivesse cavalgando no alto de um platô e visto um carro em alta velocidade descendo a planície. Talvez um outro estivesse andando pela estrada quando o carro acelerou, cobrindo-o com rochas e poeira. E talvez um terceiro estivesse na verdade dentro do carro, suplicando para o motorista ir mais devagar. Logo todas as histórias e pessoas se conectam, com a versão de cada indivíduo do evento adicionando uma nova profundidade.

Esta técnica é amplamente utilizada em seriados de televisão como 24 Horas, Murder One, e Lost. Filmes que têm empregado isto, incluem: 21 Gramas, e o Trem Mistério, de Jim Jarmusch.”

leapfrog

Já quanto ao salto-da-rã, eu sinceramente não me lembro de jamais havia ouvido falar nisso antes deste artigo. “Salto-da-rã” foi a minha tradução literal, mas poderia ter sido melhor traduzido como “Pular Carniça” ou “Pular Etapas”. O termo leapfrog identifica aquela brincadeira infantil em que um grupo de crianças se coloca em fila indiana, meio abaixadas, e a última da fila pula todas até se tornar a primeira da fila. Por associação, isto também se refere às pessoas que pulam etapas na escola, nos esportes, no trabalho ou na carreira em geral, alcançando um alto posto ou posição sem ter passado por todas as etapas anteriores, aos grandes saltos, ao invés de aos pequenos, deixando seus competidores para trás. Também pode se referir às pessoas que ficam disputando o primeiro lugar nos negócios ou nos esportes, onde os indivíduos acabam alternando-se nesta posição, um dia você está em último, a seguir você é o primeiro, e assim por diante, como na brincadeira de pular carniça. O que isto tem a ver com roteiro? Não tenho a mínima ideia. Procurei adoidado em todos os meus livros e na internet, e não encontrei nada. Se alguém souber e fizer a caridade de nos contar, ficarei eternamente grata! Essa dúvida está me deixando encasquetada! 😕 😐

Para saber mais sobre as estruturas de 3 ou mais atos, eu recomendo o livro Story – Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro, de Robert McKee, Arte e Letra Editora. Ele dá uma boa explicação sobre o assunto, mas vou dar uma resumida aqui. No fundo todas estas estruturas são de 3 atos (apresentação, conflito, resolução / começo, meio e fim), só que com mais pontos de virada. Na estrutura de 4 atos, há um ponto de virada na metade do segundo ato, ou seja, no meio do filme, dividindo o ato dois em duas partes. Nas estruturas de 5, 7, 8, 9 ou quantos atos forem, o que acontece na realidade são 5, 7, 8, ou 9 pontos de virada. McKee explica que quanto mais pontos de virada o roteiro tiver, mais probabilidades ele terá de: ou provocar o tédio no espectador, porque as reviravoltas na história começam a ficar repetitivas e comuns, algo esperado; ou cair no clichê, pois é muito difícil para o roteirista inventar mais do que quatro cenas impactantes numa história só, daí apelam para os clichês. A estrutura de 3 e 4 atos são as mais tradicionais e utilizadas porque são as mais seguras para o roteirista. A estrutura de 7 atos é comum em filmes feitos para a TV, onde é necessário colocar um “gancho”, um suspense, antes de cada intervalo comercial, para que o espectador fique curioso e não vire de canal. Não precisam ser necessariamente pontos de virada, mas situações aparentemente complicadas que talvez possam até se resolver facilmente após os intervalos (quantas vezes não vimos isso em novelas!). Leia mais algumas dicas sobre a estrutura de 7 atos no post Como Escrever Um Filme de Sci-Fi Para TV.

Agora sobrou apenas o tal do seqüenciamento. Tenho dois artigos interessantes sobre este assunto, que traduzirei a seguir. Depois deles eu volto com a terceira parte de nossa série “Oito Semanas Para Um Roteiro”.

Uma ótima escrita hoje, e inté! :mrgreen:

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Adendo: Um colega nosso fez uma nova pesquisa e conseguiu encontrar a resposta para o que estava me encasquetando! O site Revista Xenite explica o que é o salto da rã:

Elipse – Salto no tempo e no espaço (Leapfrog)
Muitas vezes também o roteiro salta no tempo e no espaço, não por estilo do roteirista, mas por medida de funcionalidade. Por exemplo: em “Purity” – XWP, quando Xena está na Grécia e decide ir até a China com Gabrielle, Joxer e Argo certamente naquela época uma viagem deste tipo levaria meses ou anos. Neste espaço de tempo é bem provável que elas enfrentariam muitas outras aventuras na estrada até chegar à China. Porém, estes fatos são totalmente descartados, pois a trama central deste episódio é centrada apenas nos fatos que ocorrem na China. É por isso que de uma cena para outras elas saltam de um continente para outro num piscar de olhos sem precisar nem ao menos trocar de roupas. Os roteiristas americanos chamam estes deslocamentos no tempo e no espaço de leapfrog (salto da rã).”

Veja o artigo todo no site: http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiro-capitulo-4/

Valeu pela dica, Gabriel!

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