Dicas de Roteiro

09/07/2010

Oito Semanas Para Um Roteiro – Parte 1

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:05
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Oi, pessoal, estamos hoje de volta com esta série de posts para aprendermos a escrever um roteiro em meros dois meses! Bacana, não? Ainda não testei, mas vou tentar também para ver se funciona. O texto foi escrito por Richie Solomon, para o site Story Link.

calendar

Dorothy

Jerry Maguire, escrito por Cameron Crowe

Você tem lutado para terminar o seu roteiro atual? Você frequentemente começa a escrever só para perceber depois de meses de tempo perdido que não tem idéia de para onde a sua história está indo? Você ainda está à espera de inspiração? Você continua se prometendo que desta vez vai ser diferente, que desta vez vai terminar o roteiro e gostar dele? Vamos encarar a realidade, por que desta vez seria diferente de todas as anteriores?

Afinal de contas, não é como se você não tivesse feito a mesma promessa para si mesmo na última vez. Mas nem toda a esperança está perdida. Desta vez será diferente. Desta vez você vai concluir aquele roteiro antes de perceber que sequer tinha a opção de desistir. Esta é a vez em que você vai escrever um roteiro em apenas dois meses.

"Dois meses", você diz? "Eu mal consegui escrever qualquer coisa nos últimos dois anos. Como eu posso ter um roteiro inteiro concluído em apenas oito breves semanas?". A resposta é simples.

Nós não vamos nos concentrar em escrever e concluir um roteiro inteiro em oito semanas. Em vez disso, vamos nos concentrar em terminar tarefas semanais menores e mais exeqüíveis. E, antes que você perceba, no final, a soma dessas tarefas será igual a um roteiro concluído. Correção: um roteiro concluído que você terá orgulho de ter escrito.

E a melhor parte é que podemos começar imediatamente. Então pegue uma caneta e marque no seu calendário, porque a Semana Um começa bem aqui e agora…

SEMANA UM – BRAINSTORMING

Miyagi

Karatê Kid, escrito por Robert Mark Kamen

A primeira pergunta que você deve perguntar a si mesmo é a mais óbvia, mas é a que pode condenar você desde o começo: "Que roteiro eu deveria escrever?".

Escritores novatos além da conta seguiram maus conselhos demais que levaram as suas carreiras ao fracasso antes mesmo de começarem. Tenho certeza de que você já ouviu isso antes: Se você quiser vender aquele roteiro de um milhão de dólares… a) você precisa pesquisar o mercado; b) você precisa estudar quais filmes estão arrecadando uma grana preta na bilheteria; e c) você precisa descobrir quais empresas estão fazendo esses tipos de filmes, e, em seguida, escrever um roteiro semelhante e vendê-lo para elas.

Esse é um grande conselho – se você quiser perder o próximo ano, ou mais, de sua vida.

Você não pode perseguir tendências!

Você pode estudar o mercado o quanto quiser, mas a realidade do negócio é que o que vende hoje não venderá amanhã, quanto mais na hora em que você terminar e for comercializar o seu roteiro. Eu aprendi essa lição da maneira mais difícil, por conta própria.

Era 1999, e eu fiquei lendo os jornais sobre todos aqueles projetos sobre o Bug do Milênio [N.T.: Em inglês, conhecido simplesmente como Y2K] que estavam sendo comprados e apressados para o processo de desenvolvimento. Aconteceu da minha mãe, na época, ser simplesmente a líder do projeto de uma Força-Tarefa Global do Bug do Milênio, então quem melhor para escrever a droga de um roteiro baseado no Bug do Milênio do que eu?

Eu corri com o processo de escrita. Do primeiro pensamento até a versão final registrada levou menos de um mês. E agora eu estava pronto para agraciar a comunidade hollywoodiana com o roteiro do Bug do Milênio que definiria todos os outros: Y2-Caos.

Apenas um problema. Naquele curto período de um mês, os estúdios perceberam que não só seria impossível conseguir produzir qualquer um destes projetos antes do fim do ano, mas que, mesmo que eles conseguissem, os filmes que não teriam absolutamente nenhum valor de reprise após a batida da meia-noite de 1º de janeiro de 2000.

O meu projeto-que-era-quente estava morto antes de uma simples pessoa ter virado uma única página. E para piorar a situação, ninguém sequer o leria como uma amostra de escrita em potencial. E quanto a todos os outros projetos sobre o Bug do Milênio sobre os quais eu li, apenas um foi realmente produzido – um filme de TV que veio e se foi sem muito alarde e nunca reapareceu novamente.

Se você escolheu a carreira de roteirista pelas recompensas financeiras, você estaria melhor escrevendo números de loteria toda semana. Você pelo menos teria melhores chances de uma carreira multimilionária.

Se você escreve porque não poderia imaginar não escrever, então coloque essa paixão em seu trabalho. Quando você escrever com o coração, nunca ficará decepcionado, mesmo se você nunca vender o projeto.

E é exatamente isso o que eu acabei fazendo com o Y2-Caos. Havia personagens que eu criei nele de que eu realmente gostava, e eles mereciam coisa melhor. Eles mereciam ser lidos.

Eu pensei comigo mesmo, o que eu gostaria de ver esses personagens fazendo? Eles já estavam envolvidos em um suspense do tipo-tecnológico, e pareciam bem situados lá. Então, se eles não vão salvar o mundo do Bug do Milênio, o que mais eles poderiam fazer?

Eu tinha crescido nos primórdios da revolução hacker e sei mais sobre essa cultura do que eu jamais admitiria por escrito. Dois dos meus filmes preferidos são Jogos de Guerra e Quebra de Sigilo. Então, eu peguei os DVDs da prateleira e os assisti novamente. Só que desta vez, eu me perguntava: "Como posso fazer melhor isso?"

Eu fiz um brainstorm do meu conceito de todas as maneiras imagináveis. Não importa o quão estúpida ou simples fosse uma ideia, eu a anotava. Uma idéia levou a outra e logo eu tinha a história que queria contar. Y2-Caos havia se tornado Hack Attack.

E eu curti o processo de escrevê-lo tanto quanto a satisfação de concluí-lo. Mesmo que ninguém estivesse interessado no meu roteiro, eu estava orgulhoso do meu trabalho. Ele era o filme que eu queria ver, e pelo menos eu consegui vê-lo pelo olho da minha própria mente.

Mas algo diferente aconteceu dessa vez. As pessoas estavam dispostas a lê-lo. Dentro de duas semanas eu já tinha um contrato de opção com uma empresa de produção e eles conseguiram que ele fosse lido nos estúdios por pessoas com títulos como "Vice-Presidente de Produção" e "Chefe de Desenvolvimento".

Ele chegou a ser produzido? Não. Mas uma outra coisa aconteceu. Todo mundo que o leu amou a escrita. A minha paixão pela história transpareceu através das palavras, e mesmo não estando interessados naquele roteiro específico, eles queriam ver mais do meu trabalho.

Aquele roteiro levou eventualmente a um contrato de desenvolvimento de um projeto totalmente diferente, porque eu escrevi com o coração e não com a cabeça. Se você escreve com paixão, isso vai aparecer. Isso vai definir você como um escritor, e não apenas um roteiro.

Não siga as tendências. Siga a sua paixão.

Isso significa que você não deveria acompanhar o que está vendendo nas bilheterias? Claro que não. Se filmes de zumbis são o grande sucesso do momento, então no dia seguinte todo mundo estará procurando comprar todos os filmes de zumbis que puderem. Você pode simplesmente ter um pronto para vender.

Mas se você não tiver, no momento em que acabar de escrever um novo roteiro, provavelmente você já terá perdido a tendência. Você também estaria competindo com todos os outros filmes de zumbi que o resto do mundo saiu correndo para escrever. Se você escrever a história que você quer contar, você é o único que poderia tê-la escrito.

O gosto do público quanto a gêneros vai mudar constantemente. Mas uma coisa que eles sempre vão gostar é de uma boa história. Apenas conte a melhor história que você puder.

Não pergunte a si mesmo: "Que roteiro eu deveria escrever?". Pergunte-se: "Que história eu quero contar?".

OK, agora é sua vez de fazer algum trabalho. Esta semana eu quero que você pense na história que você quer contar. Eu quero que você faça o brainstorm dessa história. Anote tudo o que vier à mente. Não se censure, pois nunca se sabe quando uma idéia aparentemente idiota pode levar a alguma coisa boa.

Saia e assista a alguns filmes que tenham histórias semelhantes, e pergunte-se: "Como eu posso fazer melhor?".

Encontre o tema de sua história, uma lista de seus personagens, as dificuldades nas quais você pode colocá-los, as cenas nas quais você gostaria de vê-los, e as palavras que você gostaria que eles dissessem.

Qual é o filme que você quer ver?

Na próxima semana nós vamos pegar estas ideias aleatórias e colocá-las num argumento utilizável.

calendário

Amanhã voltaremos com a parte 2. Boa escrita hoje, e até lá! :mrgreen:

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9 Comentários

  1. O blog é maravilhoso, você está de parabéns e ajudando muito aos iniciantes, como eu.
    Gostaria de fazer uma perguntinha.
    Como saber quando entramos numa fria?
    Entreguei um argumento para uma produtora,inicialmente teve muita repercussão, disseram que iriam montar uma peça, Rio/SP/Curitiba/Lisboa.
    Depois sumiram e não falaram mais no assunto. Quando pergunto se esquivam. Acho que eles estão querendo se dar bem por não saberem que está registrado.

    Entrei mesmo numa gelada?

    Obrigada!

    Comentário por Danielle — 09/08/2010 @ 16:32

    • Olá, Danielle, seja bem-vinda!

      Muito obrigada, fico super feliz que você esteja gostando do blog! Valeu mesmo! 😀

      Quanto à situação que você falou, pode ser que esta produtora simplesmente tenha desistido de produzir a peça. No entanto, se eles escreverem uma peça baseada na sua ideia, você pode processá-los. No Brasil não há registro sobre as ideias especificamente, mas se você tiver provas de que eles estavam interessados no seu trabalho e fizeram uma peça muito semelhante à que você escreveu, talvez você possa processá-los por má-fé ou algo do gênero, você vai precisar perguntar a um advogado especializado nesta área. Guarde todos os e-mails que você trocou com eles, se puder grave as ligações telefônicas, mantenha um registro de tudo o que foi combinado. Quanto mais provas, mais chances você terá de ter seus direitos garantidos, mesmo que eles lhe passem a perna.

      No momento não há muito o que você possa fazer, a não ser esperar para ver o que acontece. Só daqui a um tempo saberemos realmente se eles roubaram a sua ideia ou apenas desistiram dela.

      Força, Danielle, estou torcendo para que tudo dê certo para você. Aproveite e mostre o mesmo argumento para outras produtoras. Talvez outra se interesse logo e você veja esta peça produzida antes que a primeira o faça. De qualquer modo, serão mais testemunhas de que a ideia era originalmente sua.

      Um abração e muita boa sorte! Desejo muito sucesso pra sua peça, Danielle, mas com seu nome nela! 😉 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 10/08/2010 @ 08:00

  2. Olá Valéria,

    e como foram os dias de “férias”?
    Confesso que é muito bom ter os textos de volta! Novamente obrigado.

    Este texto foi interessante para confirmar o que sempre pensei: “Não siga as tendências. Siga a sua paixão.” =)
    Valéria, por um acaso, você faz análise de roteiro? Terminei um roteiro de curta/ficção semanas atrás, e gostaria de uma análise crítica de alguém da área. Você seria a pessoa ideal. rsrs

    Bom, fico aguardando o seu retorno.
    Um abraço,
    Diego.

    Comentário por Diego Z. — 09/08/2010 @ 16:44

    • Oi, Diego, que bom vê-lo aqui de volta!

      Deu pra dar uma descansadinha nestas férias. Assim eu volto com as baterias um pouco mais renovadas. Fico feliz de voltar, e fico mais feliz ainda de saber que tenho amigos felizes pela minha volta, obrigadão!! 😀 😀 😀

      Eu também sempre senti que o que vale é a paixão que sentimos pelas histórias que contamos, se a gente não sente isso, como o nosso público vai sentir? Quase impossível isso!

      Diego, fico muito honrada por me escolher para analisar o seu roteiro, muito honrada mesmo, mas infelizmente eu não faço este trabalho. Mas você pode mandar pro Fernando Marés de Souza, que ele tem experiência nisso. O investimento é pequeno, principalmente se você mesmo for produzir este curta. É melhor começar com o pé direito, com um roteiro amarradinho e com tudo em cima, não é mesmo? Acho que esse investimento vale muito a pena.

      Muito obrigada pela visita e pelo comentário, Diego, e me perdoe por não podê-lo ajudá-lo mais. Que o seu curta seja o maior sucesso! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 10/08/2010 @ 08:22

      • Olá, Valéria, muito obrigado pela indicação.
        Nesses dias, tentarei acertar alguns detalhes de formatação para entrar em contato com o Fernando. Ele realmente é um grande “expert” no assunto, terei uma grande experiência.
        Novamente obrigado, fique bem.
        Diego

        Comentário por Diego Z. — 11/08/2010 @ 09:44

  3. Valéria, adoro seu blog!

    – Acho maravilhoso essa sua dedicação de compartilhar essas dicas incríveis! – Tenho aprendido muito!

    Parabéns!

    Bjs! =D e sucesso sempre!

    Márcia

    Comentário por Marcia Freddy — 11/08/2010 @ 13:22

    • Olá, Márcia, seja bem-vinda! 😀

      Muito, muito obrigada mesmo pela força! Saber que estou conseguindo ajudar de algum modo os roteiristas e escritores de nossa língua me deixa super feliz e orgulhosa! Obrigada mesmo, e eu também desejo muito sucesso e felicidades em sua carreira e sua vida, Márcia.

      Um beijo grande, e volte sempre! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 12/08/2010 @ 16:01

  4. Oi Valéria.

    Parabéns pela iniciativa de colocar seus conhecimentos sobre roteiros nesse BLOG.

    Gostaria de tirar umas duvidas contigo.

    Eu tenho a intenção de criar um roteiro baseado em uma letra de uma musica muito famosa aqui no Brasil. Gostaria de saber se posso simplimente sair escrevendo, ou tenho que primeiro ir atras dos “AUTORES” para pedir autorização para isso?

    Como funciona, quando vemos que um roteiro foi baseado em um livro ou em fatos reais ou, no meu caso, baseado em uma letra de musica?

    Grato,

    Gabriel Marcelino

    Comentário por Gabriel Marcelino — 11/08/2010 @ 13:35

    • Olá, Gabriel, seja bem-vindo!

      Obrigadão pela força! Fico super feliz de estar sendo útil! 😀

      Olha, neste caso específico, de letra de música, eu não tenho muita certeza, então vou dizer o que eu acho. Quando alguém quer fazer um roteiro baseado em um livro, um conto, um artigo de jornal ou entrevista de TV, para tudo isso é necessário antes comprar os direitos autorais para poder transformá-los num filme de cinema ou TV. Acredito que com letras de música seja o mesmo. Uma letra de música que conte uma história detalhada, como por exemplo, FAROESTE CABOCLO, do grupo Legião Urbana, já é uma sinopse bem detalhada. Para fazer um filme baseado nela, seria necessário comprar o direito para isto.

      Agora digamos que o seu roteiro apenas pegue a ideia geral da letra da música EDUARDO E MÔNICA, do mesmo grupo, contando uma história que tenha se inspirado nos personagens principais e no enredo (jovem adolescente e mulher alguns anos mais velha se apaixonam e enfrentam as dificuldades naturais que surgem por causa da diferença da idade, assim como se divertem com essas diferenças). Se você se inspirar na ideia geral e mudar completamente os detalhes, aí estará fazendo uma outra obra, não precisa se preocupar com nada, apenas escreva cenas originais. Afinal de contas, todas as obras existentes são inspiradas de uma forma ou outra em obras anteriores. O que mais tem por aí são versões variadas de histórias de sucesso. Porém, se você for fiel à música, copiando os nomes dos personagens, as situações específicas (“gente estranha em festa esquisita” etc.), então você vai precisar comprar os direitos autorais para transcrever a história da música para o cinema.

      Mas eu não sou advogada, e só um advogado especializado na área poderia lhe dizer isso com certeza. Vale a pena se informar melhor e confirmar isso antes de começar a escrever. Senão você pode acabar jogando seu tempo e seu esforço fora. Muitas vezes os produtores ou cineastas compram os direitos temporários de uma obra para adaptá-la para as telas. Esse tempo pode ser de dois, cinco, ou dez anos, dependendo do dinheiro despendido. Se o filme não for produzido neste tempo, os direitos voltam ao autor original, que pode vendê-los para outra pessoa. Para conseguir os direitos autorais definitivos, de modo que você possa produzir o filme agora ou daqui a vinte ou trinta anos, se quiser, é necessário dar uma grana preta para o autor, o que Hollywood costuma investir, quando a obra em questão já se provou um sucesso na forma de livro.

      Bom, espero ter ajudado um pouco, essa parte legal é um pouco complicada e nebulosa mesmo, infelizmente eu não sou expert nisso. Boa sorte com seu roteiro, e se você souber de algum detalhe sobre este assunto, por favor, volte para compartilhá-lo conosco, aposto que muita gente tem a mesma dúvida!

      Um grande abraço, Gabriel, e até a próxima! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 12/08/2010 @ 16:39


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