Dicas de Roteiro

09/06/2010

Como Formatar o Falso Documentário

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:21
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O roteirista John August tem um maravilhoso blog, cheinho de informações úteis. Este post foi tirado de lá:

borat

Pergunta:

Quero saber mais sobre a formatação adequada da estética do novo documentário que está sendo feito por programas como The Office e Modern Family. Eu estou me referindo especificamente aos olhares irônicos e conspiradores para a câmera, as tomadas inexplicáveis de entrevista. Estas tomadas parecem supor que existe uma equipe de documentário presente. Eu amo isso! E eu amo o potencial de humor que isso traz.

A minha pergunta é: como isso teria que ser escrito em um roteiro que não fosse através do uso de "para a câmera”? Existe uma maneira de indicar que um filme inteiro ou o piloto de programa seria filmado desta forma? Eu também estou interessada em sua avaliação estilística geral sobre isso e se você acha ou não que veremos esta abordagem usada com sucesso em longa-metragens?

– Ashleigh
Los Angeles, CA

A tendência do falso-documentário tem seus detratores, mas acho que funciona muito bem nos dois programas que você menciona.

Cada programa terá o seu próprio estilo de como formatar isso no roteiro (*), mas normalmente isso é tratado no cabeçalho, quando a cena toda é dirigida em direção à câmera:

Falso documentário1

Estes programas tendem a tratar a câmera como um personagem sem nome que, ou (a) está consciente de alguma coisa que os outros personagens da cena não estão, ou (b) pode levar algo embaraçoso para fora do contexto, a menos que seja esclarecido.

Se um personagem está dirigindo uma fala ou um olhar para a câmera, anuncie isso. (Se ajudar, pense na “câmera” como sendo um produtor de pé bem ao lado das lentes).

Falso documentário2

Refira-se à câmera com moderação. A não ser que o assunto de seu roteiro seja o documentário em si (confira The Comeback), é provável que você comprometa a comédia ou o drama ao reconhecer que os personagens estão cientes de que as suas ações estão sendo filmadas.

(*) Como sempre, se você estiver escrevendo um episódio de especulação de um programa existente, cace um dos roteiros dele e siga exatamente o seu exemplo.

cinematic-camera

Nos comentários do post dele indicaram This Is Spinal Tap (1984) e os filmes de Christopher Guest em geral como exemplos dessa técnica utilizada em longa-metragens. Algumas cenas de Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro e o começo de Distrito 9 são outros bons exemplos citados.

Ainda nos comentários, ensinaram que The Office também faz deste jeito:

Falso documentário3

ou

Falso documentário4

e que Modern Family faz assim:

Falso documentário5

E então cada programa vai direto ao diálogo, sem nem definir na ação onde a entrevista está se passando (um sinal de que isso não deve importar).

É isso, boa escrita hoje! Inté!

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2 Comentários

  1. Aqui vai um comentário e uma pergunta.
    O comentário:
    A idéia de “caçar um dos roteiros seguir exatamente o seu exemplo”, é muito boa.
    E acho que deviámos fazer sempre algo parecido.
    Não quero dizer que tudo já foi escrito, mas quando você desenvolver um pouco melhor o seu roteiro vai perceber que ele tem alguma semelhança com outros filmes ou vai perceber já de cara.
    Nos EUA é comum vender roteiros relacionando eles com filmes de sucesso. Dias de Trovão foi vendido como o Top Gun sobre rodas, só para dar um exemplo.
    Eu acho que assim você pode, comparando o seu trabalho com o dos outros, ver como resolver vários problemas.
    Não estou dizendo para copiar, mas acho que isso pode ajudar a dar algumas referências.

    E agora uma questão que eu coloco para quem quiser responder.

    O Hugo Moss, que tem um livrinho muito bom sobre como formatar roteiros, e tem entre as suas oito dicas, que estão no seu site a seguinte:

    Corte a palavra “vemos”.

    Em vez de “Vemos um casal andando…”, escrever “Um casal está andando…”.

    Concordo, acho uma boa dica.

    Mas se não usarmos palavra Vemos.

    Como se escreveria uma cena de “I Love You Phillip Morris” ou o “O Golpista do Ano”, se você preferir o título em português. Eu procurei o roteiro na rede e não achei. Vamos ver se alguém tem melhor sorte.

    Aqui vai um spoiler, quem não viu o filme, pare de ler agora.

    A cena em que personagem do Jim Carrey revela que é gay.

    É fantástica. Ele está transando e só vemos ele na cama e as costas de outra pessoa, que está de quatro e intuímos que a mulher dele.

    Quando a outra pessoa levanta a cabeça e entra no quadro percebemos que é um barbado e é quanto o Jim Carrey fala que é gay.

    É muito bem feito e deduzo que bem escrito, mas como fazer isso sem usar Vemos ou a Camêra mostra?

    Comentário por Antunes — 30/06/2010 @ 00:03

    • Olá, Antunes, seja bem-vindo de volta!!

      Muito boa a sua observação, na verdade não acredito que existam histórias 100% originais, todas terão algum elemento já conhecido, até mesmo batido, tipo clichê, o que não é de todo mal, porque uma história 100% original faria o público boiar. As pessoas precisam ter alguma expectativa, algum conhecimento da narrativa, senão ficarão totalmente decepcionadas se pelo menos alguma coisa do que esperavam não acontecer. Eu já lutei muito com isso, achando que tinha que jogar um roteiro pela janela quando via algum elemento que escrevi já realizado em algum filme ou programa de TV. Mas, apesar dos elementos parecidos, a história no geral era diferente, e eu precisei baixar a minha bola e aceitar que não era e nem precisava ser o gênio criativo e 100% original que gostaria de ser. As minhas histórias são simples, é esse o meu jeito de escrever, e isso pra mim já está de bom tamanho. O tempo e a ralação mudam a nossa perspectiva sobre as coisas, não é mesmo?

      As dicas do Hugo Moss são muito boas, e acho que essa daí vale para tudo. No caso do filme que você citou, O Golpista do Ano, acho que se poderia escrever a cena assim: (Spoilers à frente)

      Jim está transando com alguém que está de quatro. Parece ser a sua esposa, mas o rosto dela não está visível. No momento em que sua parceira levanta a cabeça, na verdade se trata de um homem.

      Essa é uma forma de contar, mas você pode encontrar uma melhor, acho que é possível a gente usar a técnica narrativa de romances e adaptá-la para roteiros, dessa forma podemos evitar o “Vemos” e a “Câmera mostra”.

      Um super abraço, Antunes, muito legal a sua observação, ótima dica!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 30/06/2010 @ 13:07


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