Dicas de Roteiro

06/06/2010

Romancistas Versus Jornalistas

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 17:47
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Olá, este é mais um texto de Jane Espenson, cujo título é igual ao deste post.

KafkaSilentMovie

Eu estou lendo muito sobre a velha Hollywood no momento, com ênfase particular na transição do cinema mudo para o falado. Ah, isso é coisa tão boa, você não tem ideia.

Os roteiros para os filmes mudos obviamente eram sobre ação e estado de espírito e intenção, em vez de diálogo. Eu não estou falando sobre os diálogos que apareciam em cartões de título [legendas], mas sobre o enredo para o que acontecia no filme. As habilidades de um romancista eram muito apropriadas para este tipo de escrita de roteiros, que era descritiva, evocativa e íntima. Por “íntima” eu quero dizer que era concernente ao que o personagem estava pensando e sentindo.

Quando a chegada do cinema falado tornou necessária a escrita de imensas quantidades de diálogos, novos escritores foram contratados, geralmente trazidos da costa leste [dos Estados Unidos]. Romancistas e jornalistas foram ambos contratados e tiveram a oportunidade de experimentar este novo tipo de roteirismo.

Então, quem prosperou, e quem não prosperou?

Os jornalistas venceram. Eles tinham ouvido para o diálogo naturalista e sabiam como escrever concisamente, e como contar histórias com detalhes lúcidos e não com prosa evocativa. Os romancistas tendem a escrever discursos e descrições mais longos e mais elegantes (ou estilizados). Coisa linda, mas não tão valioso quanto algo curto e potente.

Três dos meus colegas na sala dos escritores de Battlestar Galactica eram ex-jornalistas. Isto é cerca de metade da sala. Eles eram alguns dos melhores escritores que eu conheci neste ramo. Parece-me que as habilidades ainda cativam.

Obviamente, eu não estou lhe dizendo para sair e encontrar um jornal para o qual escrever – isso não parece uma tarefa particularmente fácil no momento. Mas eu ainda acho que esta informação é útil para todos vocês, escritores aspirantes. Pense como um repórter – apare a história, encontre a espinha dela, e ouça os seus personagens falarem a linguagem de qualquer rua da qual eles venham – mesmo se você deixá-los divagar um pouco no primeiro rascunho, tente, eventualmente, encontrar a citação sucinta.

Você consegue inventar os fatos e as pessoas, mas as verdades fundamentais que você está revelando devem ser tão reais quanto se a história tivesse acontecido. Seja um repórter.

escritor6

Boa escrita jornalística/roteirística pra você!

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3 Comentários

  1. Bacana… Adorei, belos dizeres de Jane Espenson! Ela teve a sorte de se deparar com jornalístas que tinham além do dom para a narrativa técnica, como também para criar histórias cativantes e era muito difícil um profissional assim no mercado, até hoje inclusive. Mas hoje em dia, cabe vários estilos de escrita, pois há diversos tipos de públicos, os meios de exibições são mais amplos também, portanto,a história tem que seduzir o seu público…

    Comentário por januária — 20/06/2010 @ 21:14

    • É verdade, eu encontrei algumas pessoas na faculdade de Cinema que também estavam cursando Jornalismo concomitantemente (o que era uma loucura, a faculdade de Cinema já era em horário integral!). Acho que tem muita gente que ama os dois ofícios, e tem este dom de contar histórias, sejam fictícias ou verdadeiras, afinal de contas, ouvir alguém contar o que aconteceu é uma coisa, escrever bem esta história a fim de cativar os milhares de leitores de um jornal é outra totalmente diferente! Tem de ter talento de contador de histórias! Mas eu acho que se a gente não é jornalista, ajuda muito ler jornais, revistas e livros de não-ficção, sejam biografias, livros de história ou tipo reportagem. Além de “encher o nosso poço”, ainda nos treinam a pensar com mais lucidez e a escrever mais direto ao ponto. Romances são bacanas de ler, mas se a gente fica só neles, acaba viciando no estilo de escrita, e isso não é legal!

      Comentário por valeriaolivetti — 21/06/2010 @ 09:09

  2. Com certeza, concordo! 🙂

    Comentário por januária — 21/06/2010 @ 19:57


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