Dicas de Roteiro

30/05/2010

O Perfeito Filme-Catástrofe-Clichê

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:28
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O artigo de hoje chama-se (ironicamente, eu suponho) “Como Escrever o Filme-Catástrofe Perfeito”. Ele descreve com tanta perfeição os clichês desse tipo de filme, que na verdade o autor deveria chamá-lo logo de “Como NÃO escrever um filme-catástrofe”. Lembre-se: evite os clichês, ou utilize-os a seu favor, surpreendendo o público quando ele estiver esperando algo previsível. O autor deste artigo é Paul Owen, que o escreveu para o site Guardian.co.uk. Como o artigo é de 12 de dezembro de 2008, portanto ele cita filmes que já saíram, mas que na época ainda estavam sendo produzidos:

disaster_movieCOMO ESCREVER O FILME-CATÁSTROFE PERFEITO

Enquanto Roland Emmerich prepara o seu último épico e O Dia Em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, 2008) invade os cinemas, nós oferecemos um plano de 10 partes para o filme-catástrofe supremo.

Roland Emmerich, o rei dos filmes-catástrofe, está de volta. Não contente em mandar uma gigantesca onda quebrar-se sobre Manhattan em O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, 2004), ou permitir alienígenas destruírem a Casa Branca em Independence Day (Idem, 1996), Emmerich, em seu novo filme 2012 (Idem, 2008), está se preparando para desencadear erupções vulcânicas, imensas rachaduras na superfície da Terra, enormes tufões – e mais inundações.

Se você não conseguir esperar por isso, hoje tem o lançamento do remake de O Dia Em Que a Terra Parou, em que esferas alienígenas surgem repentinamente no mundo inteiro – inclusive uma no Central Park – anunciando um ataque contra o planeta que somente Keanu Reeves pode impedir.

Algo disso lhe soa familiar? Permita-me refrescar a sua memória com este guia de 10 partes para o filme-catástrofe perfeito.

1- Escolha um bom desastre

Muitos dos melhores desastres – asteróides, alienígenas, terremotos, tsunamis – já foram aproveitados, alguns duas vezes, como os inoportunos lançamentos simultâneos de Armageddon (Idem, 1998) / Impacto Profundo (Deep Impact, 1998) e Volcano – A Fúria (Volcano, 1997) / O Inferno de Dante (Dante’s Peak, 1997). Então você terá de ser um pouco criativo. Escolha algo incomum: E se a gravidade começasse a tender para os lados, ao invés de direto para baixo, digamos? 

A sua cena de abertura deveria mostrar a vida acontecendo de forma aparentemente normal – pense em Will Smith saindo para pegar um jornal no começo de Independence Day. O seu personagem principal deveria levantar uma manhã, passando a mão nos cabelos desalinhados e bocejando, e dirigir-se para o banheiro para escovar seus dentes. Ele abre a torneira, ignorando os primeiros sinais da catástrofe prestes a acontecer. Aos poucos, o fluxo de água começa a se virar em direção a ele. A saboneteira de repente tomba para fora da prateleira e cai com estrépito no chão, e ele começa a perder seu equilíbrio. Ele cai estendido contra a parede do banheiro, a água fluindo sobre ele, vindo da torneira. Balançando a cabeça, ele puxa uma pequena garrafa de uísque do bolso de seu roupão e olha para ela com desaprovação.

2- Você precisa de um cientista

Um cientista ou um professor de algum tipo – de meia idade, bonito – é crucial para um bom filme-catástrofe. Devemos primeiramente vê-lo trabalhando duro no laboratório, ou em uma missão externa (talvez brevemente usando óculos), conforme ele começa a captar os primeiros indícios do que está acontecendo de errado. Talvez alguns animais em um zoológico se assustaram com um clima incomum, ou um carro foi derrubado de cabeça para baixo de uma rodovia, sem motivo aparente. Intrigado, ele leva suas descobertas para um mentor mais velho, que acrescenta um fato que ele descobriu sozinho: enormes vespas com três vezes o seu tamanho normal têm aparecido por todo o Ártico, digamos. Esta é a peça que faltava do quebra-cabeça. “Você tem que levar isto ao Presidente”, o mentor diz a ele.

3- Você precisa de um herói

Este não é o cientista. O herói tem de ser um pouco mais pé no chão, um pouco de diamante bruto. Imperfeito, mas nobre –  como Bruce Willis em Armageddon. Um gatuno movido pela culpa e com um menino órfão doente terminal adotado como filho, seria perfeito.

4- Mande o seu cientista para a Casa Branca

Um rápido encontro com o presidente dos Estados Unidos parece ser a primeira parada para todos os cientistas preocupados em filmes-catástrofe. Mas não torne isso fácil demais. Um vice-presidente ou secretário de estado cético e levemente sinistro deveria detê-lo na porta do Salão Oval. Ele não quer ouvir nada desse papo sobrenatural sobre gravidade lateral. “Mas esta pode ser a nossa única chance de salvar o mundo!”, o cientista diz a ele.

“Ouça, professor, volte às suas teorias”, zomba o vice, “e deixe a salvação do mundo conosco.”

5- Destruição ao redor do globo

Agora é hora de você aumentar os riscos e sacrificar umas cidades estrangeiras – ou mesmo uma cidade americana de menor porte como Chicago (você vai reservar Nova York e Los Angeles para mais tarde, é claro). Londres e Roma seriam perfeitas. Xangai e Tóquio são ótimas, também. Em seu laboratório, o cientista liga o noticiário televisivo (preferivelmente um canal de marca afiliado do estúdio cinematográfico) para ver edifícios estrangeiros desabando nas ruas. Os repórteres falam rápido e incompreensivelmente para a câmera enquanto deslizam impotentes pelo meio da rua. “Começou”, murmura o cientista.

6 – Destruição em Nova York

Enquanto o cientista tenta alertar um público incrédulo, as coisas devem ficar realmente sérias: é hora de atingir Nova York. Numa enxurrada de efeitos especiais, a cidade deve cair espetacularmente para um lado, conforme os efeitos da catástrofe tomam lugar, com vários arquétipos nova-iorquinos, tais como estudantes de moda e garçonetes fleumáticas lançados pelas ruas, enquanto táxis amarelos viram-se e rolam nos lados dos arranha-céus, e torres d’água voam dos telhados e explodem contra saídas de incêndio.

É crucial a esta altura destruir um edifício icônico em uma cena de tirar o fôlego que você possa apresentar no trailer. Entretanto, muitos dos edifícios mais famosos de Nova York já foram usados antes – alguns mais do que uma vez – mas que tal o museu Guggenheim? Você poderia fazê-lo virar de lado e rolar pela Quinta Avenida abaixo, como uma roda de carroça.

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7- De volta à Casa Branca

Tudo isso é suficiente para convencer o presidente de que o cientista está certo, então ele o chama de volta para uma reunião ultra-secreta na sala de reuniões da Casa Branca, acompanhado por dezenas de chefes militares com cara de preocupados. O cientista explica o que está acontecendo com uma mistura de astronomia ginasial e uma ultrajante pseudo-ciência, usando quaisquer itens que estejam à mão, talvez uma bola de ping-pong para representar a Terra, e uma bola de basquete para representar o Sol.

Neste ponto, é o papel do cientista estabelecer o enredo na íntegra. “Vocês estão conscientes da força da gravidade, certo? Se vocês soltarem alguma coisa, ela vai cair no chão, ao invés de flutuar no ar. Desse jeito.” Ele joga uma maçã no chão. “Agora, este meteoro que atingiu o Sol foi poderoso o suficiente para mudar a gravidade da Terra para uma direção diferente. Na Inglaterra, em Tóquio, e agora na cidade de Nova York, a gravidade parou de ir para baixo – e começou a ir para os lados.” Enquanto o vice-presidente protesta, o cientista continua: “Conforme o meteoro continua a sua jornada para o coração do Sol, a Terra toda irá mudar para a gravidade horizontal.”

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8- O cientista reúne a sua equipe

Numa caverna sob o Monte Rushmore, o presidente deve apresentar o cientista para uma equipe de primeira classe dedicada a consertar o problema – que deveria acabar incluindo a atraente ex-esposa dele, assim como um inglês engraçado. Os três devem encontrar um plano para impedir a catástrofe – quanto menos realista, melhor. Um bom plano neste caso seria fazer alguém pular do edifício Empire State como um trampolim a fim de ativar uma arma nuclear que destruiria a Lua, deste modo recompondo a gravidade da Terra; qualquer coisa assim, na verdade. Assistindo às notícias do canal a cabo enquanto discutem quem poderia levar a cabo esta missão perigosa, a equipe vê uma notícia da Nova York devastada, onde o gatuno está pulando através das laterais dos arranha-céus para salvar a vida de uma velha avó. “Por Deus”, diz o inglês, “eu acho que encontramos o nosso homem!”.

O clima de comemoração deve ser pontuado por um breve telefonema para o cientista, vindo do chefe das forças armadas, com a desagradável notícia: “Perdemos o Canadá.”

9- Contratempo de última hora

A esta altura, mais e mais partes do mundo devem ter sucumbido à ameaça, e, após recalcular suas contas por algum motivo, o cientista deve relatar que há uma janela de tempo muito menor do que ele pensava para poder parar a gravidade horizontal, antes que ela destrua o globo inteiro. Mas enquanto constrói a arma nuclear para destruir a Lua, algo dá errado, matando o infeliz inglês e danificando a arma de forma que, quem quer que a detone, morrerá com ela. Isto deve causar um grande bate-boca, com o gatuno recusando-se a ir adiante com o plano. No entanto, um discurso sentimental, seja do cientista ou de sua ex-mulher, será o suficiente para convencê-lo, e ele corajosamente concorda em se sacrificar. Pouco antes dele zarpar para Nova York, seu pequeno filho adotivo bate no ombro dele e sussurra: “A mamãe ia querer que você fizesse isso, papai.” O ladrão coloca a mão na cabeça do menino e diz: “Eu sei, filho.”

10 – A operação final

Tudo o que resta agora é colocar o plano em ação. O ladrão escala precariamente ao longo do edifício Empire State, quase caindo pelo menos duas vezes, e prepara-se para o mergulho de sua vida a partir da ponta da torre. O cientista e sua ex-mulher trocam um olhar significativo. Um grupo de personagens secundários brindam o fim da civilização com um último drinque. Multidões reúnem-se em Times Square e em outras localidades ao redor do mundo para assistir o que está para acontecer. No Salão Oval, o presidente, sombrio, murmura: “Que Deus ajude a todos nós.”

O gatuno mergulha. A cena corta para o espaço sideral no momento em que a Lua é destruída. O Sol se inclina de volta para o seu eixo, e de volta à Terra, a gravidade gradualmente gira de volta à sua direção normal. Edifícios se endireitam e ficam eretos novamente. Estrangeiros em turbantes, ou esquimós envoltos em pele aplaudem e se abraçam em locais distantes. O cientista pega a mão de sua ex-mulher. E o pequeno órfão corre para o seu pai ladrão para um abraço dramático, o edifício Empire State de volta ao normal atrás deles. E ele acabou não morrendo no final das contas!

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Fala sério: Quantos filmes-bomba vocês já não viram com este esquema, tintim por tintim? Chega a me dar engulhos! Pra valer! O meu organismo já está até rejeitando fisicamente estes clichês terríveis! 😡 Como eu disse, utilize o clichê a seu favor, surpreenda o espectador quando ele estiver pensando que já sabe o que vai acontecer. Revolucione! Qualquer coisa, MENOS fazer um roteiro desses. Por caridade ❗ Boa escrita (sem clichês!) para todos nós, sempre!

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1 Comentário

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Onildo Filho, Roteiro de Cinema. Roteiro de Cinema said: Como Escrever o Filme-Catástrofe Perfeito, artigo de Paul Owen traduzido pela Valeria Olivetti, do @dicasderoteiro >> http://migre.me/NBE0 […]

    Pingback por Tweets that mention O Perfeito Filme-Catástrofe-Clichê « Dicas de Roteiro -- Topsy.com — 10/06/2010 @ 21:08


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