Dicas de Roteiro

26/05/2010

“Não é o que você diz, é como você diz”

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:57
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O post de hoje foi escrito pela roteirista Jane Espenson, e tirado do blog dela, Jane in Progress, ou Jane Espenson.com:

Diálogo

Algumas semanas atrás, eu estava sentada na platéia de um festival de cinema clássico aqui em LA e ouvi duas mulheres mais jovens tendo esta conversa:

Mandona
Você já viu "Seventh Heaven"?
Bobinha
Eu vi a série de televisão.
Mandona
Você já viu o clássico filme do diretor Frank Borzage, "Seventh Heaven", de 1927?
Bobinha
Não.

7thheaven1927  Seventh Heaven 1927

Você provavelmente já tem uma boa noção de como essas frases foram ditas. Eu ajudei a cimentar esta impressão com os nomes. Mas aqui está como elas realmente foram ditas:

Mandona
Você já viu "Seventh Heaven"?
Bobinha hesita. Ela sabe que não é a resposta certa, mas:
Bobinha
(Arriscando)
Eu vi a série de televisão.
Mandona
(Sorrindo carinhosamente)
Você já viu o clássico filme do diretor Frank Borzage, "Seventh Heaven", de 1927?
Bobinha
(Rindo-se)
Não.

O que eu amo sobre a forma como essa troca realmente aconteceu é que foi inesperado e acolhedor e humano. Tem nuances mais sutis do que apenas uma garota idiota irritando uma mandona. Claro, a Bobinha ainda é um pouco boba, e a Mandona ainda é um pouco mandona, mas elas são delicadas e reais, mais como as pessoas que conhecemos. Isso me deixa mais interessada em conhecê-las. Alguns podem dizer que o drama se perdeu, mas acho que o velho mantra, "drama é conflito", pode ser uma perigosa super-simplificação. O simples conflito é menos interessante do que o conflito sutil, mesmo se esse conflito mais sutil for menos conflituoso. E você não precisa de conflito entre cada par de personagens que tenham uma cena juntos. Amizades com nuances de complicação são realmente interessantes de se assistir, também.

Eu escolhi este exemplo porque eu apreciei escutar essa interação. Isso me fez começar a especular sobre as garotas. Eu imaginei que elas seriam colegas de faculdade que não se conhecem muito bem. Talvez elas se encontraram no cinema por acaso, não foi planejado? Fiquei curiosa porque a interação parecia revelar tanto sobre elas – sobre o desejo da Bobinha de ser apreciada, sobre a capacidade da Mandona de tornar claro que ela estava rindo com a outra garota, e não dela. Havia muita coisa acontecendo em pouquíssimas falas.

Preste atenção às conversas em torno de você quando estiver sozinho fora de casa. Veja se você consegue identificar moléculas de conversa, os menores pedaços de conversa que capturem aspectos importantes de todos os personagens envolvidos. É realmente um treinamento muito bom para ajudá-lo a escrever conversas que pareçam que foram tiradas da vida real, e não de roteiros de outros escritores. Mesmo sem coletar exemplos, acho que você vai descobrir que é um ajuste simples olhar para o diálogo que você escreveu e brincar em deixar as atitudes mais sutis.

dialogue

DIÁLOGO – “OK, vamos começar!”

Boa escrita pra você! Inté mais!

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