Dicas de Roteiro

07/05/2010

Videoclipes – Parte 1

Filed under: Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 09:54
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Esse eu estava devendo há muito tempo para nosso colega Cícero, e, mais recentemente, para nossa colega Januária. A partir de hoje, irei traduzir a página de Nigel Dick, um premiado diretor de videoclips, onde ele ensina um pouco da história e de como escrever para este formato. Alternadamente, irei traduzindo os argumentos de alguns de seus videoclipes mais famosos, para termos uma noção de como um profissional apresenta suas ideias para a banda e para os produtores. Começamos então hoje com o “Dick Ensina”:

musica2

Benvindo ao Dick Ensina – Notas para a palestra na UCLAVídeos: De onde eles vieram, como são feitos e como escrever um conceito para um.

Nota: Os pensamentos, notas e ideias a seguir são apenas a minha opinião baseada em experiência pessoal, e não deveriam ser aceitos como bíblia! – ©. Nigel Dick 2004

CAPÍTULO UM – A HISTÓRIA DOS VÍDEOS DE MÚSICA

Vídeos de música têm estado por aí por muito mais tempo do que você pensa. Se você fosse assistir à recente série de Jazz de Ken Burns na HBO, por exemplo, teria visto muitas performances filmadas de grandes nomes do Jazz fazendo sua arte. Estes são simplesmente vídeos de música primitivos – apesar de hoje nós os vermos como maravilhosos momentos de arquivo de grandes artistas que agora estão mortos, ou incapazes de se apresentar mais.

Nos anos de 1950 e 1960, as companhias cinematográficas, percebendo o grande potencial do rock n’ roll e da música pop, começaram a fazer filmes baseados parcialmente ou completamente em torno das estrelas populares da época – por exemplo, Elvis e os Beatles. Estes filmes eram razoavelmente baratos de se fazer, e faziam muito dinheiro para os estúdios. Se você olhar para a sequência de abertura de A Hard Day’s Night (1964) dos Beatles, verá o que é simplesmente um maravilhoso vídeo de música filmado em preto-e-branco.

 LoveMeTender_1956_poster ELVIS PRESLEY - LOVE ME TENDER dvd

Na Grã-Bretanha nos anos de 1960, a BBC (Estação de TV Britânica) às vezes levava os artistas para a praia ou para um terraço, para filmá-los apresentando seus últimos sucessos musicais, simplesmente para tornar o seu programa semanal Top Of The Pops (Os Melhores do Pop) mais interessante do que apenas ter uma monte de bandas dublando no estúdio. Lá pelos anos 70, os artistas começaram a fazer clipes (ou ‘Pop Promos’) para canções individuais, como ferramentas promocionais em si – o melhor exemplo é o vídeo do Queen, Bohemian Rhapsody, que foi totalmente inovador em sua época, e contribuiu para tornar a música um sucesso maciço no Reino Unido. Na época, Bohemian Rhapsody ficou em número um por 9 semanas, e todo mundo lucrou com a moda. (Trivia útil de vídeo de rock – Bohemian Rhapsody foi dirigido por Bruce Gower e supostamente custou 4.500 libras, cerca de 7.000 dólares, para ser feito).

Os Beatles no telhado

Enquanto isso, nos Estados Unidos, os artistas estavam clamando para aparecer em uma variedade de programas de TV tais como, Shindig!, Don Kirshner’s Rock Show, Midnight Special e Soul Train, que lhes deu a oportunidade de venderem suas mercadorias. No entanto, apesar da diferença óbvia de que havia mais programas para aparecer, onde as bandas ou apareciam e dublavam, ou simplesmente tocavam ao vivo – pelo meu conhecimento, ninguém estava tentando conscientemente combinar imagens com som.

Queen_Bohemian Rhapsody

Até este ponto, as bandas tinham sido capazes de promover seus últimos lançamentos de três formas básicas: peças de rádio, aparições na TV e em turnês. Os dois últimos significavam transportar a banda ao redor do mundo, e isto estava tornando-se extremamente oneroso. Com os mercados de gravação se abrindo por todo o mundo, e lançamentos trans-globais simultâneos tornando-se a norma, era virtualmente impossível para uma banda aparecer no palco, ou na TV, na mesma semana em Nova York, Londres, Sydney e Hamburgo, algo que o lançamento simultâneo das gravações exigia, de forma que os pop promos começaram a preencher a lacuna: é mais barato enviar uma fita de vídeo para a Austrália, do que cinco músicos e um técnico de palco. Por volta do final dos anos de 1970, estes pop promos eram, em sua maioria, filmados em fita de vídeo e, consequentemente, vieram a ser chamados de vídeos de música. Na Grã-Bretanha, onde as paradas de música pop mudavam muito mais rápido do que nos EUA, os vídeos tornaram-se uma ferramenta promocional essencial, e toda banda tinha que ter um, de modo que quando a MTV estreou na meia-noite de 1º de Agosto de 1981, muito mais artistas britânicos tinham vídeos do que os americanos. Consequentemente, Duran Duran, The Thompson Twins, Culture Club e muitas outras bandas britânicas com pilhas de vídeos na gaveta, de repente tiveram um tremendo sucesso nos Estados Unidos e tomaram conta das paradas de sucesso, enquanto os artistas e as gravadoras americanas ativamente tentavam alcançá-los. John Taylor (baixista do Duran Duran), ao ser entrevistado pelo canal VH-1 para uma retrospectiva de 1981, foi longe ao observar que a banda assistiu à explosão de seu sucesso em vários mercados dentro de algumas semanas, a partir da abertura da MTV nesse mercado.

 MTV_toy

Por que a MTV começou? O começo dos anos 80 foi o auge da explosão da TV a cabo, todo mundo nos EUA estava começando arranjar uma caixa de cabo para encaixar em suas TVs, havia muitos canais novos aparecendo, e alguém viu uma maneira de fazer dinheiro com todos esses vídeos de música. Melhor ainda, as gravadoras deram à MTV o uso GRATUITO dos vídeos (e ainda dão), de modo que o canal não tinha de pagar nada por sua programação – tudo o que eles precisavam eram de três VJs, uma câmera, um pequeno estúdio e algum equipamento de edição, e voilà: um canal de TV nasceu. O resto é história.

Datas úteis:

1895 – A primeira câmera e os primeiros sistemas de projeção foram inventados independentemente na França (Auguste & Louis Lumière), Alemanha (Max & Emil Skaldanowsky) e Inglaterra (Robert Paul).

1927 – O Cantor de Jazz (The Jazz Singer) – o primeiro filme popular com som, estrelado por Al Jolson.

1933 – Voando Para o Rio (Flying Down to Rio) – o primeiro filme de Fred Astaire e Ginger Rogers

1935 – Mordedoras de 35 (Gold Diggers of 1935) – o primeiro filme de Busby Berkley.

1936 – A primeira transmissão de TV em Londres

1939 – O Mágico de Oz (The Wizard of Oz)

1941- Noites de Rumba (Las Vegas Nights) – o primeiro filme de Frank Sinatra (como o cantor da Tommy Dorsey Band)

1956 – Ama-me Com Ternura (Love Me Tender) – o primeiro filme de Elvis

1956 – Ao Balanço das Horas (Rock Around The Clock) – estrelado por Bill Haley, Platters, Alan Freed

1963 – Ready Steady Go! – estreia do influente programa de TV britânico semanal

1964 – Os Reis do Iê, Iê, Iê (A Hard Day’s Night) – o primeiro filme dos Beatles

1964 – Shindig! – estreia do programa de TV americano

1964 – Top Of The Pops – programa de TV Britânico com apresentações de todos os atuais artistas pop faz a sua estreia – ainda no ar 40 anos depois!

1967 – All You Need Is Love – Os Beatles apareceram no programa Our World, que foi transmitido simultaneamente para 26 países

1971 – Soul Train estreia nos EUA

1973 – Estreia do Don Kirshners Rock Concert

1973 – Midnight Special, com Wolfman Jack

1975 – Bohemian Rhapsody – vídeo altamente influente do Queen vai ao ar pela primeira vez

1975 – Tommy (Idem) – estrelado por Roger Daltrey, Elton John, Tina Turner, Eric Clapton

1981 – (1º de Agosto) começa a MTV

1985 – (1º de Janeiro) começa o canal VH-1

1985 – Live Aid

2005 – Os vídeos estreiam no i-Tunes e nos telefones celulares

2005 – O novo single do Coldplay chega em 2º lugar – e em 1º lugar como Ringtone

musicas

Amanhã traduzirei o argumento de um dos clipes. Boa escrita musical, e até!

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4 Comentários

  1. Belo post,Valéria! Excelente apanhado histórico a respeito da origem dos videos clipes. Pensava que o apogeu desses videos, se iniciara no princípio dos anos 80 com o advento da MTV e que antes não passavam de meros registros para contribuir na promoção do artista. Mas não.

    Como você tem mais informações a nos brindar,não vou me extender nos comentários e deixo aqui um vídeo clipe recente da artista inglesa chamada M.I.A. Com linguagem de cinema e dirigido por Romain Grava filho do tarimbado cineasta Costa Grava e irmão de Julie Grava, essa inclusive é quem dirigiu o elogiado “A Culpa é do Fidel”, tem forte apelo de crítica social, é só conferir: http://vimeo.com/11219730

    Comentário por januária — 11/05/2010 @ 20:46

    • Uau! Assisti ao videoclipe, e achei bem impactante, e bem diferente dos tradicionais videoclipes americanos. Aliás, os americanos que comentaram não gostaram nada nada de serem retratados como fascínoras (mas o exército americano já provou fazer crueldades atrozes, isto eles não podem negar). A música ficou até em segundo plano, o vídeo parece mais um curta-metragem, e a música apenas o pano de fundo, e não o contrário, o vídeo apenas um veículo para chamar a atenção para a música. No entanto, a música acaba marcando também, porque o vídeo é marcante. Interessante, não? Gostei muito da indicação, Januária, valeu mesmo, eu não conhecia este clipe! Viu, tô sempre aprendendo aqui!! 😀 😀

      Pode mandar mais dicas, adorei!! 😀
      Um beijo grande,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 12/05/2010 @ 09:20

  2. Ok Valéria!…

    M.I.A é uma artista que valoriza a crítica social e política; ela não as usa apenas como inspiração, mas como uma causa da qual defende. E o diretor soube usar bem essas características, além de ter um belo exemplo para se inspirar em casa, seu pai o cineasta Costa Grava.

    Aproveito para sugerir a elaboração de roteiros para filmes de temática política e social, seja por uma visão crítica, ou apenas como um relato, seu método de criação, enfim. Acho o filme “O Último Rei da Escócia” sensacional, mas é apenas uma sugestão, você tem um excelente “feeling” para escolher os assuntos! 🙂

    Comentário por januária — 15/05/2010 @ 17:39

    • Olá, Januária!!

      Gostei muito do clipe e da nova dica para posts, vou dar uma pesquisada! E obrigada pela aprovação na escolha dos assuntos, às vezes acho tão difícil…! Por isso fico muito feliz mesmo que esteja gostando (e sugerindo novos assuntos)! Obrigadão!! 😀 😀

      Um beijo grande,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 16/05/2010 @ 09:25


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