Dicas de Roteiro

16/04/2010

Criando Reality Shows

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:27
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Olá! Continuamos com o assunto de ontem, agora começando a responder à pergunta do Enio (vide post Reality Shows), que coincidentemente pediu um modelo para a escrita de um Reality Show. O artigo de hoje também é do site The Television Writers Vault e chama-se Criando Conceitos de Reality TV (eu o dividi em 3 partes porque ele é meio grande):

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The Television Writers Vault é o link direto de Hollywood para conceitos originais de televisão baseados na realidade à venda por criadores de todo o mundo. Registre o seu conceito de programa de Reality TV, e monitore a atividade online dos executivos e companhias produtoras que examinam o seu material. Obtenha uma perspectiva profissional sobre como criar e escrever a sua ideia de programa de reality TV.

Criando Conceitos de Reality TV

Quando for comercializar um projeto original baseado na realidade para a indústria televisiva, tenha certeza de explorar os seguintes pontos antes de criar e apresentar o seu conceito:

Por que nós os assistimos?

Se você olhar para a maioria das ideias de reality shows que são produzidos, na maioria das vezes elas giram em torno de um tema específico ou situação com que todo mundo pode se identificar, e sobre isso é construído um jogo. Eles são, em essência, game shows (programas de jogos). Mas ainda mais importante, eles são uma grande diversão, e frequentemente, experimentos sociais dramáticos. Outra coisa a se lembrar é que algumas coisas são divertidas de se jogar, e algumas são divertidas de se assistir. Para verdadeiramente se conectar com um público e ter valor de entretenimento em um programa, você precisa de ambos.

A qualidade de um programa baseado na realidade pode variar desde terrível a inspiradora. Mas o motivo dos espectadores se sintonizarem é porque nós temos um apetite insaciável para testemunharmos e sermos entretidos com a experiência humana.

Concebendo e Criando:

Saiba o que os Produtores e Executivos de Redes de TV procuram em novos projetos. Leia as nossas exclusivas entrevistas com Executivos da Indústria aqui.

Seja específico em seu conceito, e tente várias abordagens – Aqui está um enredo típico que lhe dará uma ideia do porquê ser específico e único é importante: “A Senhora Executiva de Rede de TV” dá a um executivo de um companhia produtora informações privilegiadas de que eles adorariam encontrar um programa que coloca os concorrentes em uma espécie de “situação de peixe-fora-d’água” e gostaria que isso envolvesse uma família. Isso em si é uma ideia genérica, mas de fato manda a mente criativa para uma direção específica. O que ela está esperando é que você seja aquele que irá oferecer uma abordagem daquele conceito que seja totalmente única e algo em que eles nunca teriam pensado. Eles mesmos podem estar despendendo tempo tentando desenvolver o conceito internamente, enquanto também aceitam apresentações de ideias de um punhado de produtores. Muitos produtores irão criar duas ou três variações do mesmo conceito. E cada uma dessas lhe dará um resultado diferente, uma experiência diferente como espectador, e, por isso, elas são considerados por todo executivo, ao fazer um balanço, como programas diferentes. Portanto, não tenha medo de trabalhar em vários programas dentro do mesmo tema. Isso só pode aumentar as suas chances de fazer uma venda.

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“Ele foi como um pai para mim.”

Escolha conceitos e temas que sejam altamente negociáveis – Títulos são muito importantes, eles deveriam rolar facilmente para fora da língua, provocarem conversas, e simplesmente dizer-lhe exatamente o que você estará assistindo. “Blind Date” (Encontro às Escuras ou Encontro Inesquecível), “Temptation Island” (Ilha da Tentação ou Ilha da Sedução), “The Bachelor” (O Solteiro – ou Procura-se Uma Noiva, ou ainda, Noiva Procura-se), “The Apprentice” (O Aprendiz) são todos bons exemplos. Jogos de palavras são sempre um bom modo de atrair atenção e criar curiosidade. “Meet The Parents” (Conheça os Pais – ou Entrando Numa Fria, ou Um Sogro do Pior), “Elimidate” (mistura das palavras encontro e eliminar), “Joe Millionaire” (Zé Milionário, ou Fulano Milionário) ou “Wife Swap” (Troca de Esposas – ou Troca de Família) são específicos sobre o que se tratam os programas deles, mas usam frases conhecidas para criar novos títulos que aticem a curiosidade.

Pense em filmes – A “história” é um elemento crítico a se definir ao desenvolver um projeto baseado na realidade. Quando você for assistir filmes, veja o conceito central e os elementos da história do filme, e um reality show poderia estar bem na sua cara. Quem Não Corre, Voa (Cannonball Run, 1981), Entrando Numa Fria (Meet The Parents, 2000), Around The World in Eighty Dates (2003, série televisiva), O Fugitivo (The Fugitive, 1993) são todos exemplos específicos de conceitos de filmes que foram traduzidos para programas baseados na realidade para a televisão.

Identifique Profissões ou Estilos de Vida Únicos: Um dos mais simples e mais bem sucedidos subgêneros de reality show são as séries em estilo documentário que cobrem profissões ou estilos de vida únicos. Estas histórias servem à curiosidade insaciável que os espectadores têm de dar uma espiada nas vidas e nos empregos das outras pessoas.

O “The Real Housewives of Orange County” da rede de TV Bravo é um vislumbre (de prazer e culpa) das vidas mimadas e falsamente glamorosas de um certo grupo de mulheres em Orange County, Califórnia. O “Deadliest Catch” do Discovery Channel leva-nos lá para o alto mar com os pescadores de caranguejos reais do Alasca, que enfrentam ventos e ondas gigantes enquanto lutam para puxar suas capturas e ter o seu ganha-pão. Ambas as séries são apresentadas num formato de estilo documental. Assim, se você tiver um assunto ou ideia para uma série de realidade que se encaixe neste estilo, você precisa ter as pessoas reais envolvidas para tentar vendê-lo.

Coletores [N.T.: Coletores, ou Repo men, são pessoas que vão atrás de devedores para recuperar mercadorias que foram compradas mas não pagas] podem ter uma profissão atraente, mas você precisará ter as histórias de um coletor real e específico que estrelaria a série. Novamente, não é só apresentar a ideia, mas tentar vender a profissão e a pessoa específica na qual a séria se focaria. Para ajuda nesta área, sinta-se à vontade para contatar Scott Manville no The TV Writers Vault para alguns conselhos especializados.

Reality Show de Brasília

Eles são obras sobre moralidade ou dinâmicas sociais. “Survivor”, produzido pela Mark Burnett Productions, é um microcosmo da nossa sociedade. Estamos presos vivendo juntos, portanto devemos nos entender bem. Cada pessoa deve criar estratégias para vencer, mas deve fazê-lo sem criar inimigos, pois é o seu vizinho que vota se você pode continuar ou se vai ser chutado para fora. Nem sempre é justo, e é aí que reside a graça. Nesse clima de tensão nós vemos o verdadeiro caráter dos jogadores vir à superfície. Mesmo o programa sendo arranjado, você tem dramas reais. Outro exemplo: Ao se colocar um grupo de jovens adultos juntos na mesma casa, que são estranhos entre si vivendo, trabalhando e jogando, cria-se uma “novela” inerente para o público assistir. Assim foi o “The Real World” (Na Real MTV) da Bunim/Murray Productions, e despertou o público jovem para uma nova forma de TV atraente. Cobertura em estilo documental de uma situação arranjada.

Um recente sucesso da televisão, “The Apprentice” (O Aprendiz), outra ideia de Mark Burnett, tem elementos de jogo semelhantes aos do Survivor, mas se passa em uma selva diferente – a selva corporativa. Aspirantes a especialistas em negócios devem trabalhar juntos sob o olhar escrutinador de Donald Trump. Os participantes que tiverem uma performance ruim na tarefa semanal de negócios enfrentam o Trump em sua sala de reuniões onde cada semana uma pessoa é demitida. Uma pessoa de marketing lhe dirá que as pessoas irão se sintonizar neste programa para ver o Trump demitir alguém a cada semana. É verdade! Mas o motivo pelo qual os espectadores o acham atraente de se assistir é por causa dos momentos específicos de drama que surgem das situações e desafios que todos nós enfrentamos. Como na maioria das obras dramatizadas, é a “realidade aumentada” que faz com que seja divertido de assistir.

Um programa que marcou a rede de TV a cabo Bravo com um “Sucesso de Rede Televisiva”, o “Queer Eye for the Straight Guy” é uma fórmula simples e divertida que junta mundos opostos quando um cara heterossexual desafortunado é jogado à mercê de cinco especialistas gays em tudo o que é moderno e chique, na esperança de ressuscitar a aparência e o modo de vida dele. O resultado da união destes dois lados incompatíveis é… comédia e entretenimento de qualidade. A pedra angular deste programa não é a óbvia “comédia resultante”, mas as cordas do coração que o programa toca quando a vida de alguém é mudada para melhor. Você perceberá que isto é a raiz de qualquer programa de transformação bem sucedido. Não são sobre maquiagem ou mobília, são sobre mudar vidas.

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“Você acreditaria que tudo isto é apenas parte de um novo reality show?”

Um novo programa que está arrancando ótima aclamação da crítica na programação de realidade é “Wife Swap” da ABC. Além do conceito de “peixe-fora-d’água”, o programa é construído em cima da escolha de um elenco de “óleo e água” (N.T.: que não se misturam). Maridos e esposas descobrem que a grama do vizinho NEM sempre é mais verde quando trocam de cônjuges para experimentar a vida familiar através da perspectiva e das práticas de outra pessoa.

Outro bom exemplo foi a série de realidade da WB, “High School Reunion”. Um produtor executivo foi para a sua reunião de high school (Ensino Secundário) e experimentou o drama biológico e as controvérsias que existem em qualquer reunião de high school. Esse foi o cerne do que veio a ser um reality show de horário nobre. O programa se baseia em personagens que todos nós conhecemos; a rainha da beleza, o atleta, o nerd, o valentão, o solitário, os fofoqueiros, os roqueiros etc. Eles escolheram construir o programa em torno de uma reunião de dez anos depois porque, tendo a maioria das pessoas a idade de 28 anos, eles encontrarão um grande abismo na carreira e no progresso de vida de cada pessoa. Algumas já serão grandes sucessos, algumas terão mudado para pior, e a maioria será insegura e frustrada. Novamente, isso tudo é construído para o drama. E você pode ter certeza de que haverá humor com as fantasias de vingança se desenrolando, amores não-correspondidos reacendendo, ou até mesmo uma partida rancorosa entre o ex-nerd que se tornou campeão de judô e o ex-valentão que virou batata de sofá. É algo com que todos nós nos identificamos, e é divertido de se assistir.

A franquia de sucesso da ABC “The Bachelor” é simples tanto na sua concepção quanto na execução, mas o que os produtores do programa sabem fazer é tirar drama de momentos específicos de tensão e antecipação. É elegante, é romântico, e, mais uma vez, é um drama real que nós estamos assistindo. E uma coisa que a põe acima do resto é que não é necessariamente uma jornada de quebrar corações mais do que uma jornada de duas pessoas encontrando o amor verdadeiro uma pela outra (que esperançosamente durará além do período de exibição do programa). O programa romantiza o processo de cortejo e nós não nos cansamos disso.

Outra forma de programação baseada na realidade a voltar à ativa é o programa de câmera-escondida. Alguns dos programas mais populares foram “The Jamie Kennedy Experiment” e “Punk’d”. Os segmentos são semi-roteirizados pela direção, mas improvisados pelos atores envolvidos com os “ingênuos” sobre quem a piada é desenrolada. O conceito é simples mas ilimitado – Você tem atores de improvisação muito talentosos posando como uma variedade de personagens em situações variadas que são todas fabricadas, e sempre engraçadas. “Ingênuos” desavisados tornam-se participantes no que é essencialmente uma cena de comédia e drama sem roteiro.

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Por hoje, ficamos por aqui. Amanhã teremos a segunda parte deste artigo. Boa escrita para você e até lá!

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10 Comentários

  1. formidável esse artigo, valéria! não tinha ideia que o mercado de escritores fosse assim tão diversificado, oferecendo várias opções, mostrando que não há limites para se exercitar a criatividade. mas lógico, com bom senso e sabendo que uma idéia que a gente cria, pode não ser tão boa assim, ou alguém em algum canto do mundo, já tenha criado a mesma ideia. aproveio pra te sugerir dois temas pra abordagem. o primeiro é sobre sites de roteiristas, onde o roteirista iniciante expõe seu trabalho pra discussão e avaliação de outras pessoas também interessadas em roteirismo, você até já me sugeriu, qual a função deles, a utilidade pra gente. o outro tema, é quando alguém surge com uma ideia igual ou parecida e tem a sorte, só pode ser sorte mesmo, de registrar e até implacar com o projeto, ou seja, quando a gente “bate na trave” do sucesso, são as chamadas coincidências. espero ter sido útil. beijos, januária…

    Comentário por januária — 21/04/2010 @ 20:39

    • Olá, Januária!!

      Esse artigo é bem interessante mesmo e nem está completo, esta é apenas a primeira parte! É muito raro encontrar explicações sobre este assunto em livros de roteiro, acho que é um nicho ainda pouco estudado pelos roteiristas e especialistas em roteirismo.

      Quanto aos sites em que a gente expõe o nosso trabalho, existem dois tipos: os gratuitos, em que colegas de ofício ou qualquer interessado poderá ler e comentar, e os pagos, em que especialistas irão criticar e sugerir mudanças e/ou correções em nosso trabalho. Para o primeiro tipo existem vários nos EUA, mas sei apenas de um em nossa língua: o site do João Nunes. Ele fez um desafio no começo do ano para o pessoal enviar um roteiro pronto para o site dele onde quem quiser poderá ler e comentar os trabalhos. Este desafio ainda está valendo, e me parece que no começo do ano que vem (ou até antes) todos serão postados lá. Eu disse que só conhecia este site, mas existem muitos grupos de discussão sobre o assunto em que você troca de ideias, apresenta o seu trabalho e lê e critica o trabalho dos colegas. Na página do site Roteiro de Cinema tem uma lista bem fornida desses grupos, vale a pena dar uma olhada.

      Quanto ao segundo tipo, os sites em que os especialistas analisam o seu trabalho, temos a opção do Hugo Moss, que eu já havia citado, e a do Fernando Marés de Souza em seu site Arte & Letra, em que ele faz a análise e o script doctoring de seu trabalho (na página estão os valores que ele cobra, exceto o de script doctoring). Parece ser bem interessante.

      Porém, eu não posso falar de nada disso por experiência própria, nunca enviei o meu trabalho para esses grupos, nem para especialistas. Mas me parece que muita gente aprecia essa troca pois encontra apoio e incentivo com esses grupos e com as análises profissionais, e isso é o que importa, não acha?

      Quanto ao assunto das coincidências, é bem pitoresco, não tinha pensado nisso, já li alguma coisa sobre o assunto, mas nem de longe o suficiente para ter base para um post. Vou pesquisar mais, quem sabe também não encontro uma mina aí? 😀

      Valeu mesmo, Januária, muito obrigada pelas dicas e pelo apoio, você é uma pessoa super bacana!! =)

      Beijos e abraços,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 22/04/2010 @ 11:43

  2. […] This post was mentioned on Twitter by AloysioLetra. AloysioLetra said: Ótimo post/tradução da Valeria Olivetti, à respeito de criação de reality shows: http://wp.me/pJ8ar-IU […]

    Pingback por Tweets that mention Criando Reality Shows « Dicas de Roteiro -- Topsy.com — 21/04/2010 @ 23:31

  3. Estou aqui me deliciando com todas essa informações úteis do seu blog… Já havia rapidamente navegado nesses sites citados: joão nunes, roteiro de cinema,arte e letra, achei bacana todos eles e prometo visitá-los tão logo. Eu não publicaria um roteiro meu agora pra discussão, preciso amadurecer essa idéia, mas é importante ter um roteiro seu submetido a avaliação, já que de uma forma ou de outra, queremos ver mesmo se agradamos ou não, não é mesmo? Com relação as coincidências… Sugeri porque já aconteceu comigo e em uma novela, por sinal, assunto novelas também é bem rico pra ser abordado, né, rsrsrs!? Byebye, Januária! 🙂

    Comentário por januária — 27/04/2010 @ 23:36

  4. É verdade talento, mas a experiência também é outro fator importante para uma novela dar certo! Claro que existe autores experientes que faz desastrosas produções, mas se você não tiver a prática da escrita, ser calejado pelo sucesso e pelo fracasso não vai conseguir “segurar a onda” acho que é por isso que o mercado para escritores de novelas, é muito restrito…

    Comentário por januária — 28/04/2010 @ 12:48

  5. Olá valéria,

    Gostaria muito de saber se vc tem um esqueleto ou modelo para que se colocar uma ideia de reality show? Aguardo resposta.

    Grato

    Comentário por Reginaldo — 18/01/2011 @ 23:01

    • Olá, Reginaldo, seja bem-vindo!

      Infelizmente eu não tenho nenhum exemplo de sinopse ou argumento de reality show feito por um profissional para lhe servir de modelo. Eu realmente já procurei bastante, mas é algo que até hoje não consegui encontrar. Mas tente seguir as dicas dessa série de posts, desenvolva a ideia o melhor que você puder, que uma ideia interessante e bem elaborada irá chamar a atenção dos produtores, e se houver necessidade de acrescentar algo posteriormente, eles simplesmente lhe pedirão para reescrever, sem problemas.

      Um abraço grande, Reginaldo, sinto muito por não ter podido lhe ajudar mais, encontrar isso realmente está sendo difícil. 😦
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 19/01/2011 @ 08:31

  6. Q isso Valéria, vc ja esta contribuindo demais com essas publicações…em cima li que vc postou um em uma serie de três, vc poderia me enviar os outros dois? se puder será de enroma ajuda. O e-mail é v8producoes@hotmail.com
    Valew pela força.

    Beijos
    Att

    Comentário por Reginaldo — 19/01/2011 @ 23:47


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