Dicas de Roteiro

08/04/2010

Beats

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:48
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Oi! Continuando a responder a pergunta do Ewerton (vide comentários do post Crash! Pow! Bang!!), vou traduzir um trecho do livro How Not To Write a Screenplay, de Denny Martin Flinn, em que ele explica um dos usos do termo beat (que, em português, significa ritmo, compasso, pulsação):

 pause

Não existe tal coisa como (um beat) e usá-lo dentro do diálogo porque você quer que o ator dê uma pausa é incorreto.

Para ser honesto, eu vejo isto em alguns roteiros muito caros, e às vezes muitos bons, e os leitores sabem o que você quer dizer com isso. Mas o fato é que um beat é um jargão de atores, e não tem nada a ver com timing. É a definição do menor e mais curto momento psicológico. Um momento no qual o ator diz ou faz algo específico com a intenção de comunicar alguma coisa para o público, algumas vezes sem palavras, mas não necessariamente. Um diretor poderia dizer para um ator: “Dê um beat aqui”, significando que, apesar de não ter nenhum diálogo específico, existe uma intenção que precisa ser comunicada com um olhar ou um pequeno movimento.

pause

Bem, não ligue para isso. Você pode consultar o termo em qualquer texto sobre interpretação. O que isso NÃO É, é (uma pausa), e usar os termos intercambiavelmente, um erro muito comum, ainda é um erro. Você não pode definir um beat para um ator. Se você está certo de que deseja uma pausa, então ponha (pausa) ali. Se você sabe por que você quer uma pausa, coloque uma indicação, tal como:

Ela olha fixamente para a porta, tensa.

▬ ou ▬

Beth aguarda, esperando que ele se apresente.

▬ ou simplesmente ▬

Bill reage.

Mas use pausas e reações comedidamente.

reticencias

A solução para isto são as reticências… elas indicam uma frase inacabada ou uma pausa. Use-as no final de uma frase para indicar que o locutor ficou cansado ou está dando a vez para a outra pessoa, tipo:

Beat1

Mas não exagere nas pausas. Não escreva:

Beat2

Deixe o leitor encontrar o ritmo interno das falas baseado no personagem que você criou. É melhor escrever:

Beat3

Ler é mais rápido do que falar. Se você forçar o leitor a ler tão lentamente quanto o seu personagem realmente fala, irá entediar o seu pobre leitor até a morte. Qualquer leitor que precise de mais do que uma hora para ler um roteiro de duas horas provavelmente ainda está movendo os lábios ao ler. Além do que, os leitores costumam topar com as mesmas velhas ideias, os mesmos personagens clichês, os mesmos roteiros de amizade-policial-comédia-romântica-com-alienígenas o tempo todo, e começam a acelerar para chegar logo ao final previsível. (É claro que você poderá evitar isso escrevendo um roteiro verdadeiramente original e não estereotipado.)

reticencias confusas

A exceção é a cena de telefonema, onde nós apenas escutamos um dos lados. Então você pode querer indicar os espaços quando o ator está ouvindo:

Beat4

 Mario Quintana-Reticências

Por hoje é só! Boa escrita para você e até a próxima! 😉

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2 Comentários

  1. Obrigado Valéria, você tirou minha dúvida.
    Mas avaliando bem, acredito que seja uma mania de escritor igual o uso do “CUT TO”.

    Já li o roteiro do meu filme favorito e o autor usa muito a palavra “beat”. Não atrapalha muito na leitura e eu acho até melhor do que usar várias reticências.

    Uma pequena dúvida que a leitura do post me criou, em um diálogo, como eu posso dar a entender ao leitor que uma fala foi interrompida? Tem como eu fazer isso na fala ou é melhor escrever no roteiro: “Fulano interrompe Ciclano”?

    Comentário por Ewerton — 13/04/2010 @ 12:33

    • Olá, Ewerton!

      Em primeiro lugar, não há de quê! É sempre um prazer imenso poder ajudar e ter essa troca tão interessante! E realmente o uso de beats ou de reticências vai ajudar ou atrapalhar dependendo do uso, não é mesmo? Acho que tudo em exagero costuma atrapalhar. Eu acredito que, no fundo, quase tudo é válido em roteirismo, desde que bem aplicado, e a favor da história que se está contando.

      Quanto a interromper uma fala, eu costumo fazer de várias maneiras, dependendo do meu humor, ou do que eu acho que a cena esteja pedindo mais. Por exemplo:

      TISSIANA: Mas o q- (Eu corto a palavra para dar mais sensação de interrupção)
      ou,

      TISSIANA: Mas o que…
      Carlos a interrompe ao deixar cair o vaso, que se quebra.
      ou,

      TISSIANA: Mas o que– (na verdade são dois tracinhos separados, mas não estão aparecendo de jeito nenhum. Essa formatação do WordPress é meio doida.)
      CARLOS (interrompendo): Bonito vaso.

      No último caso talvez nem precisasse dos parênteses. Eles só são necessários quando não está muito claro que é uma interrupção. Mas não sei se existe alguma regra rígida quanto a isso. Acho que vai depender mesmo é do seu gosto e da intenção que você quer passar.

      Bom, é assim que eu faço, espero ter ajudado!

      Um super abraço, Ewerton! (Você… sempre fazendo perguntas interessantes!!!) 😉 😀 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 14/04/2010 @ 11:10


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