Dicas de Roteiro

07/04/2010

Escrevendo Para Atores (7)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:34
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Olá! O texto de hoje é a tradução de mais um trecho do livro How Not To Write a Screenplay, de Denny Martin Flinn:

a-mascara

Não diga aos atores em quais palavras dar ênfase.

Jenny

Isso deixa o leitor maluco. Isso não é leitura em voz alta. Ler é mais tipo assimilar a intenção. A vozinha na cabeça do leitor tende a ignorar a histrionia e vai direto no significado. Se a história for boa, o leitor será afetado emocionalmente.

Didascálias demais deixam os atores loucos, e ninguém nunca as segue. [N.T.: Sim, este termo, didascália, existe em português (eu acabei de descobrir), e significa mais ou menos ‘direção de atores’; ou, como disse o Dicionário Houaiss: “Na Grécia antiga, conjunto de instruções ou indicações que os autores dramáticos davam aos atores que lhes representavam as obras”. Legal, né? Bloguinho também é cultura! 😀 ]. Elas apenas atrapalham. Se o seu diálogo necessita tanto de muitos destaques, talvez ele realmente precise é de polimento ao invés disso.

Do mesmo modo, não interprete tudo.

Aqui está um exemplo de roteirismo muito ruim.

Dorothy

Este autor interpretou cada linha do diálogo. Isto não só desacelera o leitor, estragando o ritmo da cena, como dá a maior bandeira de que o diálogo não é bom. Se fosse, ele falaria por si mesmo. O que nós temos aqui são observações para atuação. Não ponha notas de interpretação em seu roteiro a não ser que seja inevitável. Uma fala como…

Harry

… pode requerer alguma coisa, a não ser que esteja claro no contexto. No caso, poderia escrever ▬

Harry1

▬ ou ▬

Harry2

▬ ou ▬

Harry3

▬ mas só para dar uma cutucada no leitor para que ele entenda a intenção de Harry. Palavras ou frases curtas em parênteses interrompem a fluência de seu diálogo menos do que passagens descritivas longas, e algumas vezes são necessárias. Mas tente usá-las o mínimo possível. Se você tiver de explicar tudo o que escreve, reexamine o seu diálogo.

Peter

Convenhamos. Em primeiro lugar, isto é o que os atores chamam de “indicação”, não atuação. As pessoas raramente reviram seus olhos. Um ator expressa uma emoção. Como ele faz isso não é da sua conta. Dê ao ator a sua ação.

Peter2

Dê ao ator o seu personagem:

Peter1

isis-valverde-faz-tatuagem-em-homenagem-ao-teatro

Não diga ao ator como se comunicar com seu público, diga a ele o que comunicar. Ponha o personagem numa situação em que ele poderia, dada a sua personalidade e ação até o momento, apenas sentir-se de um modo, o modo como você quer que ele se sinta. Deixe de fora todas as indicações de como você pensa que o ator deveria atuar na cena. Eis outro que cheira mal:

Jennifer Jennifer1

isis-valverde-faz-tatuagem-em-homenagem-ao-teatro2

Não ensine o ator como dizer suas falas. Você estará desperdiçando palavras preciosas. Uma vez que um bom ator tenha decorado suas falas, elas serão parte de seu personagem, não o seu roteiro. Mesmo o leitor irá criar personagens em sua cabeça e ler as falas com quaisquer inflexões ocorrerem a ele. Inserir direções de atuação não fazem nada além de adicionar ao seu roteiro palavras irrelevantes de que você não precisa, que não pode usar, e que atrasam o leitor. Deixe o diálogo representar o personagem, e deixe os atores apresentarem os personagens. Aqui está a mesma cena, sem todas as instruções:

Jennifer2

[N.T.: O autor desse roteiro escreveu mesmo muitos “entãos”. Então, 😀 eu tentei ao máximo ser fiel ao original].

Isso não é bem melhor de ler?

Aqui vai um bom exemplo de por que nós escrevemos e deixamos os atores interpretarem. Aqui está a clássica cena de orgasmo do filme Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally, 1989), como foi escrita no roteiro original [N.T.: Roteiro de autoria de Nora Ephron]:

harry_met_sally_moment_fake_orgasm_public

Harry e Sally

Meg Ryan

Alugue o filme para ver o que uma atriz (do calibre de Meg Ryan) pode fazer com isso.

orgasm-faceCARA DE ORGASMO

É mais importante para algumas espécies do que para outras. 

Em parênteses, não escreva o óbvio:

Descrição

Descrição1

Um clichê favorito de Hollywood é, “Deixe espaço para o ator”. Que quer dizer exatamente isso. (E não apenas em relação às óbvias didascálias. Escreva cenas que não sejam evidentes demais. Tenha em mente que as pessoas falam indiretamente, raramente dizendo o que elas realmente pensam.)

Se o seu personagem chegou vindo da chuva e nós sabemos disso, pare. Deixe o resto para o diretor e o ator. E a imaginação do leitor. Se o personagem chegou vindo da chuva mas nós não sabemos disso, diga-o.

alligators_orgasm

CUIDADO: Temporada de acasalamento de jacarés

Se for atacado, finja orgasmo.

Ufa! Por hoje é *só*!! Boa escrita e até a próxima! 😀

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