Dicas de Roteiro

30/03/2010

Os Erros Mais Comuns do Roteirista (3)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:04
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Olá! Esta é a segunda parte do artigo de Darwin Mayflower para o site UGO Screenwriter’s Voice (hoje apenas UGO). O artigo chamava-se Os Top 11 Erros Mais Comuns Em Roteiros, pois já foi para o além, seja lá onde isso for. Ou melhor, ele acabou de voltar de lá, já que estou traduzindo-o e colocando-o de volta na rede. Oh, ele ressuscitou! Que lindo!! 3D Smiles (71)

Eis a continuação:

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6 – Não seja um escravo da estrutura de três atos

Uma vez, é sério, eu era jovem, talvez tivesse uns dezessete anos, e esse cara que tinha acabado de começar a escrever roteiros estava me contando tudo sobre a estrutura de seu roteiro, onde eram as mudanças de ato e como ele tinha afinado tudo com precisão. “Então, quantas páginas do seu roteiro você já escreveu?”, eu perguntei inocentemente, como os adolescentes de dezessete anos fazem. E ele disse: “Eu ainda não comecei a escrevê-lo.”

Isso serve para tudo, mas especialmente para isto: não se preocupe tanto! Você não precisa de uma estrutura três atos definida para ter um bom roteiro. Na maior parte do tempo, se a sua história funcionar, coisas deste tipo irão se resolver sozinhas. Estes são os tipos de coisas nas quais você não deveria estar pensando antes de escrever o seu roteiro. Apenas preocupe-se em escrever algo divertido e original.

O Pescador de Ilusões (The Fisher King, 1991) tem uma estrutura de três atos sólida? E o Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)? E que tal 21 Gramas (21 Grams, 2003), Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994), Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002) ou Sob a Areia (Sous Le Sable/Under The Sand, 2000)?

Não escreva o seu roteiro como se ele estivesse saindo de uma linha de montagem. Isto pode chocar os mais jovens da platéia mas –  cubram os seus ouvidos! – isto é exatamente o que você deveria evitar. Por quê? Porque todo mundo está escrevendo o mesmo roteiro estúpido de três atos! Se você topar com uma regra em um livro de roteirismo, provavelmente é melhor quebrá-la. Passar pela árdua tarefa de ajustar a sua ideia em algo pré-embalado e contido é o oposto exato da liberdade que deve ter lhe atraído para a escrita em primeiro lugar.

5 – Seja original, e pegue leve com as homenagens

Seja original. É, eu sei, você está começando a ficar enjoado de escutar isso. Que pena. Qual é o motivo número um pelo qual ninguém quer ler roteiros de novatos? Porque todo mundo está escrevendo a mesma maldita porcaria de roteiro. Se você pôr de lado os suspenses policiais, os sobrenaturais noturnos arrepiantes, as comédias românticas sobre a galera na idade universitária, terá apenas um punhado de roteiros sobrando.

Se você tiver uma nova interpretação maravilhosamente inventiva de um suspense policial, deveria escrevê-la. Uma nova interpretação de um velho conto é tão boa quanto algo inteiramente novo. Mas o que você realmente precisa fazer é ser duro consigo mesmo. Pergunte-se se o que você está escrevendo é original, e tente responder honestamente. Se a resposta for de que é tipo Sete – Os Sete Crimes Capitais (Seven, 1995) com Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), descarte a ideia e trabalhe com mais afinco. Quando alguém tenta algo novo e falha, eu dou pontos a ele pela tentativa. Quando você lê algo que não passa de uma ideia roubada de outro filme, e ainda por cima a escrita é desprezível, você nunca mais irá querer ficar com aquela pessoa no mesmo recinto novamente. É como uma enxaqueca dupla rachando o centro de seu cérebro.

Talvez o subtítulo deste item deveria ter sido “Seja honesto consigo mesmo”, porque a maioria das pessoas não é.

Quanto às homenagens: ouça, eu sei que é divertido fazer referência ao trabalho daqueles que você gosta, mas a não ser que a homenagem esteja embutida como uma piada interna numa cena que já funcione, isso geralmente é uma auto-adulação. E quando a “homenagem” nada mais é do que uma cena ou ideia completamente pronta de outro filme, isto é chamado roubo. Não importa quão antigo ou quão obscuramente estrangeiro seja um filme, mantenha as suas mãos longe dele. Inspire os outros a lhe roubarem, ao invés de roubar os outros.

E na disputa maior, você não é Woody Allen, não é Joss Whedon, não é Charlie Kaufman (ou Shane Black, Daniel Waters, Quentin Tarantino, Scott Frank etc., etc.), então não tente ser. Você deveria querer que as pessoas tivessem apenas um modo de descrever você: com o seu próprio nome. Assim como você não quer escrever algo que possa ser reduzido a títulos de dois outros filmes Duro de Matar com Máquina Mortífera).

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4 – Não use diálogos para encher linguiça no lugar de uma narrativa ou de um desenvolvimento ruim de personagens

Quer fazer alguém dar uma boa gargalhada? Então, desleixadamente enfie uma descrição detalhada das deficiências psicológicas de alguém (por exemplo: “Ele nunca poderia ser amado!”) na boca de outros personagens. Confie em mim, isso irá arrancar umas boas risadas.

Isto é escrita malfeita e descuidada em sua pior forma. Se você não puder tornar compreensível o que estiver acontecendo – no enredo ou na cabeça de uma pessoa – e se reduzir a contar explicitamente para o público, irá rapidamente, inexoravelmente, descer pela descarga da privada da mediocridade.

Você nunca deveria usar outra pessoa, ou mesmo a própria pessoa, para revelar como ela está se sentindo – você precisa ser capaz de fazer isto através da atividade: através das ações dele, das comunicações com os outros, e pelo modo como nós vemos as coisas afetarem-no.

3 – Não aja com cautela e nunca faça o óbvio

De acordo com o passar dos anos, tendo lido mais e mais roteiros, eu acho que o que eu mais noto é que poucas pessoas se esforçam. Elas sempre fazem exatamente o que se espera delas. Os seus personagens seguem jornadas que são previsíveis. As risadas, as piadas, o drama, as explosões emocionais – tudo preordenado em sua monotonia. O que me deixa mais excitado com um roteiro é quando ele tem novas ideias. Atividades estranhas, excêntricas e exuberantemente anormais. O tipo de coisa que ao lê-la, eu sorrio e digo: “Eu nunca previ isso.” É isso o que eu quero: uma surpresa. Leve-me para algum lugar de modo que eu não tenha ideia de onde esteja indo, e esteja em suas mãos.

Agir com cautela é criar uma história feita para ultrajar e não levá-la adiante com algo honesto. Eu penso nisso como uma síndrome de A Última Ceia (Monster’s Ball, 2001). Fazer um personagem racista, ou lidar com o racismo de frente, não é simplesmente fazer alguém usar a palavra ‘preto’. Se você criou a coragem de escrever sobre algo tão carregado quanto o racismo, então escreva um roteiro que faça isso, ao invés de evitar comprometer-se dando respostas fáceis e linhas finamente desenhadas separando o bem do mal para tirar o público de uma situação difícil.

Esteja pronto para ofender as pessoas, chocar as pessoas, ir onde as pessoas não querem que você vá. Não comprometa a integridade da história só porque alguém talvez confunda os seus sentimentos pessoais com os dos seus personagens, ou porque o assunto é delicado. Se você seguir esse caminho (e deveria), você deverá estar prontamente batendo a sua testa contra a parede e ter o coração e a força para ver o assunto de todos os ângulos para poder desafiar o leitor.

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2 – Divirta-se

No final, é isso o que conta. Escrever deveria ser a maior diversão que você pudesse ter usando roupas. Deveria ser o seu melhor amigo, a sua esposa, a sua amante, a sua mãe, a sua vida. Deveria ser tudo o que você quer. Deveria ser o seu sonho favorito e o mais habitual.

Não – por favor, por favor, por favor, não – se preocupe com sinopses, em vender o seu roteiro, com o que está popular e com reescritas. A verdade é, você provavelmente nunca conseguirá que o roteiro seja feito. As chances estão contra você. É mais do que provável que você nem consiga que alguém o leia. Quando você se sentar e começar a digitar, é tudo sobre você – sobre escapar e criar o seu próprio mundo e formar estes personagens que você faz falar. Mesmo se você for sortudo o suficiente para levar o seu roteiro ao próximo estágio, a primeira versão é sua. Deixe-a seguir em frente rapidamente.

Outros podem discordar, mas eu sinto que se a escrita for uma luta, ela também será um desperdício.

1 -  Conheça os seus personagens

De longe o maior erro que eu vejo em roteiros são personagens que não têm nenhuma profundidade. Eles são superficiais, bonecos de papel sem importância criados somente para levar um enredo adiante. Estas criaturas frias como gelo não têm uma gota de sangue correndo em suas veias.

Como escritor, como criador, como o homem que pega um naco grande de argila e molda uma forma de vida, você tem de ser capaz de contar tudo sobre esta pessoa. Não apenas onde elas nasceram, onde cresceram, como eram os seus pais e a sua vida familiar, mas também quais são os seus sonhos, se elas realizaram esses sonhos, e o que elas querem do mundo. Qual é a motivação delas para continuar seguindo na vida? Você precisa ser capaz de dizer o que o seu personagem faria ou diria em qualquer situação.

É claro que a maioria dos escritores não se incomoda com estas questões, com estas descobertas divertidas, e isto acaba transparecendo na superficialidade do personagem e em seus diálogos inflexíveis. Se você sabe quem o seu personagem é (e isto não é difícil, já que é você quem está criando ele) o personagem irá falar com você. Ele lhe contará o que quer falar. Ele lhe deixará saber quando estiver fazendo um movimento em falso.

Para mim é incrível toda vez que eu leio um roteiro e o personagem principal é um borrão sem graça e sem rosto: sem passado, presente ou futuro. A única coisa para que ele serve é uma fala dita às pressas sobre algo em sua vida ou algum perigo/drama atual em que ele esteja. O que eu quero de um escritor é que ele seja capaz de me contar o momento mais embaraçoso de seu personagem. Quem ele levou para o baile de formatura. Quem ensinou-o a dirigir, quando ele sentiu-se como um adulto pela primeira vez, quem foi a sua primeira paixão, com que celebridade ele sonhava quando era um garoto, quem era o seu herói na época e quem é hoje. Eu quero que ele me conte o que moldou a vida deste cara e como isso está afetando a história que estou lendo agora.

Se você não souber quem são os seus personagens principais, o leitor certamente não saberá. Você deveria começar com o personagem. Se você fizer isso, as coisas irão se propagar a partir daí.

Bem, estes são os meus conselhos sobre o assunto. Sinta-se livre para ignorar a informação que acabou de ler. Como escritor, você precisa fazer o que lhe deixa feliz. Porém, se eu consegui evitar que alguém escrevesse outro roteiro hollywoodiano insípido, então eu ajudei tremendamente a sociedade.

— Darwin Mayflower

Braga Tepi -Andarilho

Acabou-se aqui. Um abração para todos, e boa escrita hoje!

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2 Comentários

  1. Valeu , gostei da ilustração com a peça escultura o andarilho,essa peça foi o maior sucesso na exposição Molibdênio é de minha altoria. Abs

    Comentário por Braga Tepi — 03/01/2011 @ 22:05

    • Olá, Braga Tepi, seja bem-vindo, é uma honra imensa tê-lo aqui!! 😀

      Eu sou uma grande admiradora de seu trabalho, suas esculturas são muito criativas, diferentes, interessantes, e por vezes, inquietantes! Eu amo o “Homem Pássaro”, “A Síntese dos Sentidos”, o “Observador do Futuro”, entre outros. O seu trabalho é magnífico.

      Eu acredito firmemente que um escritor não deve apenas ler livros e assistir filmes, mas se inspirar em todas as formas de arte, seja ela a pintura, a escultura, a música, a dança etc. E os seus trabalhos são extremamente inspiradores, Braga! Fico super feliz de ter tido essa oportunidade de falar com você e dizer o quanto eu o admiro!

      Um grande abraço, Braga Tepi, muitíssimo obrigada pela visita, e continue nos inspirando com seu incrível trabalho!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 04/01/2011 @ 11:32


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