Dicas de Roteiro

29/03/2010

Os Erros Mais Comuns do Roteirista (2)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:11
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Este artigo foi escrito por Darwin Mayflower para o site UGO Screenwriter’s Voice (que hoje em dia é apenas UGO). O nome do autor é um pseudônimo, e vem do personagem interpretado por Richard E. Grant no filme Hudson Hawk – O Falcão Está à Solta (Hudson Hawk, 1991). O artigo chama-se Os Top 11 Erros Mais Comuns Em Roteiros e, como é um tanto longo, eu o postarei em duas partes. Ah, e esse artigo também já saiu do ar, é outro que está renascendo das cinzas!

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Aviso importante: esta é a minha opinião pessoal. Se você vir aqui nesta lista qualquer coisa que contradiga algo que ache vantajoso, então imediatamente desconsidere-a. Exceto por uma categoria, todo o resto é subjetivo. Simplesmente não há nenhum modo “correto” de se escrever um roteiro. O que eu lhe apresento agora não é nada mais do que coisas que eu tenho visto, várias e várias vezes, nos mil ou mais roteiros que li no passar dos anos. E enquanto eu acho que isto aqui ofereça uma certa solidez empírica, você deve sempre ouvir a voz que é a mais importante: a sua própria.

11 – Três palavras: brevidade, brevidade, brevidade

Mantenha o seu texto num mínimo. Você quer ver a face de um leitor, empresário ou produtor empalidecer? Então dê a ele ou ela um roteiro com imensos blocos de texto. O estômago dele irá se contrair, o suor irá gotejar de sua testa e ele definitivamente irá encontrar algo melhor para fazer. Goste ou não, o seu roteiro não é nada mais do que uma lista de diálogos para o elenco decorar. Então não canalize o seu Fitzgerald interior para impressionar alguém com a sua prosa descritiva. É inútil. Guarde isto para o romance que você irá escrever algum dia.

Se um cara entra em uma sala, tudo o que você tem de dizer é que ele entra numa sala. Não me conte qual é a cor do papel de parede ou de qual época são as cadeiras. Lembre-se de que apenas os detalhes importantes deveriam ser incluídos nas descrições. Nunca fique contando cada pôster que está pendurado na parede ou o que está na caixa de CD de alguém. A melhor coisa que um roteirista pode ter é concisão. Diga muito dizendo pouco. Comunique tudo o que é preciso saber sobre alguém em uma frase perfeita.

Vida é equilíbrio, assim como a escrita de roteiros. Você não precisa refinar o seu texto até o minimalismo de Walter Hill. Use os seus músculos de prosa comedidamente, para que quando você usá-los, ela tenha um sentido. A apresentação de sua protagonista feminina é uma coisa importante para você? Então dê tudo o que você tem – conte-nos sobre cada curva dela – só não faça isto com todo mundo. Vá à loucura ao descrever o esconderijo colonial de seu personagem principal, mas limite os outros domicílios a “um apartamento”, “uma casa”, “uma espelunca”, “um lugar bacana” etc.

 Pesquisa

10 – Faça pesquisa

Se você escreve um personagem com um emprego específico – seja um policial, um chef confeiteiro, um carpinteiro ou um taxista – assegure-se de ao menos fazer alguma pesquisa básica para descobrir o que o trabalho requer. Nada me deixa mais louco do que roteiros que apresentam personagens com certas profissões onde se torna claro que o escritor não tem ideia nenhuma do que se trata o ofício. Hoje em dia, com a internet, a pesquisa está mais fácil do que nunca. Digite algumas poucas palavras no Google e você achará, no mínimo, informações rudimentares sobre o seu assunto. Não é injusto um leitor questionar a competência e a dedicação de um escritor quando ele consegue notar falsidades óbvias na descrição de um trabalho. Recentemente eu li um roteiro onde o personagem principal era um fotógrafo de moda e estava claro, desde a primeira cena, que o escritor não sabia nada sobre esta vocação ou sobre o mundo que a cerca. Um dos piores casos foi “Os Detalhes Sangrentos”, um roteiro baseado no trabalho das equipes de limpeza de cenas de crime. O roteiro inteiro existia por causa deste trabalho, e o escritor nem se importou em descobrir o que o pessoal da limpeza de cenas de crime faz.

Outras vezes isto se torna constrangedor. Se você tem os seus policiais, ou advogados ou médicos fazendo coisas realmente tolas – um policial agindo como delegado de polícia, um advogado tentando levar o caso ao tribunal errado, um médico identificando erroneamente uma doença – o seu drama de repente se torna uma comédia.

Pesquisar é fácil. E pesquisar é divertido. Isso também lhe ajuda a aprofundar o seu personagem. Tornará mais fácil preencher o passado dele. E você descobrirá que pesquisar irá gerar ideias: você lerá sobre a experiência de alguém no emprego e isso abrirá possibilidades que você, com o seu conhecimento limitado, jamais teria pensado. Há níveis para isto, é claro. Se o trabalho estiver em segundo plano, eu suponho que não seja necessário ficar cego de tanto ler na biblioteca. Quanto mais importante a profissão for para a história, mais informado você deveria estar.

[N.T.: Uma boa página que ensina a pesquisar melhor na Internet é a da Secretaria da Educação. Vale a pena dar uma conferida.]

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9 – Escreva diálogos naturais

Escreva os diálogos do jeito que as pessoas falam. Que, no geral, é essa glória gaguejante e cheia de pausas da procura por palavras. Se alguma coisa excitante ou dramática acontecer, assegure-se de que ela apareça nos diálogos. Não tenha medo de fazê-los caóticos, fluidos e hesitantes. O que você precisa fazer é um tantinho de ato de mágica: o diálogo tem de parecer com algo que alguém poderia dizer, mas deve ser muito mais interessante do que qualquer coisa que uma pessoa normal fosse criar na pressa.

Se uma mulher está de pé na rua e alguém de repente atira no homem que está parado ao lado dela, eu tenho certeza de que quando ela falar sobre isto para a polícia mais tarde, ela soará mais ou menos assim: “Eu estava… Eu só estava parada ali, e então esse cara – esse homem – ele tinha uma arma e… e ele atirou nele! Eu fiquei tão aturdida! E ele nem mesmo olhou para mim. Ele s-só saiu andando!” Isto soa melhor do que, “Eu só estava parada ali e então este cara armado atirou nele! Eu fiquei tão aturdida! Ele nem olhou para mim. Ele só saiu andando!”

Escritores como David E. Kelley, David Mamet, Ron Bass e Shane Black – que escreveram todos diálogos fabulosos – levam isso um passo adiante e jogam a gramática pela janela quando escrevem diálogos. Esta é uma situação em que você não tem de se prender ao sentido mais exato das normas gramaticais.

Um ator pode muito bem jogar as suas pausas e o seu gaguejamento fora. Mas isto realmente ajuda o leitor a se perder no seu mundo, e torna mais fácil ouvir o diálogo exatamente como você pretendia que fosse ouvido. Veja do seguinte modo: se o seu personagem falar como um robô, ele se tornará um robô.

Note também, é claro, que só porque você joga um bocado de gagueiras e pausas em seu diálogo, isso não o torna natural. Você pode ter todos os gaguejos do mundo, mas isso não ajudará em nada se as falas forem rígidas. Você também deveria evitar fazer todo mundo falar com a sua linguagem. O melhor exercício que eu já vi para isto é criar uma situação – como assistir a um acidente na rodovia – e fazer cada um dos seus personagens falar sobre o que eles viram. Se todos os personagens fizerem as mesmas observações e falarem do mesmo jeito, você estará em apuros.

8 – Aprenda a escrever corretamente

Este é o único fato incontestável deste artigo. Você nunca deveria ter erros de ortografia em seu roteiro. Não é verdade que se você tiver um erro de digitação em seu roteiro um produtor ou agente irá jogá-lo na lata de lixo. Erros acontecem. Está tudo bem se o seu dedo escorregar no teclado e você escrever “dele” no lugar de “ele”. Mas se isto for constante e disseminado no roteiro todo, e se isto estiver por toda a parte nas primeiras páginas, o leitor irá perder o respeito por você. E então você se encontrará na posição de ter de reconquistá-los, que não é onde que você quer estar.

Com a correção ortográfica salvando a nossa pele hoje em dia, a maioria dos erros de ortografia aparecem em palavras como “its” e “whose”. Ou “let’s” e “due”. [N.T.: Não traduzi as palavras por desconhecer quais são os erros mais cometidos em português, mas dá para entender o que ele está tentando dizer.] Uma vez eu escrevi um artigo inteiro sobre isto e mais tarde eu o apaguei porque pensei que era pretensioso demais dizer às pessoas como escrever corretamente. O melhor modo de combater isto, com exceção de entregar o seu roteiro para alguém que seja um bom editor, é prestar atenção ao que você lê. Eu posso lhe garantir que cada revista, livro ou mesmo história em quadrinhos que existe neste instante tem pelo menos um uso para a palavra “its”. E ainda assim nove entre dez pessoas escrevem isso errado.

Eu só mencionei isso porque eu vejo o tempo todo. Constantemente. Isso se tornou um pouco assustador, para ser honesto com você.

Ortografia e gramática não irão lhe fazer ganhar ou perder nenhum prêmio, mas mantê-los fora de discussão é uma coisa muito boa.

korassaum di estudantiii

7 – Não se desculpe pelo comportamento de seus personagens

Está tudo bem escrever um canalha irredimível. Contanto que ele seja interessante. Você não tem de matá-lo no final, ou fazê-lo ver a luz, ou “salvá-lo”. Algumas vezes um filho-da-mãe deve permanecer um filho-da-mãe. Não caia na sedução dos “arcos do personagem”.

Muitas vezes os roteiristas criam um homem vil, pervertido, indecente – geralmente mordaz e mal-humorado –, e nos deixam ter toda a diversão do mundo com ele – até o final, quando ele tem de voltar ao seu comportamento anterior e admitir sua “culpa”.

Não há regras de como viver a sua vida (a não ser que você entre numa atividade criminosa, mas vamos simplificar). Então, quando escritores fazem um personagem que vive fora da norma se rebaixar e mudar no final, eles estão se desculpando pelo comportamento do personagem, dizendo que viver fora da norma é “errado”. Isso não apenas é contrário à realidade, mas é também entediante. Grosseirões são engraçados. Vadias são ainda melhores. E só porque alguém é desagradável isto não significa que ele tenha que se esforçar ao máximo para agir conforme as regras.

Deixe os seus personagens serem quem são. Sem desculpas. Não compre a ideia de que todo mundo precisa mudar a si mesmo para se encaixar em algum ideal. Porque algumas vezes, quando um escritor está fazendo alguma coisa diferente, onde ele começa é nesse ideal, só que distorcido e desvirtuado.

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Paramos por aqui. Amanhã teremos o final do artigo. Boa escrita para você hoje!

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