Dicas de Roteiro

27/03/2010

Escola de Cinema Em 10 Minutos de Robert Rodriguez – Parte 3

Aqui vai a última parte do capítulo do livro Rebel Withou a Crew, de Robert Rodriguez:

Robert Rodriguez

Montando o Seu Filme

Geralmente, ao editar em vídeo você transfere o filme para uma fita digital, ou 1” , e então faz um dub [N.T.: Cópia de um meio eletrônico para outro. Pode ser um som ou uma imagem de vídeo. → Retirado do livro Direção de Cinema – Técnicas e Estética, de Michael Rabiger, Editora Campus; uma excelente fonte de informações para quem quer fazer seu próprio filme] para uma ¾” e faz uma edição off-line. [N.T.: Edição de vídeo manual, não computadorizada]. Mais tarde, você conforma [N.T.: corta o negativo, ou o original na versão final do longa] a fita de 1” usando os números SMPTE correspondentes impressos na fita de vídeo. Isso é ótimo se você for rico, caso contrário, você pode fazer algo como o que eu fiz em Mariachi, mesmo não sendo a melhor opção. Eu simplesmente montei off-line em ¾”, sem números. Eu fiz sem números porque nunca esperei conformar nada. Eu ia direto para o mercado de vídeo, vender a minha fita ¾” editada off-line como fita master [N.T.: fita de onde se originarão todas as demais cópias].

Direção de Cinema

Mas o que isto fará é lhe dar um copião barato de seu filme para mostrar por aí, onde talvez um distribuidor de filmes ou vídeos interessado possa comprar o seu filme e pagar pelos custos de finalização. Veja, isto é diferente do que as faculdades e os livros de cinema lhe ensinariam. Todos eles iriam lhe dizer para pegar os seus rolos de filme de 16mm, editar num copião (work print), conformá-lo, fazer as primeiras cópias (answer prints) e então arranjar exibições para distribuidores, ou mandar as primeiras cópias para festivais. O que não é uma má ideia se você for milionário. Para o resto de nós existem modos mais inteligentes e muito mais baratos de alcançar os mesmos resultados. Fazer uma primeira cópia a partir de um negativo conformado para o Mariachi teria me custado pelo menos outros 20.000 dólares. E o que teria acontecido? Eu teria mostrado ele para um estúdio ou distribuidor e eles teriam-no comprado e pago por uma ampliação para 35mm e mixagem de som estéreo a fim de que os cinemas pudessem exibi-lo. Esse é o trabalho deles. Então por que mostrar a eles uma cópia cara do filme quando você pode mostrar-lhes o filme copiado num vídeo barato? Eles ainda teriam de ampliá-lo para 35mm de qualquer jeito. Deixe-os arcar com os custos; é o trabalho deles fazer isso. Tire vantagem das novas tecnologias, e também repense e questione todos os velhos métodos. Existem maneiras melhores de fazer as coisas e você pode descobri-las.

Algumas pessoas dizem que cortar no próprio filme ao invés de no vídeo ou no computador dá ao cineasta uma relação muito mais íntima com ele por permitir a manipulação manual das imagens, ao invés de apertar botões eletrônicos para montar o seu filme. Se você gosta desta ideia, faça a si mesmo um favor e leve à noite algum filme para casa e afague-o o quanto quiser. Mas quando chegar a hora de montar o seu longa, use um vídeo ou um sistema computadorizado. Em minha opinião, cortar em filme é o modo mais lento e absurdo de se montar um longa. Montar numa droga de sistema de vídeo off-line é mais rápido e isso já é bem incômodo. Quando você está cortando o seu próprio filme, aquele pelo qual você tem vivido e respirado desde sempre, as ideias que você tem ao montá-lo vêm tão rápido que cortar em filme apenas atrasaria aquele impulso – a espera e o tempo consumido lhe matam criativamente. Me mata, de qualquer modo. Eu descobri que editar em vídeo é muito mais condizente com o modo que você pensa, e você pode cortar uma cena quase tão rápido quanto você a vê passando em sua cabeça.

El_mariachi

Eu não mencionei o som. Eu rodei o meu filme mudo, gravando todo o som na locação sem controle, e então sincronizando-o mais tarde à mão. Veja, eles nunca teriam lhe ensinado como fazer isto na faculdade de cinema porque é trabalhoso demais. Eles prefeririam lhe ensinar como fazer isso do modo correto. Que é o modo mais caro. A conclusão é que não existe um modo único de se fazer as coisas. Invente o que quer que funcione para você. Após terminar o Mariachi eu ouvi alguns jovens falando sobre um filme que eles estavam rodando com uma câmera sem som, e apesar deles não terem um Nagra [N.T.: Gravador de som direto mais utilizado no Brasil e no mundo inteiro e que, por ser equipado com motor de quartzo, opera na mesma velocidade da câmera (quando equipada com o mesmo tipo de motor), permitindo o sincronismo total na hora de gravar a imagem e o som → Retirado do livro O Filme Publicitário, de Leighton D. Gage e Cláudio Meyer, Ed. Atlas, 1991. Hoje em dia os mais usados são os gravadores digitais, que são muito mais fáceis de se trabalhar e onde não há perda de qualidade ao se fazer cópias], eles gravaram todo o som digitalmente usando uma câmera Hi-8. Ideia legal. O Hi-8 tem som digital. Eles podem transferi-lo mais tarde e ter um ótimo som. Outros que eu encontrei estavam gravando o som diretamente no disco rígido (HD) de seus computadores e editando-o digitalmente, usando programas de edição de som como o Protools [N.T.: Aqui no Brasil são muito usados o Cubase e o Sonar]. Elabore o seu próprio jeito.

Então por que a maioria dos filmes custa tanto? Um dos motivos principais é que eles levam tempo demais para rodá-los. Existe uma falta de tomada de decisão perante um filme. As pessoas levam cinco meses para rodar alguma coisa que vai durar cerca de uma hora e meia na tela. Na maior parte dos filmes eu não vejo por que alguém precisaria de mais do que catorze dias para rodá-los. Quando você está gastando no mínimo cinquenta mil dólares por dia, pensaria que um diretor consciente dos custos conseguiria o máximo que ele pudesse num dia.

Toda vez que alguém fala sobre rodar filmes, eles não falam a mesma coisa? Eles dizem: “É a espera… a espera.” Todo mundo espera. Eu estou lhe dizendo, esperar é ruim. A espera é sua inimiga. Esperar irá matar a sua criatividade, e irá matar a sua energia.

Então, como você filma rapidamente? Ensaie até que você ache que está bom, rode-o e então esqueça-o. Siga em frente. Tenha em mente que o seu filme será feito de muitas partes, e incutir um monte de detalhes e refilmagens dolorosas de cada pequenino instante é um desperdício de seu tempo e dinheiro. É o efeito geral que você está procurando. Acostume-se com a ideia de que você terá de viver com a primeira ou a segunda tomada, e fazê-la funcionar mais tarde na sala de edição. Se você planejou as suas tomadas cuidadosamente, descobrirá que terá tudo o que precisa quando chegar à fase de montagem. Novamente, siga os seus instintos. A melhor coisa de operar a sua própria câmera é que você sabe quando conseguiu a tomada. Ao olhar através das lentes enquanto a ação está acontecendo, você vê como o seu filme irá aparentar na tela. Você não consegue esta percepção com um monitor de vídeo ou qualquer outra coisa.

Chega de ensinar. Saia daí e faça um filme. Porque eu estou lhe dizendo, Hollywood está pronta para ser tomada. Existem tantas pessoas criativas aí fora se coçando para fazer alguma coisa, mas elas são negativas demais ao pensar que nunca chegarão a lugar algum, ou que o que desejam nunca irá acontecer. Eu sei tudo isso porque eu acreditei na mesma coisa por tempo demais. Então vá em frente com isso e me ligue quando tiver terminado. Você faz o filme e eu levo a pipoca. Até lá… tudo de bom.

Trabalhe duro e seja assustador.

Robert Rodriguez

El mariachi

Acaba aqui o capítulo. A seguir estão mais alguns links interessantes…

Aulas de culinária de Robert Rodriguez:

10 Minute Cooking School – Puerco Pibil

10 Minute Cooking School – Breakfast Tacos

Palestra em que Robert Rodriguez explica porque agora só usa High Definition (e nem liga mais para o fotômetro):

Film is dead – Parte 1

Film is dead – Parte 2

Paródias deste capítulo:

Robert Rodriguez Five Minute Film School

Robbie Rodriguez’s 1-1/2 Minute Film School

E mais o seguinte texto:

Cinco filmes que custaram menos de US$ 100 mil e viraram hits

Espero que tenham gostado. Boa escrita e boas energias para o seu filme. Até!

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