Dicas de Roteiro

22/03/2010

Escrevendo Diálogos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 23:05
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Olá! Este é o antepenúltimo artigo do site The Screenwriters Homepage, e o último escrito por Brad Mirman. O artigo seguinte a este foi escrito por um roteirista convidado, e o último é uma entrevista. Este aqui chama-se Escrevendo Roteiros.

Tennessee Williams takes a break at the typewriter in 1948O dramaturgo americano Tennessee Williams (1911-1983) 

“Eu digo as falas em voz alta enquanto escrevo…” – Tennessee Williams

Nada arruína mais um roteiro do que diálogo de má qualidade. Escrever diálogos bons e verossímeis é uma das partes mais difíceis de ser um bom roteirista. Nós temos que sair de nós mesmos e nos tornarmos o personagem.

E isso é realmente possível?

Na minha última coluna abordei a escrita a partir de nossas próprias experiências. Eu recebi um monte de correspondência – alguns de vocês concordaram – alguns não. Para aqueles que não concordaram, deixe-me apenas dizer isto: É claro que é possível escrever sobre assuntos e personagens fora de nossas experiências. Eu não quis dizer que você precisa ter lutado na Guerra Civil para poder escrever sobre ela (como um de vocês sugeriu). Eu quis dizer que uma compreensão prática de uma época e de um mundo em particular ajuda a criar um personagem verossímil.

No roteiro que eu acabei de escrever, um dos personagens é um criminoso negro, criado nas ruas. Para me colocar naquele mundo, eu fui para aquele mundo. Eu falei com jovens homens negros e escutei o modo que eles falavam, as suas gírias, os seus pontos de vista sobre o mundo, os seus pensamentos. As ideias e pensamentos deles originam-se do mundo em que cresceram… um mundo completamente diferente daquele em que eu cresci.

Se, antes disto, eu simplesmente sentasse e tentasse escrever a partir da minha experiência própria, eu iria escrever sobre como eu percebia a fala dos outros.

O ponto que eu quero apresentar é que diálogos verossímeis algumas vezes podem ser verossímeis demais. O modo como a maioria das conversas se desenrola é muito enfadonho. Se você tentasse escrever uma conversa normal e realística, ela poderia tomar dez páginas. Em um roteiro você não tem dez páginas para provar um argumento. Você tem de fazê-lo rapidamente e dar ao público algo em que pensar.

Brad Mirman - a direita - dirigindo Crime Spree

Brad Mirman – à direita – dirigindo os atores de Procurados (Crime Spree, 2003)

Um dos sinais mais ostensivos de que alguém é um escritor principiante é que todos os personagens falam igual. Eles têm o mesmo vocabulário, a mesma cadência em seu discurso. Isto é porque o escritor está escrevendo todos os personagens como ele mesmo. Ele não está olhando para o lado sombrio, luminoso, feliz, triste, masculino e feminino de si mesmo. Ele está escrevendo todos os personagens como a somatória total de si mesmo que ele apresenta ao mundo.

Uma vez eu li um roteiro que um amigo meu escreveu. Ele queria ser roteirista e decidiu fazer uma tentativa. Bem, este amigo tem o hábito de frequentemente terminar suas frases com “sabe”. Ele me diria coisas como: “Eu não queria ferir os sentimentos dela, sabe?”, ou “Eu acho que a festa seria melhor na minha casa, sabe?”. Oras, adivinha! No roteiro não havia uma página em que esse “sabe” não fosse dito pelo menos duas vezes. E não importava qual personagem estivesse falando.

O meu ponto é: ele nunca realmente desenvolveu os seus personagens. Eles eram apenas extensões de si mesmo. Não importava se o personagem se chamava Jack, Sally ou Paul, ele apenas os escreveu do jeito que ele falava… sabe?

Quando você pensa em discurso e em todas as possibilidades, isto pode ser uma coisa bem incrível. Por exemplo, quantas maneiras diferentes diferentes você pode pensar em dizer a mesma coisa?

Digamos que você esteja escrevendo uma cena com o seguinte grupo de pessoas:

► Um homem de 21 anos que nasceu e cresceu numa pequena cidade no Texas. Ele não se formou no ensino médio e trabalha num posto de gasolina.

► Uma mulher de 23 anos que está estudando Ciência da Computação na faculdade.

► Um homem de 57 anos que trabalha numa fábrica de empacotamento de carne.

► Uma mulher de 52 anos que é divorciada. Ela cresceu numa família rica e foi para as melhores escolas particulares do país.

Eu acho difícil de acreditar que todas estas pessoas diferentes, de passados tão diversos, iriam falar do mesmo jeito, mesmo que remotamente. Um bom exercício seria escrever uma cena de três páginas com estes personagens. Por exemplo, O homem de 21 anos poderia começar a conversar dizendo: “No caminho para cá eu atropelei um gato.”

Diálogo 1 

Okey, o que eu escrevi não vai ganhar nenhum Oscar, mas eu só queria mostrar a diferença básica do modo como as pessoas falam. Quero dizer, você não escreveria isso assim:

Diálogo 2

E você não escreveria…

Diálogo 3 Pense nas pessoas e no que as motivam a dizer o que dizem. O quão abertas elas são? O quão emocionais? O quão educadas? Quão bem elas são capazes de expressar as suas emoções, mesmo que tenham o vocabulário para tanto?

Toda vez que você escrever uma fala de diálogo, você deve pensar em como a outra pessoa na cena reagiria ao que acabou de ser dito. Como elas expressariam a sua reação? Quais conflitos se desenvolveriam a partir da reação delas? Escreva e veja onde isto lhe leva.

Além disso, na próxima vez que você sair com um grupo de pessoas, apenas fique na sua e escute como elas falam. Você irá ouvir ideias exprimidas de maneiras que jamais teria pensado em dizê-las. Isto ajuda a sair de si mesmo e lhe dá as ferramentas para escrever personagens diferentes de você.

Não Me Conte, Me Mostre

Esta é uma das primeiras lições que eu aprendi sobre roteiros. Filmes são um veículo visual. Eu vou VER um filme. Um erro comum que eu leio em muitos roteiros de escritores principiantes é que eles tentam transmitir a história pregressa de uma tacada só.

Diálogo 4

Tudo bem, você deve estar pensando que isto foi um pouco exagerado. Acredite em mim, eu já li coisas piores do que esta. Bem, o diálogo acima é TÃO RUIM que é quase engraçado. A questão é: NINGUÉM FALA DESTE JEITO! NINGUÉM LHE CONTA COISAS QUE SABEM QUE VOCÊ JÁ SABE! Você poderia, do mesmo modo, ter os atores olhando diretamente para a câmera e falando com o público.

Diálogo, um bom diálogo não é fácil de se escrever. É por isto que filmes como Rede de Intrigas (Network, 1976), Sorte no Amor (Bull Durham, 1988), Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994) e Chinatown (Idem, 1974) são tão prazerosos de se assistir. A chave para se escrever um bom diálogo é escutar… não a si mesmo, mas os personagens que você criou.

Boa escrita para você hoje!! couple_07a couple_07b couple_07c

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5 Comentários

  1. Adorei essa matéria.
    Eu acredito que os diálogos são o que tem de mais importante em um roteiro.

    Ontem mesmo, na Rede Record, passou um filme tem diálogos ótimos e plausíveis, “Juno”.

    Continue com o ótimo trabalho que você tem feito com o blog 😉

    Comentário por Ewerton — 25/03/2010 @ 19:05

  2. Olá, Ewerton, benvindo de volta!

    Em primeiro lugar devo dizer que adoro os seus comentários! São sempre super interessantes! 😀

    Em segundo lugar, você acredita que eu ainda não assisti este “Juno”?! Mas como você o recomendou, vou caçá-lo para assistir logo!

    Em terceiro lugar, já vi filmes que eram o oposto de “Juno”, eles tinham diálogos tão risíveis, mas tão risíveis, que acabavam com qualquer pretensão de seriedade da história. Uma história boa com diálogos ruins está acabada. Sem salvação. Uma história regular com ótimos diálogos pode ser um sucesso. O ideal é juntar os dois, mas se não der, pelo menos os diálogos não deveriam ser tão ridículos a ponto da gente cair na gargalhada enquanto um ator representa um guerreiro moribundo dizendo as suas últimas palavras. Fica mal.

    E, para finalizar, muitíssimo obrigada pelo seu apoio, Ewerton, é super importante para mim, viu? Super, super mesmo.

    Um abração e volte sempre, Ewerton!
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 26/03/2010 @ 07:42

  3. OI, valeu pelo texto! estou precisando de bastante ajuda, já que sou um principiante de 12 anos escrevendo um roteiro pra minha HQ, ainda bem que roteiros de filme e livros tb ajudam a escrever um roteiro de HQ.
    Eu ando procurando dicas na internet, e eu encontrei um legal aqui, eu graças a Deus não errava antes, mas com essa ajudinha posso melhorar ainda mais… Claro que não dá pra variar muito no meu Roteiro, todos meus personagens tem de 5 a 13 anos, mas eu consigo mudar uns ou outros pelas caracteristicas de personalidade, pra mim criar esses dialogos é mais facil, pq 90% dos meus personagens são baseados em amigos e parentes (e inimigos tb) inclusive um é baseado em mim, mais facil ainda de escrever, e tem mais facilidade pois sou amigo de basicamente todo mundo, e cada amigo meu tem um estilo diferente, (eu sinceramente não gosto de andar com pessoas que seguem moda, eles são todos iguais, falam as mesmas coisas chatas) por isso está cada vez mais facil criar personagens, roteiros e dialogos verossimeis, Mas eu queria te pedir uma coisa, esses ultimos paragrafos do texto vc escreveu sobre o “NÃO ME CONTE, ME MOSTRE” e deu o exemplo do modo errado, vc poderia me dar um exemplo do modo certo? Só pra mim ter uma idéia.
    PS: desculpe os errinhos de portugues.
    Atenciosamente Lucas Luciano

    Comentário por Lucas Luciano — 24/05/2010 @ 23:55

    • Olá, Lucas! Seja benvindo!

      Nooossa, você tem 12 anos e já está escrevendo uma HQ? Isso é o máximo, muito legal mesmo!! E se você já escreve bem assim nesta idade, imagina daqui a uns 10 anos!

      Que bom poder lhe estar sendo útil neste seu começo de carreira, isso me deixa muito feliz, de verdade! E você tem razão, Cinema e HQs têm tudo a ver, por isso que eu também estudo livros de HQs, para melhorar em Cinema! Você conhece os livros do Scott McCloud? São excelentes! Tem o Desvendando Os Quadrinhos, o Reinventando Os Quadrinhos e o Desenhando Quadrinhos. Infelizmente apenas o último ainda não está esgotado na editora, mas talvez você dê sorte de encontrar os outros dois no sebo ou em bibliotecas. Valem muito a pena!

      Que bom que você tem facilidade com os personagens, isso vai facilitar muito a sua vida, a criação de personagens é uma grande parcela do trabalho do escritor! E é ótimo quando a gente se baseia em personagens reais, fica muito mais “real” e coerente, o próprio Maurício de Souza fez a maioria de seus personagens baseados em familiares e amigos, e é um sucesso até hoje!

      Quanto à sua pergunta, a frase “Mostre, Não Conte”, é muito famosa entre roteiristas e professores de roteiro americanos. No caso do exemplo do post, ao invés de ter dois personagens CONTANDO o que aconteceu com o amigo deles, o filme (no caso, o roteiro) deveria ter cenas MOSTRANDO o que aconteceu com o amigo. Isso evita um blá-blá-blá chato, e emociona mil vezes mais. No exemplo do post ainda tem um problema maior: os dois amigos já SABIAM o que tinha acontecido com o amigo, portanto não tinha lógica um contar aquilo para o outro em detalhes. Isso foi um artifício de roteirista ruim, que queria evitar o trabalho de escrever as cenas que mostravam o ocorrido. Se estas cenas fossem importantes, deveriam ser mostradas, caso contrário, nem elas nem o diálogo deveriam estar no filme. Coisas sem importância são encheção de linguiça, e o público logo perde a concentração no filme, e fica entediado. Por isso é importante prendê-lo com cenas envolventes e emocionantes, e o mínimo de falação. Peças de teatro (e alguns livros de ficção) é que foram feitas para serem narradas através de diálogos, não o Cinema, nem as HQs. Portanto, devemos evitar cair neste erro, que, aliás, é muito comum.

      Obrigada, Lucas, pela visita! Espero ter lhe tirado a dúvida. Qualquer coisa, é só falar, estaremos sempre a postos para ajudá-lo!
      Um beijo grande e muita sorte e sucesso para seu empreendimento! Volte sempre! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 25/05/2010 @ 16:20

      • Oi, Lucas, sou eu de novo!!

        Lembrei de um site muito legal pra você visitar: Roteiro de quadrinhos. Lá também tem a indicação de livros sobre este assunto, é um site bem especializado e caprichado, excelente para quem gosta e para quem quer trabalhar no ramo. Espero que ele lhe ajude.

        Era só isso. Um beijo grande, Lucas, e até a próxima!
        Valéria Olivetti

        Comentário por valeriaolivetti — 26/05/2010 @ 09:18


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