Dicas de Roteiro

21/03/2010

A Psicologia da Escrita

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:26
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Olá! Hoje estou postando a tradução de mais um artigo de Brad Mirman. Eu sei que vocês querem variar os assuntos e os autores, mas já estamos chegando aos últimos artigos do site The Screenwriters Homepage. Falta bem pouquinho!! Quem tiver paciência ganha um doce! :mrgreen:

O artigo de hoje tem o mesmo título do post. Vamos a ele:

truman_capote O escritor americano Truman Capote (1924-1984)

“É uma vida muito excruciante encarar aquele pedaço branco de papel todo dia e ter que chegar lá em cima, em algum lugar nas nuvens e trazer para baixo algo de dentro delas.” – Truman Capote

Pelas respostas que eu recebi de vários de vocês, ficou óbvio que muitos já escreveram um roteiro antes. Então eu vou direcionar esta e as próximas colunas para o aperfeiçoamento do ofício. [N.T.: Eu não traduzi as colunas deste site na ordem em que estavam, pois não esperava que fosse traduzí-lo todo. A maioria das colunas posteriores a esta já estão postadas neste blog.] Além disso, em resposta a algumas das cartas que recebi, eu gostaria de mencionar que se você for escrever por qualquer outro motivo senão o amor à escrita, você terá uma longa estrada para percorrer. Escrever um roteiro, uma peça ou um romance exige tremenda dedicação e disciplina. É a paixão pela escrita que ampara o escritor através de todas aquelas horas solitárias. No fim das contas, o trabalho deveria ser sua própria recompensa.

Eu tenho pontos de vista muito firmes sobre quem pode ser um bom escritor e quem não pode. Eu acredito que se mostrar coisas relacionadas a história, estrutura e diálogo a alguém que tenha talento, estas coisas farão dele(a) um escritor melhor… e aqueles que não têm talento podem aprender a escrever roteiros ruins um pouquinho melhor. Então, quem tem talento e quem não tem? Sei lá! Eu posso ler um roteiro e pensar comigo mesmo, “Isto é horrível”… mas esta é apenas a minha opinião… e a minha opinião não significa nada fora de minha realidade.

Se eu ler algo e achar que os personagens são fracos e a história inexistente, eu me sinto muito confiante de que a maioria das pessoas da indústria iria concordar comigo… mas existem aqueles que não concordam, e talvez o roteiro seja vendido por uma fortuna. POR QUÊ? Porque todas as pessoas e cada uma delas é um ser humano diferente, com diferentes gostos e aversões. Quero dizer, se nós fôssemos todos universalmente os mesmos, com os mesmos gostos… então precisaríamos de apenas um sabor de sorvete – apenas um estilo de vestimenta – uma marca de carro etc.

Mas não somos, e é por isso que quando você vai a uma sorveteria ouve pessoas pedindo coisas que vão de chocolate crocante duplo com lascas – a surpresa de jujubas. É por isso que, quando você pede uma pizza com um amigo e ele pede anchovas e você faz cara de nojo, ele olha para você como se você fosse louco. É tudo uma questão de gosto. E, num sentido bem real, é o SEU GOSTO que determina como você escreve. O modo como você vê o mundo e tudo nele.

BradMirmanBrad Mirman 

Cada um de nós é uma pessoa única e diferente. O que nos faz diferentes? O lugar onde nascemos, quem são os nossos pais, o que eles nos ensinaram, o que eles não nos ensinaram, o que aconteceu conosco enquanto crescíamos – os bom e maus incidentes emocionais que nos moldaram no que somos agora… neste exato momento.

Nota: Não, você não clicou acidentalmente num link e foi transferido para uma página de psicologia. Entretanto, psicologia tem muito a ver com o que somos como escritores. Quando você se senta para escrever algo, você o extrai da soma total de suas experiências de vida. Elas moldaram quem e o que você é, e moldaram o seu modo de ver o mundo. Isto dá uma boa ou má percepção do que eu acho que são as duas qualidades mais importantes de um bom escritor: JULGAMENTO COMPARTILHADO e HABILIDADE.

Quando você pensa bem, isso é tudo o que a escrita realmente é. Julgamento. Quando eu escrevo um suspense, eu estou usando o meu julgamento do que sinto que seja inquietante… e esperançosamente (se eu tiver feito o meu trabalho), a maioria das pessoas que o lerem irão concordar com a minha opinião de que é assustador. Se outros concordarem comigo, então nós alcançamos o estado de Julgamento Compartilhado. Claro, a habilidade de escrever as minhas percepções para que outros concordem comigo é a chave fundamental para ser um roteirista de sucesso.

Você irá notar que eu disse ‘roteirista de sucesso’, não um bom roteirista. No mundo comercial de Hollywood, filmes=negócios… e negócios=produto comercial. Eu sei que se eu quiser escrever um filme pequeno e profundamente emotivo que lide com o relacionamento entre um pai alcoólatra e seu filho moribundo, eu terei muito mais dificuldade de vendê-lo do que um suspense sexy ou uma obra recheada de ação.

Agora eu vou lançar uma palavrona para você: Fenomenológico. [N.T.: Fenomenologia: (Filosofia) Em Hegel, espécie de autobiografia do espírito, que transita do conhecimento sensível ao verdadeiro saber; em Husserl, método filosófico que visa a aprender as essências absolutas das coisas]. Experimentar algo nos dá a habilidade de falar ou escrever sobre ele num sentido fenomenológico. Por exemplo, se eu disser: “Eu acho Paris uma ótima cidade, eu vivi lá por quase dois anos.” Eu estarei falando fenomenologicamente. Se você disser: “Eu nunca estive lá, mas muitos dos meus amigos dizem que é um lugar ótimo.” Você não estará falando fenomenologicamente, porque não tem nenhuma experiência direta disso. Obviamente, quando escrevemos a partir de conhecimento ou experiência direta, nós temos uma fonte muito mais rica de informações em que nos basearmos. Mas tem horas em que não podemos fazer isto.

Face a face com o inimigo

Quando escrevi Face a Face Com o Inimigo (Knight Moves, 1992), eu não tinha nenhum conhecimento direto de como é ser um assassino em série. Eu tive que tentar imaginar como ele seria. Como eu fiz isso? Entrando em contato com o meu lado sombrio e deixando ele correr solto na minha imaginação. Então eu comecei a montar o personagem. Como ele iria se mover e falar? Quem era ele? Por que ele era do jeito que era? Ele foi educado? Quais eram as emoções que o impulsionavam? Todas estas coisas formam o modo que um personagem fala. Muitas vezes quando começo um roteiro, eu escrevo 30 páginas só para ter uma ideia de como o personagem fala e age. Quando eu finalmente consigo isso, jogo as páginas fora e começo de novo. Se você já se encontrou andando para frente e para trás na frente de seu computador, dizendo para si mesmo “ele não diria uma coisa dessas”… então você sabe o que eu estou querendo dizer. Cada personagem que escrevemos é, de certa forma, uma parte de nós mesmos. O bom/mau, masculino/feminino, forte/fraco etc. Digamos que, como pessoa, você seja basicamente um tipo forte e extrovertido. Se estiver escrevendo um personagem que é forte e extrovertido, você terá uma vantagem – se o personagem for fraco e reservado, não terá. Você vai ter dentro de si menos experiências para coletar e sobre as quais escrever. Então, o que fazer?

Eu me lembro de conversar sobre isso com um outro escritor a alguns anos atrás. Ele disse: “Eu apenas tentaria imaginar como uma pessoa tímida seria.” Eu me lembro de pensar que esta era uma fonte muito pobre. Por quê? Porque ele estava tentando criar algo sem nenhuma experiência direta (e na verdade, nem indireta).

Isto nos leva a outro assunto: Alguns de vocês podem estar pensando que homens e mulheres escrevem personagens do gênero oposto – que escritores brancos escrevem sobre personagens negros e escritores negros escrevem sobre personagens brancos – que pessoas saudáveis escrevem sobre pessoas morrendo etc. Não há nenhum jeito de que eles jamais possam experimentar verdadeiramente, num sentido fenomenológico, aquilo que estão escrevendo. Verdade.

Então, como nós lidamos com isto? Aí vai uma palavra de oito letras que irá lhe ajudar: PESQUISA. Uma palavra muito simples que muitos escritores ignoram. Bem, obviamente existem horas em que você precisa mesmo deixar a sua imaginação correr solta. Quando eu escrevi Highlander III – O Feiticeiro (Highlander III – The Sorcerer, 1994), eu não pude sair por aí procurando por seres imortais e perguntar a eles como é nunca envelhecer, e como é cortar a cabeça de alguém. Quando escrever terror ou ficção científica, você tem de (ao menos em parte) confiar em sua imaginação.  Mas quanto à composição de McCloud, eu pude contar comigo mesmo e com outras pessoas que eu conhecia, para trazer um sentimento de solidão e isolamento para este personagem.

Highlander 3

Você ficará surpreso com quanta informação estará disponível para você se você se treinar em procurá-la. Eu gostaria de que você tentasse uma coisa. Compre um bloco de anotações pequeno e carregue-o com você. Sempre que você vir alguém e formar rapidamente uma opinião sobre ele, pegue o bloco. Por exemplo, você vê uma pessoa que instantaneamente lhe dá a impressão de ser tímida. No topo de cada página, escreva um tópico. Neste caso seria tímido – mas outros poderiam ser… hostil, zangado, louco, triste, solitário, inseguro etc. Agora olhe para a pessoa e escreva cada característica e qualidade que você consiga identificar e que faz você sentir que aquela pessoa seja tímida. A sua página pode parecer deste jeito:

shy_bear

TÍMIDO

➡ Não faz contato visual quando está falando.

➡ Postura muito rígida.

➡ Enrubesce facilmente.

➡ Sente-se incomodado perto de outras pessoas.

➡ Sorri desconfortavelmente.

Veja quantas características você pode associar com timidez. É claro que cada pessoa tímida tem características diferentes, mas está tudo bem, porque um dia quando você começar a escrever um personagem tímido, você irá contar com as suas observações para criar um personagem complexo. Tantos escritores apenas se sentam e começam a escrever os seus personagens sem pensar muito na composição psicológica deles… e isto geralmente aparece no roteiro. Quanto mais informação você tiver em que se basear, mais profundidade você irá incutir nos seus personagens.

Timidos Anonimos 

Muito obrigada pela visita, boa escrita hoje 💡 e até amanhã!

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