Dicas de Roteiro

20/03/2010

Começando

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:55
Tags: , ,

Este é mais um artigo de Brad Mirman, retirado do site dele, The Screenwriters Homepage, que não está mais no ar. O título do artigo é o mesmo do post.

O escritor, jornalista, poeta e humorista americano Don Marquis (1878-1937)

“Se você quiser ficar rico escrevendo, escreva o tipo de coisa que é lido por pessoas que movem seus lábios enquanto lêem para si mesmas.” – Don Maquis

Okey, então você decidiu que quer ser um roteirista. Você tem um computador, uma impressora, um programa de processamento de texto e está pronto para começar. Agora tudo o que você precisa fazer é descobrir um modo de botar a história que tem estado zunindo em sua cabeça no papel.

A primeira coisa que você precisa se perguntar é: Eu realmente tenho uma história? Eu não posso dizer quantos escritores já me contaram as suas ideias para um filme. Geralmente é algo que aconteceu com eles, ou com a família ou um amigo deles… ou um amigo de um amigo… ou um amigo da família que tem um amigo… Bem, você entendeu.

“A sua história de vida?… por que não, o mundo

está precisando de umas boas risadas!”

Eles dirão: Um cara está trabalhando numa loja com o seu amigo e entra um assaltante. Ele mata o amigo, pega o dinheiro e parte… e o amigo que sobrevive vai atrás dele por vingança. Olha, se você estivesse tentando vender esta ideia para um produtor ou executivo de estúdio, a primeira coisa que ele provavelmente diria é: “Só isso?”. AGORA, ANTES DE CONTINUAR LENDO, PERGUNTE A SI MESMO SE VOCÊ SABE POR QUE ELE DIRIA ISTO.

Ele diria isto porque o enredo acima não é uma ideia para um filme. É a ideia para os primeiros cinco minutos de um filme. Eu descobri que este é o problema de muitos escritores principiantes. Já que eles nunca escreveram um roteiro antes, é difícil para eles terem um senso do que é necessário para sustentar um roteiro por 120 páginas. Mesmo agora, eu conheço muitos escritores profissionais (eu inclusive) que começam a escrever um roteiro só para descobrir que ele acaba morrendo em algum lugar do segundo ato.

Então, como você sabe quando tem uma ideia que pode carregar um filme? Algumas vezes você não sabe. Às vezes isto só fica claro escrevendo. Por exemplo, digamos que você é um produtor ou executivo de estúdio. Qual dos dois enredos você seria capaz de instantaneamente ver como um filme viável?

(1) Jane Campion entra em seu escritório e conta uma história sobre uma mulher muda que se muda para a Nova Zelândia com a filha, onde ela entra num casamento sem amor e encontra conforto tocando o seu piano.

(2) Bob Gale e Robert Zemeckis lhe contam sobre um adolescente de ensino médio que viaja para trás no tempo, onde ele encontra os seus pais, e a sua mãe começa a se apaixonar por ele.

Okey, De Volta Para O Futuro (Back To The Future, 1985) é ‘high concept’ (o que significa que você capta a ideia toda de um filme em uma frase) e O Piano (The Piano, 1993), não é. Ambos são ótimos filmes, mas um é muito mais fácil de ver como um filme do que o outro. Então, como você vai saber? A primeira coisa que você precisa é fazer perguntas a si mesmo. Muitas e muitas perguntas.

Vamos usar o enredo do assaltante acima. Eu sei que é fraco, mas ei, você não acha que eu vou lhe dar uma boa ideia, acha? Então um Ladrão entra e atira no amigo. Por quê? É um acidente ou há algum motivo mais profundo? Se houver uma razão mais profunda (o que eu espero que haja, se eu for ficar sentado lá assistindo por mais 115 minutos), qual é ela? Quem é o nosso protagonista? Por que nós gostamos dele? O que ele tem de interessante o suficiente para nos prender durante o filme todo? Por que nós nos importamos com ele?

Se você disse “porque o melhor amigo dele foi morto” – ERRADO. O melhor amigo dele esteve no filme por 3 minutos. Nós não nos importamos com ele… ele foi forragem para a história. Nós temos de nos importar com o nosso personagem principal. É aí que a maioria dos escritores se atrapalha. Eles tentam deixar a história carregar o roteiro. A história é importante, mas ela tem de trabalhar em conjunto com os personagens.

Agora, (e isto é algo que eu acabei de pensar)… e se o nosso balconista fosse de algum modo considerado culpado pelo assassinato de seu amigo? E se ele escapasse e tentasse encontrar a pessoa responsável? E se ele tivesse que ir para o mundo do crime, das ruas… forçado a sair de seu mundo, isolado? E se os seus amigos virassem as costas para ele? De repente, um homem que vivia uma vida de trabalhador comum, normal, é jogado nas sombras…

O que eu estou fazendo aqui é o que eu faço quando eu tenho uma ideia. Eu exploro todos os caminhos para ver onde eles me levarão. Eu sei que se ele fosse falsamente acusado de assassinato, nós torceríamos para que ele se saísse bem. Eu sei que se ele fosse forçado a viver num mundo que ele não conhecesse nem um pouco, onde um movimento errado poderia significar o fim de sua vida, nós nos importaríamos com ele. Eu não estou dizendo que as ideias acima são boas… Estou apenas tentando mostrar-lhe como cada pensamento se ramifica em outros. Pense sobre todos eles e você ficará surpreso ao ver onde eles lhe levarão.

Brad Mirman dirigindo Claire Forlani em De Encontro Com o Amor (The Shadow Dancer, 2005)

Então, como você sabe se a sua ideia pode durar por duas horas? Escrevendo-a. Muitos escritores usam fichas de 3×5 polegadas para projetar as sequências de seus roteiros. Eu costumava fazer isto quando eu comecei, mas agora eu meio que vivo com a ideia por semanas e semanas. É um tipo de escrita Zen. Eu componho cada personagem e cada cena em minha mente e então começo a escrever. Se você nunca escreveu um roteiro antes, então eu sugiro que você tente usar as fichas 3×5. Isto lhe dará uma boa indicação para ver se a sua história irá se sustentar ou não. Você não tem de escrever todas as cenas, todos os movimentos – apenas as ações maiores que movem a sua história para frente.

Agora, antes que comecemos a entrar de fato na estrutura da escrita de um roteiro, eu gostaria de me desviar do assunto por um momento. Uma coisa que eu descobri sobre escritores principiantes é que eles se preocupam demais com coisas que não são importantes. Ao dar uma olhada em alguns sites e ler algumas das discussões, eu fiquei assombrado (realmente assombrado) com quanto tempo é gasto em tópicos como: Quantas ‘bailarinas’ eu devo usar? Eu preciso de uma capa? Que cor ela deve ter?

Para aqueles de vocês que são obcecados com isto, deixe-me dizer o seguinte: Gaste um pouco mais de tempo se preocupando com o que está dentro de seu roteiro, e menos na embalagem. Ninguém vai lhe dizer, “Sr. X, você escreveu um roteiro maravilhoso, mas eu odeio capas vermelhas e você só usou duas ‘bailarinas’. Se você não tivesse feito isso, nós o teríamos comprado.” Acredite em mim, quando você envia um roteiro para um produtor ou para um estúdio, eles querem gostar dele. É o trabalho deles encontrar e produzir um novo produto. A única situação que eu conheço em que você tem de se preocupar com a apresentação é quando você registra o seu roteiro no WGA (Writer’s Guild of America)… e eles não aceitam capa, nem ‘bailarinas’. Bem, eu não estou dizendo que em algum lugar por aí não haja um produtor imbecil que apenas leia roteiros com três ‘bailarinas’ e capas brancas – e se você topar com ele, então faça do jeito dele. Em geral, ISTO NÃO IMPORTA… duas ‘bailarinas’ ou três, com capa ou sem capa. Okey?

O motivo de eu estar gastando tanto tempo no assunto de ‘bailarinas’ e capas é que eu sinto que isto está relacionado a um outro problema. E este não se aplica somente a escritores principiantes: Procrastinação. Eu realmente sinto que parte do motivo de eu ter me tornado um escritor bem-sucedido foi a minha determinação de vencer. Quando eu comecei a escrever, comecei com várias outras pessoas que eu conhecia que também queriam ser escritoras. Algumas delas tinham um grande talento para a palavra escrita… outras não tinham.

Por que eu fui bem-sucedido enquanto os outros que também tinham talento não foram? Bem, sorte e estar no lugar certo e na hora certa têm algo a ver com isto. Mas a única diferença maior que eu consigo ver ao olhar para trás é que o meu empenho foi maior que o deles. Quando eles terminaram o roteiro e estavam contemplando quais cores de capa e quantas ‘bailarinas’ usar, eu já tinha enviado o meu e estava planejando o próximo. Enquanto eles estavam sentados por aí, esperando saber como os seus roteiros foram recebidos, eu já estava escrevendo o seguinte. Enquanto eles estavam se preocupando em ser rejeitados, eu já estava enviando o meu novo roteiro. Em resumo, eu percebi bem cedo em minha carreira que se você quer ser um escritor… então escreva. É realmente simples assim. Como diz a propaganda: Just do it (N.T.: “Apenas faça” ou “Simplesmente faça” é o slogan da marca de tênis Nike). Faça-o malfeito no começo se for preciso… mas faça. Mais do que qualquer coisa que você for ler ou ouvir de alguma outra pessoa, fazer é a melhor experiência de aprendizado que existe.

OBSERVAÇÃO: Quando eu digo para fazer malfeito se for preciso, eu não quero dizer para fazer malfeito… saber que é ruim e enviá-lo assim mesmo. Se você estiver apenas começando e tiver a sorte de conseguir que um produtor ou executivo de estúdio leia algum dos seus roteiros, é melhor que ele seja bom… porque se ele não for, o próximo irá direto para a lixeira. Quando eu digo bom, não estou querendo dizer que ele deva ser comprado. De fato, eu ainda uso um roteiro que nunca vendi como um modelo de escrita quando vou a negociações de desenvolvimento e reescritas.

Ao reler alguns dos últimos parágrafos eu percebi que alguns de vocês podem sentir que eu adotei uma postura muito dura em relação a isto. O que eu estou tentando fazer ao escrever estas linhas é mostrar-lhe a realidade de ser um escritor na ativa. E uma dessas realidades é que é melhor você ter uma casca dura… porque existem pessoas lá fora que querem lhe comer no café da manhã… do leitor do estúdio que é um escritor frustrado – ao produtor que vai pegar o seu roteiro e transformá-lo na visão dele. Esta é a realidade de Hollywood.

Se você quer ser um roteirista, então esteja preparado para comprometer, a si mesmo e o seu trabalho, porque fazer filmes trata-se de um monte de gente reunindo-se (escritores, produtores, executivos de estúdio, diretores, atores) e cada um deles está tentando trazer a sua própria interpretação do roteiro para as telas. Ah, por falar nisso, após vender o roteiro, adivinha o voto de quem conta menos? Você disse que é o do escritor? Certo você está. Uma vez tendo escrito FADE OUT e entregado o roteiro, a sua contribuição está basicamente terminada.

Então, se você quer escrever e quer conservar alguma aparência de controle sobre o seu trabalho, então eu sugiro que você escreva livros. Por que fazer isto então? Fácil. Porque você não consegue se imaginar fazendo nenhuma outra coisa. Um escritor não é algo que você queira ser – um escritor é algo que você é. PONTO. Você nasceu com isto. Está em seu sangue.

Okey, eu vou sair do meu púlpito agora e voltar aos trilhos. Digamos que você tem uma história e sente que ela é boa. Você começa organizando as suas fichas 3×5. Antes de tudo, qual é a abertura? Por abertura eu quero dizer, o que irá acontecer nos primeiros dez minutos (que são as primeiras dez páginas) que farão o leitor querer continuar? E acredite em mim quando eu lhe digo que um escritor principiante não consegue muito mais do que dez páginas. Se a esta altura você ainda não prendeu a pessoa que está lendo o seu roteiro, ele vai acabar como papel para rascunho ou forrando o fundo da gaiola de passarinho deles. E quando eu digo “prender a pessoa que está lendo”, eu não estou falando de sua mãe ou do seu namorado(a). Eu estou falando de Agentes, Produtores e Executivos de Estúdio.

“Caro Senhor, eu acabei de ler a sua carta de rejeição e devo dizer

que ela não está à altura do padrão que eu esperava”

As pessoas neste negócio que não lhe conhecem, não se impressionam pelo fato de que você realmente se sentou e escreveu um roteiro. Produtores e agentes têm grandes pilhas de roteiros em suas mesas, e se eles não virem rapidamente algo que lhes interesse, está tudo acabado.

Então, usando o nosso enredo acima, a abertura seria o amigo do nosso protagonista sendo morto, e ele sendo culpado pelo assassinato. Okey, este é um gancho. Talvez não seja um dos grandes, mas é um gancho. Então agora nós temos as nossas primeiras dez páginas.

PARE! Você descobriu por que ele foi preso por assassinato? O que faz a polícia suspeitar dele? Os dois tiveram uma briga na noite anterior e ameaçaram matar um ao outro? Obviamente não existem câmeras de vigilância na loja, caso contrário ele poderia provar a sua inocência. Certo? Não necessariamente. Você consegue pensar num jeito de colocar uma fita adulterada no sistema de segurança para incriminá-lo falsamente?

Você está vendo o que eu quero dizer? Pense em todas as possibilidades. Podem não lhe levar a lugar algum… que é o que geralmente acontece… mas de vez em quando você topa com um filão. Mesmo agora, após todos esses anos, eu fico constantemente impressionado com o ofício da escrita… como uma coisa leva a outra. Nunca houve um roteiro que eu tenha escrito onde não tenha aprendido algo novo sobre escrita.

O enredo que o cara criou não é ruim, só não é original. Este foi basicamente o enredo do filme O Fugitivo (The Fugitive, 1993 – adaptação para o cinema da série televisiva de mesmo nome, de 1963), lembra?

Boa escrita para você hoje! 😀

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: