Dicas de Roteiro

13/03/2010

A Quem Pertence o Crédito? (2)

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 10:56
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Olá! Hoje eu vou traduzir o complemento do artigo de Brad Mirman sobre o Crédito Possessório do Diretor, que eu publiquei no dia 07/03/2010. Este post é a resposta de Brad para um email que ele recebeu sobre este assunto. O autor do email foi muito mais agressivo do que aparenta pela minha tradução. O fato é que eu retirei todos os palavrões que ele escreveu pois eu não quis corromper este bloguinho com este tipo de palavras. Eu assumo esta culpa. Como escritora, eu reconheço e valorizo o poder das palavras, elas têm uma força muito maior do que a maioria supõe. Para o bem ou para o mal. Por isto eu as evitei, para que o excesso de animosidade do remetente não pese sobre o espírito de quem lê. Agora vamos ao texto de Mirman:

A seguir está uma mensagem real de e-mail que eu recebi em relação à coluna que escrevi sobre o Crédito Possessório do Diretor.

A princípio, eu não ia responder esta tentativa auto-indulgente, verborrágica, e intolerante de ser inteligente. Eu quero deixar claro que todo mundo tem direito à sua opinião própria. Eu tenho a minha visão sobre o crédito possessório, e outras pessoas têm as delas. Tudo bem. O que me deixa chateado é quando as pessoas têm de lhe atacar para provar o seu ponto de vista.

A minha resposta ao comentários estão escritas nesta cor.


Brad:

Obviamente você tem a sua perspectiva, um roteirista de Hollywood desesperadamente querendo ter certeza de que não será ignorado pelo público, e você pensa que livrando-se do crédito possessório do diretor é o jeito de se conseguir isto.

É, eu me tornei escritor porque eu queria ser famoso. Não é este o motivo pelo qual todos os roteiristas fazem o que fazem? Porque eles têm este profundo desejo de serem famosos?

Pessoalmente, eu não dou a mínima se o diretor quer levar o crédito ou não, mas eu vou lhe contar pelo que o diretor passa.

Nossa, obrigado — após seis filmes e dez anos no ramo é legal que alguém realmente tenha tido o tempo de compartilhar comigo pelo que o diretor passa.

Enquanto você está polindo o seu PRÓXIMO suspensezinho em sua cobertura num condomínio (casa na colina) em Westside (Hollywood), o diretor ainda estará na sala de edição, tentando dar sentido ao seu menos que perfeito roteiro de filmagem.

Me parece que dar sentido ao “roteiro de filmagem menos que perfeito” seria melhor se tivesse sido feito antes de começar a filmar… não depois, na sala de edição.

Enquanto você estava se encontrando com os seus amigos para tomar o desjejum no Hugo’s, o diretor estava no set, encurtando a sua vida ENCURTANDO A SUA VIDA? Vamos deixar o melodrama fora disto, okey? devido ao estress de botar TUDO junto: roteiro, elenco, cenários, maquiagem, figurinos, câmeras, enquanto luta contra elementos de tempo, clima etc.

Enquanto você está aproveitando a sua sopa de ervilhas secas no Jerry’s Deli Eu odeio sopa de ervilhas secas, ele está revisando as filmagens do dia, esperando que dê para montá-la. Pobre Sr. Diretor, ele realmente tem de trabalhar.

Enquanto você estiver recebendo uma massagem no seu spa, (É, tá, como se esta fosse a minha vida e a de outros escritores de Hollywood. Por favor, não divulgue o segredo de como é glamorosa a vida que nós temos.) o diretor ainda estará no set, gritando para a equipe de efeitos especiais até os seus miolos estourarem, porque parece que eles não ouviram nada na primeira reunião de produção. Então ele tem de aplicar o controle de danos e tentar não aborrecer os executivos.

Meses após você ter continuado em frente, ele ainda estará lá, olhos vidrados pela sobrecarga de íons de quatro monitores editando em Avid; Verdade e depois disso ele vai exibi-lo e esperar que faça algum sentido, enquanto aguenta as reclamações do escritor e também dos atores, de que ele arruinou o trabalho deles.

Bem, eu certamente vejo onde o escritor não deveria ser capaz de se pronunciar sobre o material. De qualquer modo, o que há com estes escritores irritantes? Terem a ousadia de pensar que deveriam comentar sobre o material que eles escreveram… como se isto tivesse qualquer coisa a ver com o filme.  Todos nós sabemos que um filme é a visão do diretor. Como é mesmo aquela velha piada…? Um diretor está reescrevendo com o roteirista original — eles brigam — e o diretor diz para o estúdio… “Me arranjem dois escritores a 25 mil dólares por semana e eu irei escrevê-lo sozinho.”

e depois disso ainda tem a música e o som, e outras quatro mil decisões… música e som podem arruinar uma história perfeitamente boa, ou você ainda não percebeu? Sim, Sr. Hostil, eu percebi isto, mas o que a música e o som têm a ver com o crédito possessório?

E então chega o momento da verdade (seis meses a um ano depois): as exibições prévias para o estúdio. E se ele conseguir passar por esta barreira, o próprio público e os críticos podem jogá-lo na sarjeta.

Um roteiro é apenas parte da história — ele muda, EVOLUI, enquanto atores são acrescentados à obra, e o designer de produção, e o Diretor de Fotografia — todos são responsabilidade do diretor. Um roteiro pode mudar por causa do diretor, dos atores e do estúdio. Eu não sei em que tipo de filmes você trabalhou (nenhum que eu tenha achado quando tentei procurar qualquer crédito em seu nome), mas ei, todos nós temos o direito de ser críticos… mesmo se você não souber absolutamente nada sobre o que está falando. Você está falando a sério que um designer de produção muda um roteiro? O que acontece… o designer diz, “Ei, eu sei que esta cena pede por um edifício de escritórios, mas eu tenho um velho celeiro que sobrou do último filme que eu fiz. Por que nós não mudamos o roteiro para rodar em um velho celeiro?”

Eu já vi um escritor perseguindo o diretor por causa de cada decisão até que o roteiro desapontou o diretor, o verdadeiro visionário da obra, e ele jogou o roteiro na sarjeta, exclamando: “Dane-se o roteiro, eu estou fazendo um filme aqui!” Por que você acha que ele fez isto? Para ferir o seu senso de decência? Para ferir o seu ego? Para ferir você pessoalmente? Para dar um golpe em todos os roteiristas do mundo?

É, e eu já vi diretores que mandaram o escritor mudar o próprio roteiro para que se encaixasse na “visão” deles, apenas para perceber que “a visão dele” pode ter sido uma boa ideia na hora, mas não funcionou no set. Então, o que ele faz? Ele corre para o telefone mais próximo e chama o escritor que ele havia expulsado do set. Agora, por que você acha que ele fez isso? Para tirar o dele da reta, eis o porquê.

Não, senhor, isto não é sobre inflar o ego, é sobre levar a cabo um projeto pesado e assumir a responsabilidade por tudo — inclusive a dor e/ou o prazer do resultado — vivendo e morrendo com a obra. O escritor sempre pode reinvidicar a 5ª Emenda [N.T.: a Quinta Emenda da constituição americana (direito a julgamento justo, direito de não se auto-incriminar, proibição do julgamento pelo mesmo crime mais de uma vez)] e dizer que o diretor arruinou a sua obra, e que algum dia ele irá dirigir o seu próprio material, tão cansado de ser maltratado ele está! Quando o roteiro desaponta o diretor, ele tem de fazer algo acontecer para consertar o ponto de vista míope do escritor (Oh, me desculpe, o escritor está no Trader Vic’s celebrando a sua próxima venda a esta altura). Me dá um tempo. Após tudo o que o diretor passou (2 anos de sua vida, contando a partir de tentar consertar o roteiro, atrasando-se porque o escritor quer lutar por sua “visão”). O ponto de vista de um escritor realmente não significa nada demais.

O quê?! O ponto de vista de um escritor realmente não significa nada demais? Com esta única frase, você demonstrou a sua ignorância melhor do que eu poderia ter esperado. O ponto de vista de um escritor é o que permitiu ao diretor e a cada pessoa ligada ao filme ter um emprego.

Se você quer fazer um projeto sobre alienígenas do espaço, chame um escritor, e se ele não lhe der o que você quer, chame outro — assim como qualquer outro elemento da indústria. Isto é sobre dar ao diretor o que ele quer, e se ele quer a coisa certa para o mercado, ele consegue trabalho de novo. Ele é o capitão do navio. E ele afunda junto com o navio — não há nenhum jeito de se eximir da responsabilidade, mesmo se os produtores ferrarem com ele. Então pare de ser tão afetado. Eu, pessoalmente, não ligo se eu levarei o crédito possessório ou não — mas eu o merecerei se eu dirigir um filme. —— W. Keith

Eu darei o crédito ao Sr. Keith por uma coisa: ele é passional em seu ponto de vista. Por mais improcedente que seja. Eu não vou gastar muito mais tempo nisso, mas eu quero dizer isto: Mais tarde neste ano eu irei dirigir o meu primeiro longa. Se eu pegar um crédito de “Um Filme De”, será merecido, porque eu escrevi o roteiro. Eu não ligo para quanto trabalho um diretor faz num filme — este é o seu trabalho… trabalhar. É para isto que ele foi contratado. E, apesar dele ser a força criativa por trás da construção do filme, ele não é o autor do material. Eu sei que é fácil sentar em frente ao computador e tentar deslumbrar-nos com o seu “conhecimento de causa” do ramo cinematográfico… mas a verdade é que tudo começa com o escritor. Ele é o único que começa a partir do nada. Ele começa com uma ideia e atráves de seu talento ele conta uma história… e sem a história ninguém mais na indústria teria um emprego. Então, Sr. Keith, qualquer que seja o motivo que você tem para ser tão amargo em relação aos escritores conseguirem os seus direitos, isso é problema seu. Na realidade, os escritores merecem cada mínimo crédito que conseguirem…. e mais.


Há uma ótima história sobre o roteirista Robert Riskin que escreveu muitos filmes que Frank Capra dirigiu, incluindo Adorável Vagabundo (Meet John Doe, 1941), Horizonte Perdido (Lost Horizon, 1937), O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes To Town, 1936) e Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934). Durante todos os anos de 1940, todo mundo falava sobre “o toque de Capra”, como tudo o que Capra tocava se transformava em ouro. Riskin, após escrever vários filmes com Capra, também estava cansado de escutar isso. Um dia Riskin entrou no escritório de Capra e entregou a ele 120 páginas em branco. Capra, confuso, olhou para ele… e Riskin disse, “Por que você não põe ‘o seu toque’ nisso?”. —— Brad Mirman

O roteirista Robert Riskin, o diretor Frank Capra no set, e os dois juntos.

Como dá para perceber, este é um assunto que desperta muitas paixões. Pessoalmente, eu acho que um filme é um trabalho coletivo, e ninguém deveria ter este crédito possessório, nem mesmo aquelas pessoas que escrevem, dirigem, produzem, atuam, montam, distribuem, e o diabo a quatro. Abrindo uma exceção, todos irão querer também, que na verdade foi o que ocorreu. Uma obra coletiva pertence a todos, é responsabilidade de todos, é o mérito (ou a culpa) de todos. Bem, mas esta é apenas a minha humilde opinião.


Uma escrita muito inspirada para você hoje!

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4 Comentários

  1. Vou ser sincero, eu não consigo pensar na idéia de escrever um roteiro e não ter o direito de dirigí-lo.
    Quando o roteirista escreve, ele pensa em como ficará tudo que ele escreveu em imagens, os ângulos, focos, etc… (pelo menos eu penso dessa maneira).

    Na minha opinião, o crédito possessório deve ser apenas para aqueles que escrevem e dirigem o filme, como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino. Acho que é impossível um diretor conseguir passar tudo o que um filme tenta dizer se não foi ele quem o criou.

    Comentário por Ewerton — 20/03/2010 @ 02:54

  2. Olá, Ewerton!

    Você tem toda a razão. Quando a gente, a partir do nada, cria um universo completo e habitado em nossa cabeça, nós sabemos o que estamos querendo comunicar melhor do que ninguém. No entanto, existem roteiristas que não gostam e nem conseguem dirigir filmes. E diretores que não gostam e nem conseguem escrever roteiros. Neste caso, uma boa parceria é o ideal, todo mundo ganha.

    Quanto ao crédito possessório, quem escreve e também dirige tem todo o direito de ser o autor do filme, o problema é que na prática as coisas são meio diferentes. Sabe aquele caso do diretor que fica mandando o escritor reescrever isso, mudar aquilo etc.? Pois é, numerosas vezes ele acaba ficando com parte do crédito do roteiro, se ele deu muitas ideias para mudar a história. Aí, apesar dele não ter sido o autor original, ele poderia acabar com um crédito possessório também. Assim como os roteiristas que escrevem o roteiro em parceria e dirigem o filme sozinhos. Como fica o parceiro dele, ele também não é o autor? Tem também o caso de diretores que escrevem o roteiro baseado em livros. Eles adaptam a história, mas não a inventam. E tem roteiristas que não dirigem o filme, mas o produzem, e às vezes o filme só existe por causa do empenho, do dinheiro e da ralação do roteirista-produtor que queria muito trazer à vida a sua história. E tem vários casos de estúdios que contratam roteiristas para dirigirem um filme, mas não gostam das primeiras cenas filmadas e pegam outro diretor, porém continuam com o roteiro original (ou o novo diretor muda algo e também fica com parte do crédito do roteiro). Este assunto dá panos para a manga, é cheio de meandros e exceções, por isso que eu falei que preferiria que ele não existisse, mas duvido que o excluam algum dia. Vai ficar tudo do jeito que está mesmo. Só se, por acaso, os roteiristas passarem a ter mais status e voz ativa na indústria, o que acho um pouco difícil, apesar de meritório.

    Valeu pelo comentário, Ewerton, adorei!
    Um abração,
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 20/03/2010 @ 08:07

  3. eu quero saber tipo assim.
    Exemplo :

    Produtor:Rodrigo
    Direção de imagens:Diógenes
    Apoio:audios DBS
    Direção de audio:Daniel
    Direção de cores:Osvaldo

    Eu quero estas ideias para
    colocar no credito do meu filme.
    é só isso que eu quero saber
    alguem tem alguma ideia
    eu precisso mais omenos de umas 30
    ideias como estas para colocar no final do filme.

    alguem me ajude. Obrigado. Thank you. Gracias.

    Comentário por Diógenes B. Dos Santos — 16/09/2010 @ 21:51

  4. Ah Mandem as ideias para meu email que é dbritosantos2010@bol.com.br
    porque eu não vou lembra o nome deste site.
    valeu.

    Comentário por Diógenes B. Dos Santos — 16/09/2010 @ 21:54


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