Dicas de Roteiro

07/03/2010

A Quem Pertence o Crédito?

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 15:27
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Hoje eu vou traduzir um artigo de Brad Mirman chamado O Crédito Possessório do Diretor. Eu o tirei de um site chamado The Screenwriters Homepage, que, pelo jeito, não existe mais (ou eu estou ficando muito velha, ou as coisas na Internet têm vida curta!). O artigo foi escrito por volta de 1996 e, apesar da última greve dos roteiristas em Hollywood, acho que esta regra dos créditos ainda não mudou, mas não tenho certeza absoluta. De qualquer modo, o artigo é interessante:

A velha discussão sobre os diretores receberem o crédito possessório continua sendo uma fonte de frustração para os escritores. Antes de continuar, eu gostaria de explicar, para aqueles que não sabem, o que crédito possessório significa; é o título no começo de um filme que diz: “Um Filme de Fulano de Tal”.

Como a maioria das pessoas da indústria sabe, este é um ponto sensível para os escritores na ativa. Eu sou o primeiro a admitir que os escritores são um bando de gente sensível. Entretanto, não é de se admirar que nós sejamos. São sempre os diretores, atores e produtores que recebem os louvores enquanto os escritores são deixados nas sombras com somente uma menção por sua contribuição. Quantos artigos de revista ou programas de entretenimento televisivos você vê onde o diretor, o elenco e os produtores são entrevistados? Um montão. Agora pense em quantas dessas entrevistas incluem os escritores. Quase nenhuma.

Você deve estar se perguntando, “Por que os escritores ficam tão revoltados por causa disto? É só um crédito, certo?” Errado. O crédito possessório implica em autoria. Ele dá a ilusão de que o diretor foi a única força criativa por trás do filme.

Geralmente, quando um filme chega às telas e é aclamado pela crítica, o foco e o crédito é dado ao diretor e ao elenco. Olha, eu não estou tentando minimizar as contribuições deles. Fazer um filme é um esforço de colaboração em conjunto — mas certamente o escritor faz parte da equação.

“Milhares e milhares de detalhes… entram na produção de um filme. É a soma total de todas

estas coisas que, ou faz um grande filme, ou o destrói.” — David O. Selznick, Produtor

É difícil entender exatamente sobre o que eu estou falando a não ser que você seja um escritor na ativa, mas deixe-me tentar explicar dando um exemplo. Você gasta três meses (ou mais) em seu pequeno escritório criando alguma coisa a partir de nada a não ser uma ideia. Você trabalha duro no seu roteiro, inserindo vida em seus personagens e dando a eles palavras para dizerem que irão emocionar as pessoas.

Você vende o seu roteiro para o estúdio e eles contratam um diretor. O diretor vem e lhe diz como é ótimo o seu roteiro — e então puxa do bolso uma lista de mudanças que é mais longa do que o corredor de sua casa. Você faz as mudanças porque, francamente, você não tem escolha (se você não fizer, eles irão contratar outra pessoa que fará isso) e você pensa que pelo menos você pode lutar por (e talvez ganhar) alguns pontos. Então a filmagem começa. De repente você passa a ser uma não-entidade. Você não tem voz ativa, nada a declarar. Nada.

Se você for um escritor que tem sorte suficiente para estar no set de filmagem (a maioria dos diretores quer você bem longe dele), você consegue assistir todas as cenas que o diretor prometeu não mudar, serem mudadas.

Então, vamos recapitular. Você escreve um roteiro. Você trabalha no roteiro com o diretor. Você reescreve no set durante as filmagens. Você esteve envolvido no processo criativo desde que escreveu FADE IN:, e você esteve lá até o final da filmagem. Ainda assim, o diretor fica com um crédito que dá a aparência de que ele, ou ela, foi a única força motriz que trouxe a história para as telas.

Muitos anos atrás, quando a WGA (Writer’s Guild of America) concordou que os diretores recebessem o crédito possessório, foi por causa dos diretores que tinham nomes importantes. Hitchcock, Preminger, Wilder etc. Isto foi feito sob a impressão de que dar este crédito aos diretores com nomes reconhecidos faria as pessoas quererem ir ver o filme. Eu ainda acho que esta foi uma má ideia, porque não importa o quão grandes esses diretores eram, eles ainda assim não escreveram todos os filmes que dirigiram. E, é claro, o crédito possessório se tornou o prêmio ambicionado por outros diretores. Se tornou (naquela época) um símbolo de status. Logo todos os diretores queriam ter um crédito possessório.

É claro que hoje em dia praticamente todo diretor leva o crédito no começo do filme. Toda a ideia que motivou a criação deste crédito foi perdida. Quero dizer, quando você vê “Um Filme de Skippy Hertzblatter”, que atração isto pode exercer sobre as bilheterias? Nenhuma. Serve apenas para alimentar o ego dos diretores às custas do escritor.

Por hoje é só. Boa escrita para você!

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