Dicas de Roteiro

28/02/2010

Escrevendo Comédias

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 22:04
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O artigo de hoje foi retirado do site Script Secrets, escrito por William C. Martell, e chama-se Engraçado Por Um Minuto. Martell está reescrevendo muitos dos seus artigos e este foi um deles. Eu juntei o texto do que eu havia imprimido há alguns anos com o do atual. Os filmes analisados neste artigo são: The Bros. (um filme independente obscuro), Com a Cor e a Coragem, Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e, citados em menor escala, 48 Horas, Super-Herói – O Filme, A Um Passo da Eternidade, Superstar – Despenca Uma Estrela, e Corky Romano.

Você sabe a diferença entre um quadro humorístico muito ruim do Saturday Night Live (N.T.: Programa de quadros humorísticos isolados, tipo Zorra Total), e um realmente bom? O quadro ruim começa com uma premissa engraçada, mas não a explora. Às vezes é só um personagem que é engraçado, às vezes é uma situação, às vezes é só uma ideia. É como se a ideia básica fosse engraçada o suficiente para sustentar todos os 10 minutos do quadro. Nenhuma ideia é engraçada por 10 minutos. Um personagem engraçado não é engraçado por dez minutos (o que explica o motivo do filme Superstar – Despenca Uma Estrela ter sido um fracasso — aquele personagem não era engraçado o suficiente nem para um quadro humorístico!) — o personagem é engraçado quando é apresentado… então você tem oito ou nove minutos sobrando sem nada de engraçado acontecendo no quadro.

Um quadro humorístico do SNL realmente bom pega a ideia ou o personagem engraçado e cria uma série de situações cômicas crescentes que exploram aquela situação. Cada uma dessas situações é engraçada por si própria — uma gag — mas quando combinada com o quadro ou o personagem cômico, ela cria uma risada após a outra, cada gag superando aquela que veio antes. Basicamente, você precisa de mais de uma coisa engraçada para sustentar um quadro humorístico de 10 minutos. A premissa ou personagem é a MOLDURA onde você pendura as gags engraçadas. Cada gag EXPLORA a premissa ou o personagem, mas também é engraçada por si só.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  COMEÇO DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Então quando se trata de um filme de “comédia” de 92 minutos como The Bros. (que eu assisti no Festival de Cinema Raindance em 2001) você esperaria que ele tivesse mais do que uma piada. O roteiro de Jonathan Figg é sobre uma dupla de jovens brancos suburbanos que sonham em se tornar gangsta rappers (N.T.: Quem escreve ou canta gangsta rap, uma variedade da música rap que se distingue por sua ênfase em temas como violência, sexo explícito e uso de drogas). Esta é uma premissa engraçada… mas é tudo o que o roteiro tem a oferecer. Eles cantam rap em estacionamentos de shopping centers, eles roubam cartões de crédito quando precisam de novos pares de tênis, eles fumam bagulho, eles fazem uma fita demo em seu gravador de fita cassete vagabundo… mas eles não fazem ou dizem nada particularmente engraçado, nem se envolvem em nenhuma situação que seja engraçada. O filme tem uma uma piada: Caras brancos fingindo ser negros. Nós entendemos isso nos primeiros 2 minutos, o que faz com que os 90 minutos restantes sejam um tédio.

Nunca subestime a importância de coisas engraçadas numa comédia.

Então onde você encontra essas coisas engraçadas? Explore o conflito! The Bros. nunca estabelece nenhum conflito, é apenas uma série de eventos. Eles se encontram com um representante artístico que acha que eles não têm nenhum talento — isto se parece com um conflito, mas não há nenhuma luta envolvida. É uma cena morta. Existem conflitos embutidos na ideia de “Caras brancos que pensam que são negros”, mas o roteiro nunca os explorou. Pense em como foi engraçada a cena com Eddie Murphy num bar caipira no filme 48 Horas… por que não fazer uma cena semelhante? Muita gente pensou que Elvis era negro ao ouvir a sua música, e ficaram chocados quando o conheceram pessoalmente. Em quais situações você poderia colocar esses dois caras brancos suburbanos onde eles seriam peixes fora d’água? Se apresentando num rally dos Panteras Negras? E se eles se tornassem as estrelas de rap preferidas de algum membro de gangue e ele os convidasse à sua casa? Existem um milhão de possibilidades — e este filme não explora nenhuma delas. Ele ficou preso à ideia inicial, nunca aumentando o conflito ou explorando diferentes aspectos dele.

Compare isto com o Com a Cor e a Coragem (Undercover Brother, 2002) — um filme com uma premissa engraçada que mantém as piadas fluindo. Uma vez que tenhamos sido apresentados ao protagonista de UB — que parece ter saído de um filme dos anos 70 — a história o envolve numa aventura também típica dos anos 70: O Homem — que mora numa ilha-fortaleza, tem um plano maligno de drenar a cultura negra da alma do protagonista usando para este fim galinha frita drogada. O filme apresenta gag após gag — tudo extraído da premissa. Além disso — nós vemos aquelas ótimas set pieces (N.T.: Set piece é uma elaborada sequência que mostra uma perseguição, uma luta ou outra ação executada de um modo original e memorável), do sequestro de James Brown ao UB se disfarçando como um Afro-Americano de classe média completamente insípido, até uma perseguição de carros estrelando UB dirigindo uma versão dos carros de James Bond (com gadgets [N.T.: Aparelhos mecânicos ou eletrônicos, geralmente pequenos e modernos] engraçados dos anos 1970). O filme se aprofunda na premissa para encontrar mais e mais humor.

PARÓDIA EXTRA


Eu não assisti ao filme Espartalhões, mas achei que entre os filmes da franquia Todo Mundo Em Pânico, o terceiro e o quarto foram os melhores… quando eles fazem paródias de filmes que também têm piadas… e eu gostei do Super-Herói – O Filme também. Eu acho que esta é a chave para os Filmes de Paródia — eles não podem simplesmente macaquear algum outro filme, eles precisam ter piadas também. Eles precisam começar com a cena de paródia e então extrair dela todas as gags possíveis — de modo que ao invés de esperar pela próxima piada, nós rimos tanto que acabamos perdendo algumas piadas e temos que (pagar para) assistir o filme de novo.

Se você olhar um filme como Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu, eles fazem uma paródia da cena da praia do filme A Um Passo da Eternidade, onde Burt Lancaster e Deborah Kerr namoram na areia enquanto as ondas quebram sobre eles. Esta é uma cena famosa porque quando ele foi feito, estava ultrapassando os limites do que era aceitável num filme em termos de sexo. Você não podia mostrar uma mulher de calcinha e sutiã dando amassos num homem de cuecas naquela época, mas eles foram sorrateiros e botaram um homem e uma mulher dando amassos em roupas de banho. Não é muito diferente, na verdade… exceto que quando aquelas ondas vieram cobrindo o casal, passamos a ter roupas de banho molhadas que mostravam cada curva do corpo de Deborah Kerr. Então esta era uma cena muito quente naquela época. Um filme ruim de paródia iria apenas colocar os seus personagens naquela cena — ei, é uma cena famosa de um filme! Vamos simplesmente botar os nossos personagens nela!

Mas a versão de Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu não copia simplesmente a cena…

Quando as ondas lavam o casal namorando, elas deixam algas e outros entulhos para trás. Esta é a piada número um. E cada vez que uma onda passa sobre eles, ela deixa mais alguma coisa para trás — caranguejos, algas marinhas, peixe… esta é uma piada que continua rendendo!

O casal continua a se beijar com todo aquele lixo sobre eles… e então eles têm uma ótima cena de diálogo relacionada à história sobre ele ter de partir pela manhã numa missão ultra-secreta — ele conta a ela o alvo exato, onde eles darão um bypass nos radares inimigos, etc. — cada mísero detalhe da missão. Mas quando ela pergunta a ele quando ele estará de volta… ele diz que isso é segredo. Então surgem outro punhado de piadas.

Ah, e os nomes das cidades que eles estão atacando são nomes de drinks de bebidas tropicais. Meia dúzia de cidades mencionadas é meia dúzia de mais piadas.

Então, quando outra onda passa sobre eles… praticamente os leva para o mar aberto! É a última gag e o final da cena.

Eles não apenas parodiaram a cena, eles acrescentaram uma tonelada de piadas — que são relacionadas à história! Eles exploraram a história, os personagens, e a premissa para fazer piadas. Eles não foram mais longe — eles foram mais fundo. E esta cena acabou sendo não apenas uma paródia de uma cena famosa — mas também forneceu umas duas dúzias de piadas além da paródia.

No meu curso de 2 dias eu mostro um clip da cena mais importante do Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu. É aquela onde a mocinha tem de re-inflar o piloto automático usando um tubo na área do cinto dele. Ok, esta é uma cena realmente engraçada, mas ela também mostra que o piloto automático não é confiável e que eles precisam de um piloto de verdade para aterrissar o avião (o nosso herói), e mostra a aeromoça seguindo em frente com um novo relacionamento após romper com o nosso herói segundos antes de subir a bordo do avião. A cena também mostra algumas coisas relacionadas à história — você NÃO PODE cortá-la do filme — ela é crítica para a história. Sem esta cena, eles não precisam de nosso herói para pilotar o avião, o “Automático” pode fazer isso. Ei, esta é a parte do conflito físico da história! E o fim do relacionamento romântico com a aeromoça é o conflito emocional! E essa é a história toda! Uma cena precisa ser engraçada e relacionada à história.

É importante você imaginar tantas gags quanto puder — não se censure. Se os caras do The Bros. vão se passar por negros, eles precisarão de um Dicionário de Gueto? Talvez um curso de áudio do Berlitz? Irão eles assistir ao vídeo do Snoop Dogg e imitar os movimentos dele? Um deles experimentará os cortes de cabelo do Coolio? Poderia o plano de mestre deles ser tornarem-se Michael Jacksons ao contrário — onde eles fazem cirurgia plástica para parecerem mais negros? E que tal extensores de pênis? Poderíamos usar o humor para explorar clichês raciais e preconceitos? Faça uma imensa lista de ideias engraçadas a fim de poder escolher as melhores para o roteiro.

A comédia também pode ser encontrada nos relacionamentos com os outros personagens. O melhor modo de fazer isso é através do contraste. A premissa do The Bros. presta-se a usar o humor de contraste para explorar a busca dos personagens por identidade… o ruim é que eles nunca usam isso! Nós temos esses dois jovens brancos suburbanos que fingem ser negros… mas ao invés de extrair humor desta situação fazendo o contraste entre a escolha que fizeram com os pais deles sendo ultra-suburbanos e ultra-brancos (N.T.: Ultra-conservadores), Figg os faz um “lixo branco” caipira (N.T.: “Pessoas brancas pobres e ignorantes”). Os pais não criam NENHUM contraste — então não há chance nenhuma de tirar humor de cenas estreladas pela família. Corky Romano, o filme anterior de Chris Kattan, o fiel escudeiro em Com a Cor e a Coragem, comete o mesmo erro — ao fazer todos os mafiosos serem excêntricos, eles desperdiçaram o humor da situação. Corky se ENCAIXA perfeitamente em sua família… e não há nenhuma graça nisso! Quanto mais contraste entre Corky e sua família, maior a graça — o que significa que os mafiosos precisariam se bem-comportados!

The Bros. poderia ter extraído humor do contraste entre os aspirantes a gangsta rappers brancos e os VERDADEIROS gangsta rappers. Eles poderiam ter sido peixes fora d’água DUAS VEZES! O roteiro nem mesmo usa este método de comédia UMA ÚNICA VEZ!

Após cerca de 60 minutos de filme nós vemos nossa primeira set piece: um par de assaltos. Isto revela um sério problema de ritmo. O filme não apenas tem só uma piada, como tem apenas uma set piece! Em mais de 90 minutos! Qualquer gênero necessita de alguma coisa excitante acontecendo a cada dez minutos, ou então irá se arrastar. O ritmo é o batimento cardíaco de um roteiro, e você não quer ter apenas uma batida cardíaca no roteiro inteiro! Esse é um filme morto! Uma set piece engraçada a cada 10 minutos assegura que o público tenha algo novo para rir num ritmo regular, e que você terá pelo menos 9 situações engraçadas no seu filme. Mas isto significa que você tem de criar 9 situações engraçadas! Uma situação engraçada em um filme de 92 minutos não é o suficiente. Você precisa de mais do que uma simples piada para fazer um filme… Você precisa ter tantas gags quanto Com a Cor e a Coragem, Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e Super-Herói – O Filme têm, para quando alguma não funcionar, ainda haja muitas outras vindo! Com a Cor e a Coragem tem tantas gags que eles guardaram um bocado para os créditos finais… e  Super-Herói – O Filme tem cerca de uma centena de gags nos créditos finais! Existem personagens que aparecem apenas nas gags dos créditos finais (como o Homem Papel Higiênico). A sua comédia tem o suficiente desse material engraçado nela?

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Para cada cena, crie uma página de gags. Deste modo você pode selecionar as melhores, e ainda ter o suficiente no roteiro para que, se alguma falhar, você ainda tenha risadas (no plural) na cena.

Escrever comédia não é fácil.

Boa escrita para você hoje!

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2 Comentários

  1. poh eu quero um roteiro para a esola pra amanhã uma hisrória de comédia q enclua 8 personagens

    Comentário por karla thaina motta da cruz — 26/04/2010 @ 19:45

    • Olá, Karla!

      Creio que você esteja interessada em um roteiro para fazer uma peça na escola, não é mesmo? Eu mesma já escrevi uma quando estava no ginásio, mas infelizmente a perdi… Dê uma olhada neste link do site Roteiro de Cinema. Lá tem muitos roteiros de seriados brasileiros, talvez você encontre algo que sirva!

      Boa sorte no seu trabalho, divirta-se com sua peça!! 😉
      Um super abraço,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/04/2010 @ 21:33


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